Os Fundamentos da Meditação

Os Fundamentos da Meditação

Em preparação para a meditação sentada, coloque a perna direita sobre a perna esquerda e a mão direita sobre a mão esquerda. Sente confortavelmente com as costas eretas, sentindo-se equilibrado e relaxado. Se perceber que essa postura não é adequada, você pode sentar dum modo que seja mais confortável, até mesmo sentando numa cadeira se for necessário. Não se incline demasiado para a esquerda ou direita, para frente ou para trás. Não incline a cabeça demasiadamente para trás ou a deixe pendurada para baixo. Feche os olhos o suficiente de modo que você não se sinta tenso ou pressionado. Agora, estabeleça a atenção e imagine que você está sentado totalmente só.

Seguindo e Contando a Respiração

Primeiro dirija a sua atenção para seguir a inspiração à medida que ela passa em três pontos distintos – começando no nariz, descendo através do coração e terminando no umbigo; segundo, siga a expiração em ordem reversa – começando no umbigo, subindo através do coração e terminando no nariz. Com a atenção plena estabelecida na inspiração e expiração e depois de conseguir habilidade na notação desses três pontos, continue então com plena atenção nas inspirações e nas expirações apenas no nariz. Mantenha a atenção na sensação da respiração observando apenas esse ponto.

Se você descobrir que a mente se distraiu – vagueando para o futuro, pelo passado, pensando diferentes coisas – então re-estabeleça a atenção e deixe de lado esses pensamentos. Se a distração persistir então temos que incrementar o esforço. Uma boa técnica para ajudar a incrementar a concentração é contar a respiração em pares.

Ao contar em pares, contamos ‘um’ ao inspirar e ‘um’ ao expirar. Com a inspiração seguinte contamos ‘dois’ e com a expiração, ‘dois’. Depois in – ‘três’, ex – ‘três’; in – ‘quatro’, ex – ‘quatro’; in – ‘cinco’, ex – ‘cinco.’ Primeiro contamos em pares até cinco.

Depois do quinto par recomeçamos novamente do ‘um’ e aumentamos a contagem das inspirações e expirações um par de cada vez. Contamos in-ex, ‘um’; in-ex, ‘dois’; in-ex, ‘três’ … até ‘seis’. Depois de contar cada par de inspiração e expiração começamos novamente no ‘um’ e aumentamos um par de cada vez até chegar no ‘dez’. Usando este método teremos consciência se a nossa atenção plena está com a contagem – concluindo a contagem corretamente – ou perdida e distraída.

Quando tivermos habilidade na contagem das respirações, veremos que a respiração é percebida com mais nitidez. A velocidade de contagem pode então ser aumentada do seguinte modo: com a inspiração contamos, ‘um dois três quatro cinco,’ e depois com a expiração, ‘um dois três quatro cinco.’ Quando tivermos habilidade na contagem até cinco, podemos aumentar o número até seis. Inspirando, conte, ‘um dois três quatro cinco seis,’ depois expirando conte, ‘um dois três quatro cinco seis.’

Podemos fazer experimentos para ver se isso é suficiente para manter a nossa atenção ou não. Como alternativa, podemos simplesmente continuar contando até cinco. Não importa o método, escolha o mais confortável. Deveríamos contar desse modo até que tenhamos habilidade e proficiência. Por fim, nos daremos conta de que a mente abandonou a contagem por si mesma e sente-se confortável simplesmente percebendo a inspiração e a expiração no nariz. Isto pode ser descrito como uma mente pacificada através do método da contagem.

Buddho

Além disso, podemos usar a palavra de meditação ‘Buddho’ – ‘aquele que sabe’ – recitando-a internamente juntamente com a inspiração e a expiração. Inspirando, recitamos ‘Buddho,’ expirando recitamos ‘Buddho.’ Ou podemos recitar ‘Bud’ com a inspiração e ‘dho’ com a expiração. Aquilo que funcionar melhor, seguimos repetindo a palavra continuamente em sincronia com a respiração. Quando a mente se acalmar, a palavra irá desaparecer naturalmente por si mesma sem o nosso conhecimento. Simplesmente saberemos que a respiração está entrando e saindo. À medida que ficarmos mais calmos a respiração ficará cada vez mais refinada até que pareça ter desaparecido por completo. Neste caso, simplesmente ficamos com o saber, fixando-o no ponto em que a respiração foi percebida por último. Algumas vezes enquanto observamos a respiração, a mente vagueia pensando e fantasiando acerca do passado e do futuro. Nessas ocasiões temos que fazer esforço e regressar para o momento presente, a atenção na respiração. Se a mente estiver vagueando demais  de modo que não consigamos focar nossa atenção, então podemos respirar  profundamente, enchendo os pulmões até a capacidade máxima antes de exalar. Devemos inalar e exalar profundamente desse modo três vezes e depois retornar à respiração normal. Podemos em seguida empregar qualquer um dos métodos explicados anteriormente.

Meditação Andando

A meditação também pode ser desenvolvida caminhando. Fique em pé com calma, as mãos levemente juntas à frente, a direita sobre a esquerda. A cabeça não deve estar nem demasiado elevada e nem caída para baixo. Os olhos devem fitar adiante a uma distância uniforme e não devem se desviar para a esquerda ou direita, nem demasiado próximo e nem distante. Enquanto caminhamos para cá e para lá coordenamos os movimentos dos nossos pés com a palavra de meditação ‘Buddho’. Quando damos um passo à frente, começando com o pé direito, internamente recitamos ‘Bud’ e com o pé esquerdo ‘dho’.

Ajaan Chah ensinava que ao praticar a meditação andando devemos estar atentos ao começo, meio e fim de cada passo. Enquanto recitamos ‘Bud-dho’ devemos também fixar a atenção no conhecimento dos movimentos em relação a esses três pontos ao longo do caminho. Chegando ao fim do caminho, paramos e re-estabelecemos a atenção plena antes de dar a volta e retornar caminhando, recitando ‘Bud-dho,’ ‘Buddho,’ ‘Bud-dho’ da mesma forma que antes.

Podemos ajustar a nossa prática de acordo com o tempo e o lugar. Se houver espaço podemos estabelecer um caminho com 25 passos de comprimento. Se houver menos espaço podemos reduzir o número de passos e caminhar mais lentamente. No entanto, ao praticar a meditação andando, não devemos caminhar nem demasiado rápido e nem demasiado lento.

Estágios de Concentração

A essência da meditação é focar a atenção plena exclusivamente no objeto de meditação. Quando a atenção plena estiver estabelecida do modo apropriado, então, o coração estará continuamente consciente do processo de contagem ou recitação, ou caminhada, não se recordando de nada mais. Enquanto estiver dotado da atenção plena, o coração estará livre dos cinco obstáculos do desejo sensual, má vontade, torpor e preguiça, inquietação e ansiedade, e dúvida iii . A concentração então se firma, caracterizada pela pacificação temporária da mente chamada concentração momentânea, (khanika samadhi) iv.

Se mantivermos o foco com atenção plena contínua, então algumas vezes experimentaremos o prazer. O prazer é caracterizado por sensações físicas de frescor, ou uma onda de energia que se espalha pelo corpo como ondas que quebram na praia. Essas sensações podem fazer com que o corpo oscile ou os pêlos fiquem em pé e são acompanhadas por percepções de expansão física. Algumas vezes pode parecer que as nossas mãos e pés desapareceram. Sensações em outras partes do corpo, até mesmo a sensação do corpo como um todo, podem da mesma forma desaparecer da consciência.

Durante esse período em que está em paz, a mente temporariamente abandona o seu apego ao corpo físico e como conseqüência experimenta apenas sensações de leveza e tranqüilidade. Sentados em meditação, com o incremento dessa tranqüilidade, pode parecer que estamos flutuando no espaço, dando origem a sentimentos de felicidade e bem-estar. Nesse ponto podemos dizer que o poder da nossa concentração se aprofundou até o nível da concentração de acesso.

Com a concentração se aprofundando ainda mais, o coração experimenta ainda mais prazer intenso e felicidade, junto com um sentimento de profunda força interior e estabilidade. Todos os pensamentos cessam e a mente se torna absolutamente quieta e unificada. Nesse estágio nós não somos capazes de controlar ou dirigir a meditação. A mente segue o seu curso natural, entrando num estado unificado com apenas um único objeto na consciência. Esse é o nível da concentração de absorção,
(jhanas).

Trecho do livro Ensinamentos fáceis, verdades profundas