Distorcendo nossa compreensão ocidental coletiva da iluminação

Outro exemplo do quanto toda uma comunidade espiritual pode sofrer o impacto do desvio espiritual é a linha conhecida geralmente como neo-advaita, ou satsang, um movimento que se está ficando cada vez mais popular no mundo inteiro. Com exceções notáveis, muitos dos mestres dessa abordagem – que muitas vezes afirmam não serem mestres, porque não há “alguém” para ensinar, nem para aprender – oferecem uma experiência temporária de consciência pura ou comunhão universal, uma experiência considerada muito marcante por seus seguidores. Muitos mestres deste movimento não defendem a prática, nem a disciplina espiritual e, em muitos casos, dizendo a seus adeptos que a natureza esforçada da crença de que precisamos fazer alguma coisa, em vez de apenas ser, tira-nos do momento presente.

Repetindo: essa postura filosófica é irrefutável; mesmo assim, quando observamos tanto os discípulos quanto os mestres destes movimentos por mais de duas décadas, não fiquei impressionada com os resultados muito comuns dessas abordagens em termos de maturidade e discernimento espiritual. Um resultado deste novo movimento espiritual é ter deixado milhares – ou dezenas de milhares – de indivíduos acreditando estar iluminados – que, em muitos casos, partem para ensinar a outros as mesmas técnicas muito antes de estarem preparados para uma responsabilidade desse calibre. Como muitos deles não afirmam que são mestres, e certamente não dizem que são gurus, não assumem a responsabilidade necessária para administrar a dinâmica e as projeções que surgem em suas comunidades, sempre voltando, em vez disso, à questão de que tudo não passa de operações mentais.

Ouvi centenas de histórias parecidas com que contei sobre Jivan, meu namorado zen – histórias de relações íntimas que acabaram mal porque uma das pessoas usa constantemente os conceitos e o jargão da iluminação para evitar a intimidade e os desafios muito reais que a relação humana implica. Abordagens como a espiritualidade neo-advaita e muitas linhas da Nova Era estão impregnadas pela tendência ao desvio espiritual e se tornaram tão populares que, na verdade, estão distorcendo nossa compreensão ocidental coletiva da iluminação e solapando as possibilidades de uma maturidade espiritual autêntica.

Trecho de De olhos bem abertos: cultivando o discernimento no caminho espiritual –Mariana Caplan

 

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