Fácil e Difícil – Anthony De Mello

Fácil e Difícil

Precisamos nos libertar de nossa história e da programação a que fomos submetidos para poder responder por nós mesmos. Só o que nasce de dentro para fora é autentico e pode nos libertar. Só podemos assumir e considerar como nosso, alcançando assim a liberdade, aquilo que vem de dentro.

“Conta-se que existia um grande professor chamado Buso, que era casado e tinha uma filha. Todos da família eram conhecidos por sua grande sabedoria e santidade. Um dia, um homem aproximou-se do professor e pergun­tou: ‘A iluminação é fácil ou difícil?  E Buso respondeu: ‘É tão difícil quanto chegar à Lua’. Inconformado, o homem foi falar com a mulher de Buso e lhe fez a mesma pergun­ta. Ela respondeu: ‘É muito fácil. Tão fácil quanto tomar um copo d’água’. O homem ficou intrigado e, para livrar-­se das dúvidas, fez a mesma pergunta à filha do professor, que lhe respondeu:’Ora, .se o senhor  torna as coisas difíceis, é difícil, mas se facilita tudo…

Difícil mesmo é a capacidade de ver, isto é, de ver com simplicidade, com sinceridade, sem nos enganar porque ver significa mudar, ficar sem nada a que se agarrar. E nós estamos acostumados a procurar apoio, a andar com muletas. Quando chegamos a ver com clareza, temos de voar. E voar significa nada temer, andar sem se agarrar a coisa alguma. Precisamos desmontar a tenda em que nos refugiamos e continuar pelo caminho que está adiante de nós, sem procurar apoio.

O pavor maior reside justamente na aniquilação de todo tipo de medo, já que ele sempre é o manto no qual nos envolvemos para não ver e não sermos vistos. É duro deixar tudo para trás e enfrentar a felicidade, quando não quere­mos ser felizes a esse preço. Neste caso, trata-se de uma felicidade que deve ser expressada por nós mesmos, sem esperar que nos seja entregue já pronta e embrulhada para presente. Embora todos digamos que procuramos pela felicidade, na verdade não queremos. Preferimos voltar ao ninho ao invés de voar, porque temos medo. E o medo é uma sensação que todos conhecemos, enquanto a felicidades é desconhecida.

A primeira coisa que o bom terapeuta deve entender é que as pessoas que a ele recorrem não procuram a cura, mas o alívio; elas não querem mudar, porque a mudança nos expõe e compromete.

É como aquele que estava mergulhado numa fossa, com sujeira até a altura do queixo, cuja única preocupação era que ninguém aparecesse para fazer ondas, não se importando em ser ou não tirado dali. O problema, portanto, é que a grande maioria das pessoas compara a felicidade com a conquista dos objetos que desejam, quando, ao contrário, a felicidade reside precisamente na ausência dos desejos, e no fato de pessoa alguma ter poder sobre nós.

livro Auto-libertação – Anthony De Mello