Comer com atenção – alimentação e mindfulness

Thich Nhat Hanh no livro PARA VIVER EM PAZ – O milagre da mente alerta, mostra vários exercícios de atenção plena ou mindfulness que podem ser aplicados no dia-a-dia de todos. Comer com atenção, andar com atenção, lavar a loução com atenção plena, qualquer atividade por mais simples que pareça pode ser feita com a mente alerta tornando tudo mais fácil e proveitoso, evitando aborrecimentos e pensamentos repetitivos que sempre insistem em aparecer numa mente ansiosa ou entediada. Com isso é possível modificar um padrão antigo, um hábito que fazer algo sem pensar e com a mente sempre no futuro o que causa ansiedade e outros desconfortos. A atenção plena na alimentação não é um tipo de dieta, mesmo que alguns tentem “vender” essa ideia. Comer com atenção é só mais uma tarefa que pode ser realizada com plena atenção, nada mais.

“Fazendo as pazes com um gomo de tangerina
Se ao lavarmos a louça ficarmos com o pensamento voltado apenas para a xícara de chá que saborearemos a seguir, a tarefa se torna um fardo. Procuraremos automaticamente limpar a louça às pressas para nos livrar da chateação e não estaremos “lavando a louça por lavá-la”. E mais, nós não estaremos vivos durante o tempo em que a estivermos lavando. Estaremos na verdade sendo incapazes de reconhecer o milagre da vida enquanto à beira da pia. E se não somos capazes de lavar a louça por lavar, é pouco provável igualmente que seremos capazes de saborear o chá a seguir. Pois, ao tomar o chá, estaremos com o pensamento voltado para outras coisas, inconscientes do fato de que temos uma xícara nas mãos. Dessa forma estaremos sendo sugados para fora da realidade presente – e incapazes de viver em totalidade um minuto sequer.

A história da tangerina e Jim, à qual me referi anteriormente, se passou da seguinte maneira. Estávamos, há tempo, calmamente sentados chupando uma tangerina, enquanto Jim comentava comigo o que faríamos no futuro. Cada vez que nos ocorria um plano mais atraente ou inspirador, Jim se empolgava tanto com a idéia que esquecia inteiramente o que estava fazendo naquele momento. Ele metia um gomo de tangerina na boca e antes mesmo de começar a sorvê-lo já tinha outra porção na mão, pronta a ser enfiada pela boca adentro, inteiramente alheio ao fato de estar comendo uma tangerina. “Você devia comer o gomo da tangerina que tem na boca” – observei. Jim se espantou ao se dar conta do que estava fazendo. Se chamei sua atenção foi para fazê-lo ver que era como se não estivesse comendo nada. E de fato não estava. Na verdade estava apenas “engolindo” seus planos futuros. Alguém já disse há muito tempo atrás: “Se você não está presente, você olha e não vê, escuta mas não ouve, come mas não saboreia”.

A tangerina tem vários gomos. Se você é capaz de saborear um deles, é provável que saboreie a tangerina inteira. Mas se você não consegue saborear um gomo, não conseguirá tampouco saborear a tangerina inteira. Jim entendeu. Baixou lentamente a mão e focalizou sua atenção no pedaço que tinha na boca, sorvendo-o inteiramente antes de se servir do outro pedaço. Tempos depois, quando foi preso, ele foi capaz de encarar a prisão da mesma forma, fazendo as pazes com ela, como fez com o gomo de tangerina.

Há mais de trinta anos atrás, quando pus os pés no mosteiro pela primeira vez, os monges me deram um livro escrito pelo mestre budista Doe The, de Son Pagoda, intitulado Disciplina Essencial para Uso Diário, pedindo que memorizasse. Era um pequeno livro. Não devia ter mais do que quarenta páginas, mas continha todos os pensamentos que Doe usava para alertar sua mente enquanto fazia qualquer tarefa. Quando ele acordava de manhã, seu primeiro pensamento era: “Acabo de despertar e faço votos que cada pessoa obtenha total discernimento e clareza de visão”. Ao lavar as mãos: “Estou lavando minhas mãos e espero que cada pessoa tenha puras suas mãos para receber a Realidade”. O livro é todo composto de frases semelhantes. Seu objetivo era ajudar o principiante a tomar consciência de sua consciência. Dessa forma o mestre Doe The ajudou a todos nós noviços a praticar, de forma relativamente fácil, aquilo que é ensinado no Sutra da Mente Desperta. Cada vez que você vestia o manto, lavava pratos, ia ao banheiro, dobrava o colchão, carregava água, ou escovava os dentes, podia usar um dos pensamentos contidos no livro para alertar sua consciência.

O Sutra da Mente Desperta diz: “Andando, o praticante deve estar cônscio de que está andando. Sentado, deve estar cônscio de que está sentado. Deitado, idem… O praticante deve estar cônscio de qualquer que seja a posição de seu corpo…” Temos que estar cônscios de cada respiração, cada movimento, cada pensamento e sentimento, de qualquer coisa que esteja relacionada conosco.

Mas qual o propósito das instruções contidas no Sutra? Como vamos nós encontrar tempo para praticar tal conscientização? Se você passar o dia inteiro voltado para tal prática, como vai ter tempo para fazer todo o trabalho que precisa ser feito para transformar e construir uma nova sociedade? Como consegue Steve trabalhar, fazer as lições com Tony, levar as fraldas de Zoé para a lavanderia, e manter sua mente alerta ao mesmo tempo?”

para viver em paz  Thich Nhat HanhDo livro PARA VIVER EM PAZ O milagre da mente alerta de Thich Nhat Hanh

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