Vivendo com uma Cobra – Ajaan Chah

Para realizar a prática para a libertação do sofrimento, do ciclo de nascimento e morte, lembre-se de considerar todas as várias atividades da mente, todas aquelas que você gosta e todas aquelas que detesta, do mesmo modo que consideraria uma cobra. Uma cobra é extremamente venenosa, venenosa o suficiente para nos matar se formos mordidos por ela. E assim também ocorre com os nossos humores; os humores que gostamos são venenosos, os humores que detestamos também são venenosos. Eles evitam que as nossas mentes se libertem e impedem o nosso entendimento da Verdade tal como ensinada pelo Buda.

Portanto, é necessário tentar manter a nossa atenção plena ao longo do dia e da noite. Qualquer coisa que você estiver fazendo, quer seja em pé, sentado, deitado, falando ou o que quer que seja, você deve fazer com atenção plena. Quando você for capaz de estabelecer essa atenção plena, irá descobrir que a plena consciência irá surgir junto com ela, e essas duas condições resultarão em sabedoria. Assim, a atenção plena, a plena consciência e a sabedoria trabalharão juntas e você será como alguém que está desperto tanto de dia como de noite.

Esses Ensinamentos que o Buda nos deixou não são Ensinamentos só para serem escutados ou simplesmente para serem absorvidos num nível intelectual. São Ensinamentos que através da prática podem brotar e permanecer em nossos corações. Onde quer que formos, o que quer que façamos, devemos sempre ter esses Ensinamentos presentes. E o que queremos dizer com “ter esses Ensinamentos presentes” ou “ter a Verdade,” é que, qualquer coisa que façamos ou digamos, faremos e diremos com sabedoria. Quando pensarmos e contemplarmos, assim o faremos com sabedoria. Dizemos que aquele que tem a atenção plena e a plena consciência, combinadas dessa forma com a sabedoria, é aquele que está próximo do Buda.

Devemos olhar para a mente com atenção plena e plena consciência e desenvolver a sabedoria. Com essas três condições surgirá o “soltar-se das coisas.” Compreendemos o constante surgimento e desaparecimento de todos os fenômenos.

Devemos entender que aquilo que está surgindo e desaparecendo é apenas a atividade da mente. Quando alguma coisa surge, desaparece, é seguida por um outro surgimento e desaparecimento. No Dhamma chamamos esse surgimento e desaparecimento “nascimento e morte”; e isso é tudo – isso é tudo o que há! Depois que o sofrimento surgiu, desaparece, e depois que desapareceu, o sofrimento surge novamente. Tudo que há é o sofrimento surgindo e desaparecendo. Quando compreendermos esse tanto, seremos capazes de compreender constantemente esse surgimento e desaparecimento; e, quando a compreensão for constante,  veremos que isso é, na verdade, tudo o que há. Tudo é apenas nascimento e morte. Não é que existe algo que persista. Há apenas esse surgimento e desparecimento, tal qual – e isso é tudo.

Esse tipo de visão irá dar origem a um sentimento tranqüilo de desapego em relação ao mundo. Esse sentimento surge quando vemos que na verdade não há nada que valha a pena querer; há apenas surgimento e desaparecimento, um ser nascendo seguido de um morrendo. Assim é como a mente chega no “soltar-se das coisas,” permitir que tudo siga de acordo com a sua própria natureza. As coisas surgem e desaparecem na nossa mente, e nós compreendemos isso. Quando a felicidade surge, nós compreendemos; quando a insatisfação surge, nós compreendemos. E esse compreender a felicidade” significa que não nos identificamos com aquilo como sendo nosso. Do mesmo modo com a insatisfação e a infelicidade, não nos identificamos com isso como sendo nosso. Quando não nos identificamos e não nos apegamos à felicidade e nem ao sofrimento, resta-nos somente o modo natural das coisas.

Assim, dizemos que a atividade mental é como uma cobra venenosa mortífera. Se não interferirmos com a cobra, ela simplesmente vai embora. Muito embora seja extremamente venenosa, nós não somos afetados por isso, nós não chegamos perto dela ou a pegamos e assim ela não nos morde. A cobra faz o que é natural uma cobra fazer. Assim é como são as coisas. Se você for esperto vai deixá-la em paz. E assim você deixa estar aquilo que é bom e também deixa estar aquilo que não é bom – deixa estar de acordo com a sua própria natureza. Deixa estar o seu gosto e o seu desgosto, da mesma forma que não interfere com a cobra.

Portanto, quem é inteligente terá esse tipo de atitude em relação aos vários humores que surgem na mente. Quando a bondade surge, deixamos estar o bem e compreendemos isso também. Compreendemos a sua natureza. E, também, deixamos estar a não bondade, deixamos estar de acordo com a sua natureza. Não a agarramos porque não queremos nada. Não queremos o mal, nem queremos o bem. Não queremos nem o pesado e tampouco o leve, nem a felicidade e nem o sofrimento. Quando dessa forma o nosso querer tem um fim, a paz estará firmemente estabelecida.

Quando temos esse tipo de paz estabelecida na nossa mente, podemos confiar nela. Essa paz, dizemos, surgiu da confusão. A confusão teve um fim. O Buda chamou a realização da Iluminação uma “extinção,” do mesmo modo que o fogo é extinto. Nós extinguimos o fogo no lugar em que ele surge. Onde quer que esteja quente, ali mesmo fazemos com que esfrie. Da mesma forma com a Iluminação. Nibbana é encontrado no samsara. A Iluminação e a delusão, (samsara), existem no mesmo lugar, do mesmo modo que o quente e o frio. Está quente onde estava frio e frio onde estava quente. Quando surge o calor, o frio desaparece, e quando há o frio, não há mais calor.

Dizem que devemos dar um fim a samsara, que significa parar o contínuo ciclo de confusão. Esse fim da confusão é a extinção do fogo. Quando o fogo no exterior é extinto, há o frescor. Quando os fogos internos da cobiça, raiva e delusão são apagados, também há frescor.

Essa é a natureza da Iluminação; é a extinção de um fogo, o esfriamento daquilo que estava quente. Isso é a paz. Isso é o fim de samsara, o ciclo do nascimento e morte.

Quando você realiza a Iluminação é assim. É o fim do ciclo constante e da mudança constante, o fim da cobiça, raiva e delusão nas nossas mentes. Falamos de felicidade porque assim é como as pessoas comuns entendem que o ideal deve ser, mas na verdade vai além disso. Está além tanto da felicidade como do sofrimento. É a perfeita paz.

Que essa prática conduza à felicidade; que ajude a crescer dentro da Verdade. Que todos se libertem do sofrimento do nascimento e morte.

Ajaan Chah em Meditação o Coração do Budismo