Consciência e os filtros

Vivemos então com tantas coisas filtradas, selecionadas, sensoriadas. Que existe de fato em nossas mentes? Adicionamos às imagens nossas construções mentais e avaliações: “Isto é bom, isto é mau, certo, errado etc.” Na realidade não há bem ou mal.

Não existe bem ou mal com as pessoas, ou na natureza. Existe apenas um julgamento mental imposto a esta ou àquela realidade. Que julgamento? Que equipe é boa, qual a melhor, qual a boa vitória, quando está é má? Na realidade existe apenas um jogo e as pessoas dele participando, uma bola que é arremessada, chutada, lançada. Bola e jogadores deslocam-se de um lado para o outro. As pessoas adicionam então suas avaliações particulares a estas ações na vida; elas torcem mais frequentemente por um uniforme ou por um conceito do que pela realidade já existente. Aplaudem muito mais o seu próprio condicionamento e preferências do que a realidade observada. Não é estúpido? As pessoas acabam nesta confusão usual porque correm em volta das coisas como tolos, não sabem o que elas são. Continuam adicionando seus filtros, avaliações e desejos à realidade. Inserem o bem e o mal à realidade como se estivessem enchendo um balão; dizem que as coisas são desejáveis, indesejáveis, certas, erradas. As coisas são o que são, quer as entendamos ou não.

Que é consciência? É a capacidade de observar quando filtramos a realidade, não apenas a imagem que persiste. A primeira coisa sobre o qual devemos nos tornar conscientes é:

1. saber da existência do filtro;

2. saber que quando você reage, reage à imagem em sua mente, não à realidade;

3. perceber que tudo quanto existe nesse filtro é passageiro, está-se movendo e mudando constantemente. Você finge que isto é permanente, estático, mas isto muda sempre. Tudo flui, se move, vive;

4. perceber que tudo o que existe na sua mente, no seu filtro, é inadequado e insatisfatório, por ser passageiro;

5. perceber que tudo o que existe no filtro, na mente, não é você, é o vazio do seu ego, que não existe aí, onde existem apenas projeções mentais.

O eu inventou a noção do “ego, a mim”. Se eu olhar para o mundo, em minha estupidez projetarei o “meu”sobre os prédios, máquinas de escrever, cidades, sobre a realidade. Dê-me alguma realidade e estarei apto a projetar sobre ela algo do meu ego. Este “meu”existe apenas na minha cabeça, porque se eu morresse hoje à noite, nada naquele prédio iria mudar. As coisas são o que são. Não são minhas, suas ou dele. Isto é mera convenção entre nós.

do livro Quebre o Idolo, de Anthony de Mello

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