A Experiência do Momento Presente

Esse pequeno livro online é uma leitura muito agradável e esclarecedora sobre meditação, aplicação da meditação e atenção plena na vida diária.

A Experiência do Momento Presente

por Godwin Samararatne

Outro aspecto importante da observação vigilante é que nos ajuda a ter a experiência do momento presente, o ‘aqui’ e o ‘agora’. De certa forma é engraçado pensar que na maior parte do tempo durante o nosso dia, nós, ou vivemos no passado pensando sobre o que já se passou, ou vivemos no futuro pensando sobre o que vai acontecer. O passado e o futuro não são reais, somente o presente é real, então isso nos mostra que os seres humanos, por causa da falta de conscientização, vivem num mundo irreal que não corresponde à realidade.

Para tornar isso claro, deixem-me dar um exemplo sobre o que está a acontecer agora. Fisicamente vocês podem estar aqui presentes, até podem estar me vendo, mas mentalmente podem estar em outro lugar. Então, para estarem completamente presentes, para compreenderem o que eu estou a dizer, vocês têm de estar aqui e agora, têm que estar presentes, caso contrário, como disse, poderão estar fisicamente aqui, mas mentalmente, poderão estar em outro lugar. Um mestre de meditação descreve a sua prática como: “Quando eu como, eu como, quando eu caminho, eu caminho, quando eu durmo, eu durmo”. As palavras soam muito simples, mas isso significa que ele, na maior parte do tempo, está presente com aquilo que está a fazer naquele momento.

Surge então uma questão interessante: o que é que ele quer dizer quando diz “quando eu durmo, eu durmo”? Uma interpretação disso é que mesmo quando estamos a dormir, com os sonhos que nós vemos, estamos de uma forma meio acordados. Então, não estamos realmente a experimentar o sono profundo. No entanto para a maior parte de nós, quando estamos acordados durante o dia, o que é que acontece? Estamos meio adormecidos! É a isso que chamamos ‘viver’.

Então, se querem realmente começar a viver, têm de desenvolver esta qualidade muito importante de estar presentes, alertas e despertos. É por isso que Buddha é chamado de ‘Totalmente Desperto’. Toda a prática da meditação e da observação vigilante é um modo de despertar a mente, despertando a natureza de Buddha que existe em nós. Quando despertamos essa natureza de Buddha em nós, a qualidade de nossa vida torna-se muito diferente.

No entanto, tenham atenção de que estar no presente não significa que não tenhamos de usar o que consideramos como passado e futuro. Às vezes temos de fazer planos em relação ao futuro. Se não tivéssemos planejado o futuro, não estaríamos hoje aqui presentes. E se esquecêssemos o passado não seríamos capazes de voltar para casa. Assim, o que é importante compreendermos é que através da conscientização seremos capazes de ver por nós próprios de que maneira estamos a usar o passado e o futuro.

Os psicólogos dizem que, por vezes, a depressão e a tristeza são devidas ao modo como nos relacionamos com o passado e à ansiedade em relação ao futuro. Então, aqui também com a conscientização, precisamos perceber como usar o passado e o futuro consciente e deliberadamente, e noutras ocasiões, estar presente no aqui e no agora.

Utilizem a Conscientiza
ção na Vida Diária

Relacionado com isso, existe algo a que dou muita ênfase e considero muito importante. É a utilização da conscientização na vida do dia a dia. Mesmo pequenas coisas como o escovar os dentes, pentear o cabelo, beber, comer. Como disse antes, nós fomos habituados a fazer estas coisas como máquinas. Assim, se puderem realmente aprender a praticar a conscientização, a observação vigilante no dia a dia, então a meditação torna-se num modo de viver. Eu vivo num centro laico de meditação no Sri Lanka. O que enfatizamos em nosso centro é: como integrar a vida diária, como integrar a sua vida comum com a meditação. De outro modo o que acontece é que a vida é uma coisa, meditação é outra. Então, se vocês são realmente sérios acerca da prática, a meditação tem de ser um modo de viver. Quando vocês estiverem lendo o texto que estamos a distribuir hoje e o texto que menciona a prática da conscientização, vocês estarão vendo o Buddha dizendo-nos para ser vigilantes sobre a maioria das coisas que nos acontecem durante o dia. Vocês ficarão surpreendidos de ler que o Buddha diz que mesmo quando estamos no banheiro devemos estar vigilantes, estar atentos, estar conscientes do que está acontecendo no banheiro. Eu chamo a isto a ‘meditação do banheiro’. Por vezes, quando visito algumas casas ricas e quando vou aos seus banheiros vejo muitos livros, revistas e coisas assim. Dessa forma, eu sugeriria que, na próxima vez, que estejam no seu banheiro, vocês vejam de outra forma, se vocês podem ser apenas conscientes, apenas estar presentes enquanto estão no banheiro.

Outro aspecto muito importante é sobre o comer. Fazemos tanta coisa com o propósito de comer, mas será que realmente comemos conscientemente? A vigilância está presente enquanto vocês estão se alimentando? Vocês estão conscientes do que estão degustando? Estão atentos ao que estão mastigando? Aqui, a mastigação é outro aspecto bastante importante. Se puderem fazer um esforço de mastigar a comida conscientemente, perceberão a diferença durante a refeição. Ao refletir sobre isso, notarão que a meditação está relacionada a coisas ordinárias, sem nada de especial ou extraordinário. Alguns têm a idéia errônea de que a meditação é ter alguma experiência especial ou extraordinária. Mas ao considerarmos algumas técnicas de meditação vemos que são coisas ordinárias, coisas simples como estar conscientes da respiração, ou ao andar ou ao comer. Então meditação é algo simples e prático, em que ao fazermos coisas comuns com consciência estas se tornam coisas extraordinárias. Se puderem agir dessa forma com essas coisas ordinárias, então perceberão que mesmo para as coisas ordinárias é possível fazê-las como se fosse pela primeira vez.

Quando vocês olham para as outras pessoas, vocês conseguem vê-las como se estivessem vendo-as pela primeira vez? Conseguem ter uma relação consigo próprios como se fosse o primeiro momento que fizessem isso, sem imagens e julgamentos do passado sobre si mesmos e os outros? Será possível ver uma árvore, uma flor ou uma imagem do Buddha como se fosse pela primeira vez? Por favor, tentem e verão que a qualidade daquilo que estamos vendo é tão diferente, isso se torna vívido, leve e inocente.

Existe um livro muito importante, conhecido como ‘Dhammapada’. Nesse livro se diz que se não estiverem despertos, atentos e vigilantes, vocês são como alguém que está morto. Algo como ser uma pessoa morta e uma máquina ao mesmo tempo.

Faça a leitura completa no link abaixo, vale muito a pena!

LInk https://nalanda.org.br/o-caminho-gentil-da-meditacao