Moralidade se parece muito com a religião, mas não é. Osho

A virtude é algo que tem de acontecer a cada momento, tal como a humildade. A humildade não pode ser cultivada, e uma mente que não tem humildade não é capaz de aprender. Portanto a virtude não tem qualquer autoridade. A moralidade social não é moralidade nenhuma; é imoral, porque admite a competição, a ganância, a ambição, e portanto a sociedade encoraja a imoralidade. Krishnamurti fonte

A religião sempre se deteriora em moralidade. Moralidade é uma religião morta. As duas nunca se encontram; não podem se encontrar, porque vida e morte nunca se encontram; luz e trevas nunca se encontram. Mas o problema é que elas parecem iguais – o cadáver parece um homem vivo. Tudo é parecido com o homem vivo: o mesmo rosto, os mesmos olhos, o mesmo nariz, o cabelo, o corpo. Só falta uma coisa, e essa coisa é invisível.

A vida está faltando; mas a vida não é tangível nem visível. Assim, quando um homem morre, ele parece ainda estar vivo. E com o problema da moralidade, a questão fica mais complexa.

A moralidade se parece muito com a religião, mas não é. É um cadáver: ela tem fedor de morte. Religião é juventude, religião é frescor – frescor das flores e do orvalho pela manhã. Religião é esplendor – esplendor das estrelas, da vida, da própria existência. Quando a religião existe, não há moralidade alguma e a pessoa é moral. Mas não há moralidade; não há nem ideia do que seja moralidade. É simplesmente natural; ela segue você como sua própria sombra. Você não precisa carregar sua sombra; não precisa pensar nela. Não precisa olhar para trás para ver se a sombra ainda o está seguindo. Ela simplesmente segue.

É assim que naturalmente a moralidade acompanha um indivíduo religioso. Ele nunca pensa nela, nunca pensa deliberadamente; para ele, é algo natural. Mas, quando a religião está morta, quando a vida desaparece, então se começa a pensar continuamente na moralidade. A percepção desapareceu, e a consciência se torna o único abrigo.

A consciência é um pseudofenômeno. A percepção é sua, a consciência é emprestada. A consciência é da sociedade da mente coletiva; ela não surge no seu próprio ser. Quando você está perceptivo, age corretamente porque o seu ato é um ato adulto, ciente, e o ato adulto e ciente nunca pode dar errado. Quando seus olhos estão plenamente abertos e há luz, você não tenta atravessar a parede: você abre a porta e passa por ela. Quando não há luz e seus olhos não enxergam bem, você tateia no escuro. Tem que pensar mil e uma vezes onde está a porta: “À esquerda? À direita? Estou andando na direção certa?” E você vai esbarrando nos móveis, e tenta sair pela parede.

O indivíduo religioso é aquele que tem olhos para ouvir, que tem percepção. Nessa percepção, as ações são naturalmente boas. Deixe-me repetir: naturalmente boas. Não que você as manipule para serem boas. A bondade manipulada não é boa. É pseudo, é pretensão, é hipocrisia. Quando a bondade é natural, espontânea, simplesmente como as árvores são verdes e o céu é azul, assim também o homem religioso é moral – completamente inconsciente de sua moralidade. Ciente de si próprio, mas inconsciente de sua moralidade, ele não tem ideia de que é moral, de que é bom, de que está fazendo a coisa certa. De sua percepção vem a inocência; de sua percepção vem o ato certo – naturalmente.

Osho em O homem que amava as gaivotas