Atenção Plena … O Cerne da Prática

Na prática do Dhamma tudo que precisamos
é atenção plena.
Tudo no mundo então se torna claro.
Ajaan Bua Siripuñño

16. Atenção no Momento Presente

A razão porque é difícil mantermos a atenção no presente momento é porque desde que nascemos, fomos treinados a pensar e recordar. E esse uso da mente pensante nos afasta do momento presente. Nisso é que se encontra o problema, o ponto crucial do assunto, porque temos sido treinados a não estar no presente momento. E o resultado é confusão e descontentamento. Mas tem mais, todos esses pensamentos associativos baseados em diferentes memórias e conceitos cria uma identidade à qual nos apegamos, piorando o problema. Portanto, para desenvolver suficiente atenção para realmente estar no momento presente … temos que ter paciência e dedicar tempo. Um ano, dez anos, talvez até mais. O importante é começar a praticar.

17. De Momentos a Minutos

Lembre-se que a atenção plena sempre começa com momentos breves, discretos. É parecido com abrir uma torneira. Inicialmente a água pinga lentamente: pop … pop … pop … mas em pouco tempo essas gotas se juntam e se transformam num fluxo contínuo. De modo semelhante, no início pode haver apenas lampejos de atenção plena, mas se trabalharmos nisso, esses momentos se unirão e se transformarão num fluxo contínuo. Podemos alcançar isso colocando esforço na atenção plena em coisas físicas: nossa postura, nossas atividades, nossa respiração, ou qualquer outra coisa que estejamos fazendo no momento.

A qualquer momento, em qualquer postura, podemos desenvolver as mesmas qualidades da meditação formal. A coisa principal ao praticar a atenção plena é conter a mente, não permitir que ela caia na proliferação mental habitual ou distrações que a afastam do momento presente. Isso significa abandonar os pensamentos relacionados com o futuro – planejamento, preocupações – e abandonar os diferentes pensamentos sobre o passado. Quando estamos realizando uma tarefa e praticando a atenção plena, nós simplesmente trazemos a nossa mente para focar naquela tarefa. E se aprendermos a fazer isso na vida diária, perceberemos que estamos com a atenção plena a todo momento. Quando sentarmos em meditação a nossa mente já estará calma, contida, preparada. Como resultado a nossa meditação formal irá se desenvolver melhor.

18. Trazendo de Volta (Novamente e Novamente)

Nós precisamos estar sempre desenvolvendo a atenção plena. Quando surgem os problemas, quer seja em casa ou no trabalho, a tendência será começar a proliferar acerca daquilo, causando nervosismo e agitação. Portanto, quando percebemos que estamos perdidos no meio de diferentes pensamentos e preocupações, temos de trazer a mente de volta para o momento presente o mais rápido possível, focando na tarefa em mãos. E talvez aguardar até que a mente esteja novamente calma e concentrada, re-estabelecida com a atenção no momento presente antes de considerar os aspectos do problema. “Por que isso aconteceu? Se fiz um erro, qual foi o erro? Como posso evitar que isso aconteça novamente?” Esse tipo de reflexão pode ser contemplada uma vez que a mente esteja calma. Mas provavelmente nós não devemos querer fazer isso de cara, enquanto ainda estamos enrolados na situação toda.

No início, a nossa tarefa é simplesmente trazer a mente de volta para a atenção no momento presente e evitar ficar preso em tanto estresse. Se praticarmos desse modo, veremos que a nossa tarefa real é aprender como estabelecer a atenção plena com rapidez. Quando percebermos que perdemos a atenção plena, capturados pelos diferentes estados de humor e emoções, a prática é reconhecer isso e depois reestabelecer a atenção no momento presente. Com quanta habilidade fazemos isso … essa é a medida do quão boa está sendo a nossa prática.

19. Igual a Treinar Búfalos Domésticos

Quando nos apegamos a pensamentos que surgem na mente, estes se transformam em karma. Algumas vezes quando estamos praticando, pensamentos inábeis surgem na mente. Eles surgem com velocidade e parecem incontroláveis, então o que podemos fazer? Precisamos perseverar no re-estabelecimento da atenção plena para capturá-los no momento em que surjam. Precisamos estar alertas em relação aos nossos pensamentos. O estado mental que estamos experimentando naquele momento: é hábil ou inábil? Se soubermos que é inábil então abrimos mão dele. Utilizamos esse entendimento para compreender que ele irá resultar em dano e sofrimento e abrimos mão dele. Assim, nenhum karma negativo terá sido produzido. Na verdade, é karma positivo o fato de estabelecermos a atenção plena e de abrirmos mão desses estados mentais inábeis.

Ajaan Chah comparava isso com um agricultor e o seu búfalo doméstico. O agricultor sabe que deve vigiar de perto o búfalo em todos os momentos, porque se ele assim não o fizer o búfalo irá se dirigir diretamente para os campos de arroz e arruinar a plantação. Se o agricultor perder a atenção plena o búfalo irá destruir todo o campo. Ocorre o mesmo com a mente. Se não a vigiarmos de perto ela irá atrás de todas as impressões mentais que surgirem.

Qualquer coisa que façamos, quer seja na vida diária ou no monastério, a tarefa é manter a atenção plena, manter-se vigilante e conhecedor de quaisquer impressões que surjam na mente. Investigar em que estado a mente se encontra. A mente está experimentando a felicidade? Tristeza? Desprazer? Inquietação? Quer seja prazer, calma ou sabedoria, nós simplesmente observamos, sabendo tudo o que estiver presente na mente. Qualquer coisa que experimentemos devemos repetidamente lembrar que não é permanente, não é certeza. Sempre que experimentarmos sentimentos de sofrimento – raiva, irritação, estresse ou medo – a nossa tarefa é a mesma. Temos de relembrar e ensinar para nós mesmos e até mesmo fazer advertências: “Hei, sofrimento, você não é permanente! Eu não sou o seu dono! Se você quer sofrer então vá em frente e sofra! Siga o seu próprio caminho, eu não vou participar disso!” Isto é ter atenção no momento presente continuamente, protegendo e treinando a mente.

20. Comprometido com a Atenção Plena

É importante obter com a prática a atitude e a motivação corretas. Com freqüência isto significa tentar começar o dia do modo correto. Quando levantar pela manhã, diga para si mesmo: “Hoje quero praticar, realizando todas as minhas tarefas e atividades com atenção plena. Quero tentar desenvolver a atenção plena tanto quanto possível. Se eu me deparar com situações difíceis, pessoas difíceis que coloquem à prova a minha paciência, causando irritação, raiva ou aversão, não vou ceder a esses estados. Serei paciente e praticarei a atenção plena com qualquer dificuldade que encontrar.”

Tente estabelecer essa atitude com antecipação de modo que quando chegar ao trabalho você tenha a atitude mental correta. Procure também pelos momentos ou ocasiões nas quais poderá praticar a atenção plena de um modo mais direto – no trabalho, durante os breves intervalos, no almoço, nas diferentes situações. Você poderá perceber que ajuda se, de tempos em tempos, tomar alguns minutos apenas para compor a mente e trazê-la de volta para a respiração antes de seguir com as suas tarefas.

Ajaan Chah sempre enfatizava que o principal é não parar, não desistir. Persista, mantenha a prática, desenvolva a atenção plena em todas as posturas, a cada momento. O desenvolvimento da atenção plena é muito parecido com a construção de uma represa. Uma vez que tenhamos construído a represa então podemos evitar que a água flua em todas as direções, mas canalizá-la para um bom uso. Do mesmo modo, a atenção plena ajuda a conter as tendências prejudiciais da mente e ajuda na prática de meditação. Você perceberá que quando estiver sinceramente comprometido com a prática, estará mais consciente daquilo que está dizendo e fazendo ao longo do dia. Tanto no trabalho como em família, você será capaz de observar melhor a sua mente de momento a momento, com resultados pelo resto da sua vida.

Ajaan Anan no livro Ensinamentos fáceis, verdades profundas