Não dualidade – Ayya Khema

Os textos de Ayya Khema são de uma clareza e sabedoria não muito fáceis de encontrar. Vale a pena a leitura

Não dualidade

A verdade ocupa uma posição muito importante nos ensinamentos do Buda. As Quatro Nobres Verdades representam o cubo da roda do Dhamma. A verdade, (sacca), é uma das dez perfeições que devem ser cultivadas para a auto-purificação.

A verdade pode ter diferentes aspectos. Se quisermos dar um fim ao sofrimento, temos que buscar a verdade no seu nível mais profundo. Os preceitos de virtude xiv que incluem o “não mentir” representam o treinamento básico sem o qual não se pode conduzir uma vida espiritual.

Para chegar à verdade, é necessário ir ao fundo de si mesmo e isso não é algo fácil de ser feito, agravado pelo problema da falta de amor por si mesmo. Em geral o que ocorre é que se queremos aprender a amar a nós mesmos é porque a raiva deve estar presente e estamos aprisionados no mundo da dualidade.

Enquanto estivermos flutuando no mundo da dualidade, não seremos capazes de chegar ao fundo da verdade, porque estaremos suspensos no movimento ondulante para frente e para trás. Existe uma interessante advertência no Sutta Nipata xv, mencionando que não se deve ter companheiros, pois isso evita o desenvolvimento de apegos. Isso resultaria nem em amor, nem em raiva, restando apenas a equanimidade, uma mente equilibrada em relação a tudo que existe. Com a equanimidade não estamos mais suspensos entre o bem e o mal, amor e raiva, amigo e inimigo, existe a capacidade da renúncia, de ir até o fundo onde a verdade pode ser encontrada.

Se quisermos descobrir a verdade básica, fundamental, de toda existência, precisamos praticar a renúncia. Esta inclui os nossos apegos mais sutis e os mais poderosos, muitos dos quais não são nem identificados como apegos.

Retornando ao ponto da verdade encontrada no fundo do nosso ser, podemos ver que se estivermos apegados a algo, não seremos capazes de descer até o fundo. Estamos apegados às coisas, pessoas, idéias e opiniões, que consideramos serem nossas e acreditamos serem corretas e úteis. Esses apegos irão nos impedir de estabelecer contato com a verdade absoluta.

As nossas reações, gostos e desgostos, nos mantêm em suspenso. Apesar de ser mais agradável gostar de algo ou de alguém do que desgostar, ambos são no entanto resultado de apegos. Esta dificuldade está intimamente associada com as distrações na meditação. Do mesmo modo que temos apego pela comida que obtemos para o corpo, assim também temos apego pelo alimento para a mente, e assim os pensamentos vagueiam aqui e ali, agarrando gulodices. Enquanto fazemos isso, somos novamente mantidos em suspenso, movendo-nos dos pensamentos para a respiração e de volta para os pensamentos, mantendo-nos no mundo da dualidade. Quando a mente se comporta dessa maneira, ela não é capaz de alcançar a profundidade máxima.

O entendimento profundo possibilita a libertação do sofrimento. Ao penetrarmos o nosso íntimo com mais e mais profundidade, nenhum núcleo é encontrado e aprendemos a abandonar os apegos. Se encontrarmos ou não qualquer coisa dentro de nós, que seja pura, desejável, admirável ou impura e desagradável, não faz nenhuma diferença. Todos os estados mentais que possuímos e apreciamos nos mantêm na dualidade, onde estaremos suspensos em pleno ar, sentindo-nos muito inseguros. Eles não são capazes de dar um fim ao sofrimento. Num dado momento tudo parece estar bem no nosso mundo e amamos a todos, mas cinco minutos mais tarde poderemos reagir com raiva e rejeição.

Somos capazes de concordar com as palavras do Buda ou considerá-las como plausíveis, mas sem a certeza da experiência pessoal, isso nos trará um benefício limitado. Para obter o conhecimento direto deveríamos ser como um objeto pesado que não deve estar preso a nada, para que possamos mergulhar até o fundo de todas as obstruções, para enxergarmos a verdade luminosa. A ferramenta para isso é uma mente poderosa, uma mente de peso. Enquanto a mente estiver interessada em assuntos insignificantes, ela não terá o peso para conduzi-la à profundidade do entendimento.

Para a maioria das pessoas, a mente não faz parte da categoria de pesos pesados, e está mais para peso galo. O murro de um peso pesado produz realmente um efeito, o de um peso galo não é tão significativo. A mente peso galo tem apego aqui e ali a pessoas e às opiniões delas, às suas próprias opiniões, a toda dualidade de pureza e impureza, certo e errado.

Por que tomamos isso de modo tão pessoal, quando é verdadeiramente universal? Essa parece ser a maior diferença entre viver em paz e ser capaz de permitir que a mente penetre as camadas mais profundas da verdade, ou de viver em desavença consigo mesmo e com os outros. Nem a raiva, nem a cobiça são manifestações pessoais, ninguém possui sobre elas um direito singular, elas pertencem à humanidade.

Podemos aprender a abandonar essa idéia personalizada sobre os nossos estados mentais, o que nos libertaria de um sério impedimento. Cobiça, raiva e impurezas existem, da mesma maneira a não-cobiça e a não-raiva também existem. Podemos possuir todos? Ou será que possuímos esses estados em sucessão ou cada um a cada cinco minutos? E por que possuir qualquer um deles? Eles simplesmente existem e vendo isso, será possível permitir-nos mergulhar na profundidade da visão do Buda.

A verdade mais profunda que o Buda ensinou foi que não existe uma pessoa individual. Isso tem que ser aceito e experimentado no nível das emoções. Enquanto não  abandonarmos a posse do corpo e mente, não será possível aceitar que não somos na verdade essa pessoa. Esse é um processo gradual. Na meditação aprendemos a abandonar as idéias e histórias e a ocupar-nos com o objeto da meditação. Se não as abandonarmos, não seremos capazes de mergulhar na meditação. Para isso a mente também tem que ser um peso pesado.

Podemos comparar a mente comum com os movimentos oscilantes que acompanham as ondas de pensamentos e sensações. O mesmo ocorre na meditação, por conseguinte precisamos nos preparar para obter a concentração. Podemos observar todos os estados mentais que surgem durante o dia e aprender a abandoná-los. A tranqüilidade e leveza que surgem desse processo se deve ao desapego. Se não praticarmos ao longo do dia, a nossa meditação se ressentirá porque não viemos para a almofada de meditação com o estado mental apropriado. Se alguém esteve durante o dia todo praticando o desapego, a mente estará preparada e poderá se desapegar durante a meditação também. E aí poderá experimentar a sua própria felicidade e pureza.

Algumas pessoas consideram os ensinamentos como um tipo de terapia, o que sem dúvida é correto, mas esse não é o objetivo último, apenas um dos seus aspectos secundários. Os ensinamentos do Buda conduzem ao fim do sofrimento, de uma vez por todas, não apenas por um instante quando as coisas não vão bem.

Ao termos uma experiência de renúncia, mesmo que apenas uma única vez, fica a prova, sem deixar nenhuma dúvida, de que isso significa livrarmo-nos de um pesado fardo. Ter que carregar a própria raiva e cobiça por todos os cantos é um fardo pesado, que, quando abandonado, nos resgata da dualidade dos julgamentos. É prazeroso ver-se livre dos pensamentos; as formações mentais são problemáticas.

Se formos bem sucedidos mesmo que uma ou duas vezes ao longo do dia em nos  soltarmos das nossas reações, teremos tomado um grande passo e poderemos mais facilmente fazer o mesmo outras vezes. Teremos compreendido que uma emoção que surgiu poderá ser detida, não precisamos carregá-la conosco o dia todo. O alívio proveniente disso será a prova de que uma grande descoberta interior foi realizada e de que a simplicidade da não dualidade nos mostra o caminho para a verdade.

Ayya Khema no livro Todos nós

Ayya Khema (1923-1997) foi a primeira mulher no Ocidente a se tornar uma monja Theravada. E como tal, ela serviu como modelo e inspiração para as mulheres de todas as tradições Budistas que buscam ressuscitar a prática do monasticismo feminino na era moderna. Embora a sua reputação como mestre esteja amplamente difundida, poucos conhecem os verdadeiramente incríveis detalhes da sua vida antes da sua ordenação monástica aos 56 anos de idade.

E que vida ela teve. Ayya Khema, nascida Ilse Kussel em Berlim, Alemanha, cresceu numa próspera família judia que se desintegrou com a ascensão do regime nazista em 1938. A história da sua fuga sozinha, juntamente com outras duzentas crianças, para a Escócia, e a sua jornada para reencontrar-se com a família em Xangai na China seriam o suficiente para preencher um bom livro de aventuras. Mas esse foi apenas o início da sua trajetória. Mais tarde as suas aventuras incluíram a sobrevivência à invasão japonesa da China, durante a qual ela juntamente com a família foram internados num campo de prisioneiros de guerra Japonês e foi ali que o pai dela faleceu; a vida como uma dona de casa nos subúrbios de Los Angeles; uma viagem pelo Amazonas; estudos numa Universidade na Bolívia; a construção de uma estação geradora de energia no Paquistão e o estabelecimento da primeira fazenda com cultivo orgânico na Austrália.

A sua prática Budista surgiu como resultado de uma busca espiritual que começou por volta dos quarenta anos de idade quando ela se encontrou com mestres espirituais na Índia. As suas experiências levaram-na por fim a se tornar uma monja Budista no Sri Lanka em 1979, quando recebeu o nome ‘Khema’ que quer dizer segurança e proteção (Ayya significa venerável). Ela contribuiu para o estabelecimento do Wat Buddha-Dhamma, um monastério de florestas na tradição Theravada, próximo a Sydney, Austrália, em 1978. No Sri Lanka ela estabeleceu o International Buddhist Women’s Centre em Colombo como um centro de treinamento para monjas Cingalesas e o Parappuduwa Nun’s Island em Dodanduwa. Ela atuou como diretora espiritual do Buddha-Haus na Alemanha, estabelecido em 1989. Em Junho de 1997 o Metta Vihara, o primeiro monastério de florestas Budista na Alemanha foi inaugurado por ela.

Em 1987 ela coordenou pela primeira vez na história Budista uma conferência internacional de monjas Budistas que resultou no estabelecimento da Sakyadhita, uma organização mundial Budista feminina. Em Maio de 1987 ela foi a primeira monja Budista a ser convidada para discursar nas Nações Unidas acerca do tema Budismo e a Paz Mundial.

Ayya Khema escreveu vinte cinco livros sobre meditação e ensinamentos do Buda em Inglês e Alemão; os seus livros foram traduzidos em sete idiomas. Em 1988, o seu livro “Being Nobody, Going Nowhere” recebeu o Christmas Humphreys Memorial Award. Ayya Khema faleceu de câncer no dia 2 de Novembro de 1997 no Buddha-Haus, Alemanha.