A Raiva – Tarthang Tulku em Expansão da Mente

Aluno: Podemos também aceitar emoções como frustração e raiva?

Rinpoche: Estas emoções são muito fortes. Normalmente, seus efeitos são negativos, mas elas têm, de fato, uma certa força que está baseada na atenção pura. Há aí um potencial muito bom para alguém que saiba usá-lo. Não recomendo que você desperte raiva, medo ou emoções fortes. Mas não devemos tentar escapar delas nem negá-las ou reprimi-ias — o que fazemos com freqüência.

Aluno: Então, se sentimos que uma emoção está vindo à tona, o adequado é deixar que saia, mantendo-nos, porém, atentos ao que estamos fazendo?

Rinpoche: É mais do que ficar atento. Você tem de saber como fazer.

Aluno: Como deixar sair?

Rinpoche: Você precisa saber como agir. Você tem que saber como estar enraivecido, sem raiva; você tem que saber como estar apegado, sem apego. Não é sempre uma coisa simples, e não é apenas uma questão da nossa atenção plena. Quando uma pessoa lança um foguete, ela não pode apenas estar ciente do que fez ou só se importar com a direção que ele vá tomar. Precisamos conhecer exatamente os resultados; caso contrário, as pessoas vão se machucar. Há muita responsabilidade implícita nisto. O que estou dizendo é que as emoções têm valor, mas apenas quando sabemos como usá-las para crescimento espiritual e iluminação. O meditador, sabendo como usar uma única emoção que seja, pode transcender todas as emoções. Este uso das emoções é parte de um conjunto de conhecimentos a partir do qual podemos ajudar a nós mesmos e aos outros. Uma vez que nos damos conta de que a energia se manifesta sob diferentes formas, podemos abraçar as energias das emoções e trazê-las para dentro do nosso estado meditativo. Podemos aprender a relaxar dentro dessas energias quando deixamos de dividir nossas experiências em positivas e negativas. Então, as emoções são bem-vindas, porque entendemos que são ensinamentos; as emoções, elas próprias, são capazes de revelar seu significado, sem que precisemos olhar para além delas. Com cuidado, nossas emoções negativas, quando misturadas com a vitalidade da meditação, podem aumentar nossa atenção pura. é como passar de um quarto escuro para a luz do Sol nossos olhos precisam se ajustar à claridade para podermos ver. De modo semelhante, todas as nossas experiências contêm dinamismo e força, mas precisamos desenvolver nossa atenção pura antes de conseguirmos utilizá-las bem. Gradualmente, aumentamos nosso senso de alerta e despertamos nossos sentidos: este senso protege-nos como o pára-choque de um carro. Com uma consciência mais ampla a respeito de como a nossa mente funciona, começamos a nos libertar dos nossos padrões arraigados. Esta sensibilidade relaxada, porém alerta, permite-nos estar cientes do que está acontecendo em qualquer situação, livrando-nos, portanto, da manipulação das emoções. Desta maneira, podemos gradativamente transformar todas as nossas negatividades, pois, quanto mais as compreendemos, mais vemos que até elas fazem parte da atenção pura. Nada precisa ser ignorado ou negado. Assim como os pavões podem comer até veneno, da mesma forma uma pessoa iluminada pode utilizar todos os tipos de energia. Do ponto de vista da iluminação, há apenas um canal: a confusão é clara e a escuridão é luminosa. Este é o motivo da arte budista retratar os aspectos compassivos e irados como sendo ambos manifestações da mesma forma. A partir de uma visão que compreende a natureza das nossas emoções, a vida se torna mais fácil. Os obstáculos, que antes nos pareciam ondas enormes, podem agora parecer apenas um leve ondular da água. Temos a capacidade de escolher como gostaríamos de nos manifestar; podemos mudar de posição livremente, para frente e para trás; podemos ficar com raiva, confusos ou alegres — qualquer coisa que gostaríamos de ser. Esta criatividade é verdadeira e, por meio dela, moldamos o nosso mundo. Neste contexto, toda a experiência faz parte da iluminação. Podemos construir um universo muito bonito. Quando nossos problemas se tornam nossos amigos e nosso apoio, como presentes ou contribuições, aí não temos mais problemas. Então, ficamos livres de conflito interno; temos paz interior, a mais elevada das liberdades. Quando começamos a gozar desta liberdade, nossa atitude em relação a nós mesmos e à nossa experiência se modifica. Nossa compreensão e comunicação com os outros aumentam e, pouco a pouco, podemos ajudar a criar uma atmosfera de paz e harmonia no mundo. Quanto mais conseguimos libertar nossa mente de suas tendências “ou/ou”, tanto mais podemos sentir amor e compaixão pelas outras pessoas. Este é um passo muito importante, pois a abertura é o melhor alicerce para o crescimento espiritual. Se soubermos como trabalhar com todas as nossas aparentes negatividades, poderemos aprender como nosso ambiente interior trabalha com a natureza do nosso ser. À medida que a experiência passa a ter mais significado, sabemos como ensinar a nós mesmos, como cuidar de nós mesmos. Sabendo que a liberdade decorre da aceitação da nossa própria natureza, da nossa própria compreensão, da nossa própria mente iluminada, poderemos encontrar sempre o caminho do meio. Quando transcendemos os apegos e as aversões da mente, todas as aparentes negatividades tornam-se veículos poderosos de iluminação.

Tarthang Tulku em Expansão da Mente

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