Destaques do livro Guia para águias que acreditam ser frangos Anthony de Mello Parte 2

Sob vários aspectos, vivíamos drogados quando éramos jovens. Fomos educados para depender de pessoas. Para quê? Para que nos forneçam aceitação, aprovação, elogios, aplauso — o que chamam de sucesso. Todas essas são palavras que não têm correspondência na realidade. São convenções, coisas inventadas, mas não percebemos que elas não correspondem à realidade. O que é o sucesso? É o que um grupo decidiu que se trata de uma coisa boa. Outro grupo pode decidir que essa mesma coisa é ruim. O que é bom em Washington pode ser considerado ruim em um mosteiro cartusiano. Sucesso em um círculo político pode ser visto como fracasso em outros círculos. São convenções. Mas nós as tratamos como realidade, não é? Quando jovens, somos programados para a infelicidade. Ensinam-nos que para sermos felizes precisamos de dinheiro, sucesso, um parceiro bonito na vida, um bom emprego, amigos, espiritualidade, Deus — o que você quiser.

Só existe uma saída, que é desprogramar-se! Como você pode fazer isso? Você tem que tomar consciência da programação. Você não será capaz de mudar por um esforço da vontade; não conseguirá mudar com base em ideais; nem construindo novos hábitos. Seu comportamento poderá mudar, mas você não. Você só muda tomando consciência e compreendendo. Quando passa a ver uma pedra como uma pedra e um pedaço de papel como um pedaço de papel, então você deixa de achar que a pedra é um diamante e que o pedaço de papel é um cheque de 1 bilhão de dólares. Quando enxerga isso, você muda. Porque não há mais violência em sua tentativa de mudar. Caso contrário, o que você chama de mudança é simplesmente mudar os móveis de lugar. Seu comportamento muda, mas você não.

Somos distraídos demais por esses apegos. Às vezes, durante um tempo o mundo se rearranja e fica mais adequado ao nosso apego, e então dizemos: “Oba, que fantástico! Meu time ganhou!”. Mas, espere; isso muda; amanhã você estará deprimido.

Experimente esse pequeno exercício por alguns minutos. Pense em algo (ou alguém) por que você se sinta apegado. Isto é, algo ou alguém que, se você não tiver, não será feliz. Pode ser seu emprego, sua carreira, sua profissão, seu amigo, dinheiro, o que for. Diga, então, a esse objeto ou pessoa: “Eu realmente não preciso de você para ser feliz. Estou apenas me iludindo com essa crença de que sem você não posso ser feliz. Mas na realidade não preciso de você para a minha felicidade; posso ser feliz sem você. Você não é minha felicidade, você não é minha alegria”. Se seu apego é uma pessoa, ele ou ela não ficará feliz em saber disso, mas vá em frente mesmo assim. Você pode também dizer isso na intimidade de seu coração. De qualquer modo, estará fazendo contato com a verdade; estará destruindo uma fantasia. A felicidade é um estado de não ilusão, de ficar livre da ilusão.

Eu me divirto muito às vezes ao ver pessoas supostamente objetivas, como terapeutas e orientadores espirituais, referindo-se a alguém dizendo: “Ele é um cara ótimo, excelente, eu realmente gosto dele”. Em alguma hora todos descobrimos que é pelo fato de uma pessoa gostar da gente que gostamos dela. Olho para dentro de mim e vejo isso acontecer a toda hora: Se você ainda está apegado a aprovação e elogios, enxergará as pessoas conforme elas se mostrem como uma ameaça ou um incentivo a seu apego.

Quando morro para a necessidade de pessoas, então fico no meio do deserto. No início, a sensação é terrível, de solidão, mas se você resiste por um tempo, de repente descobre que não está absolutamente só.

Ela me perguntou se o nervosismo dela poderia se dissipar e se ela teria condições de ficar em paz. Vocês percebem qual é o apego aqui? Paz. É o apego dela à paz e à calma. Ela estava dizendo: “A não ser que eu tenha paz, não serei feliz”. Já passou pela cabeça de vocês que podem ser felizes no meio da tensão? Antes da iluminação, eu costumava ficar deprimido; após a iluminação, continuo a ficar deprimido. Você não pode fazer do relaxamento e da sensibilidade uma meta. Alguma vez já ouviu falar de gente que fica tensa tentando relaxar? Se a pessoa fica tensa, simplesmente tem que observar sua tensão. Você nunca vai compreender a si mesmo se ficar tentando mudar. Quanto mais tentar mudar, pior vai ficar. O que é preciso é despertar. Procure tomar consciência daquele telefone que não para de tocar; procure sentir os nervos à flor da pele; entre em contato com a sensação de girar o volante do carro. Em outras palavras, venha até a realidade e deixe que a tensão e a calma cuidem de si mesmas. Na verdade, de qualquer modo você vai ter que deixar que elas cuidem de si mesmas, porque estará ocupado demais entrando em contato com a realidade.

Seu ego, esperto como ele é, está tentando empurrá-lo para a conscientização. Observe isso! Você enfrentará resistência; surgirão problemas. Quando alguém fica ansioso tentando o tempo todo tomar consciência das coisas, podemos identificar uma leve ansiedade. As pessoas querem estar despertas, checar se estão de fato despertas ou não.

É por isso que as pessoas estão sempre procurando um sentido para a vida. Só que a vida não tem sentido; não pode ter sentido porque o sentido é uma fórmula; o sentido é algo que faz sentido para a mente. Toda vez que você extrai um sentido da realidade, você se choca com algo que destrói o sentido que você lhe atribuiu. O sentido só é encontrado quando você vai além dele.

Primeiro: eu não me identifico. Se percebo que um sentimento depressivo está me rondando, em vez de ficar tenso por causa disso, em vez de ficar irritado comigo por causa disso, eu compreendo que estou ficando deprimido, decepcionado, ou seja o que for. Segundo: eu admito que esse sentimento está em mim, e não em outra pessoa, que pode ser, digamos, uma pessoa que não tenha respondido uma carta minha, e que tampouco está no mundo exterior; está em mim. Terceiro: não me identifico com o sentimento. O “eu” não é esse sentimento. O “eu” não está só, o “eu” não está deprimido, o “eu” não está decepcionado. A decepção está ali, mas se você a observar, ficará assombrado ao ver como ela vai embora rapidinho.

Veja a Parte 1