O Caminho em Harmonia – samadhi correto e samadhi incorreto

O Caminho em Harmonia
Ajaan Chah

A combinação de duas palestras proferidas na Inglaterra em 1979 e 1977 respectivamente

… Com o samadhi correto, não importa qual nível de tranqüilidade é alcançado,
existe atenção plena e plena consciência. Esse é o samadhi que pode dar
origem à sabedoria, a pessoa não será capaz de se perder nele. Os praticantes
devem entender isto muito bem …

Hoje eu gostaria de lhes perguntar. “Vocês estão seguros, vocês têm certeza da sua prática de meditação?” Pergunto por que atualmente existem muitas pessoas
ensinando meditação, tanto monges como leigos, e temo que vocês possam estar
sujeitos à incerteza e à dúvida. Se entendermos claramente, seremos capazes de
fazer com que a mente seja firme e tranqüila.

Vocês devem entender o “Caminho Óctuplo” como sendo virtude, concentração e
sabedoria. O caminho é simplesmente isso. A nossa prática consiste em fazer com
que esse caminho se desenvolva dentro de nós.

Quando sentamos em meditação nos dizem para fechar os olhos, não olhar para
nada mais porque agora iremos olhar diretamente para a mente. Quando fechamos
os nossos olhos, a nossa atenção se volta para dentro. Estabelecemos nossa atenção na respiração, centralizamos ali as nossas sensações, colocamos ali a nossa atenção plena. Quando os elementos do caminho estiverem em harmonia seremos capazes de ver a respiração, as sensações, a mente e os seus humores da forma como realmente são. Assim veremos o “ponto de foco”, para onde samadhi e os demais elementos do Caminho convergem em harmonia.

Quando estiverem sentados em meditação, seguindo a respiração, pensem consigo
mesmos que agora vocês estão sentados sozinhos. Não há ninguém sentado à sua
volta, não há nada mais. Desenvolvam esse pensamento de que vocês estão sentados
sozinhos até que a mente solte de tudo que é externo, concentrando-se somente na
respiração. Se vocês estiverem pensando, “Esta pessoa está sentada aqui, aquela
pessoa está sentada ali”, não haverá paz, a mente não irá para dentro.

Simplesmente coloquem tudo isso de lado até que vocês sintam que não há ninguém sentado a sua volta, até que não exista nada mais, até que vocês não tenham nenhuma hesitação ou interesse naquilo que está à sua volta.

Deixem que a respiração flua com naturalidade, não force para que seja curta, longa ou o que quer que seja, simplesmente fiquem sentados e observem a respiração entrando e saindo. Quando a mente se solta de todas as sensações externas, os ruídos de carros e os outros ruídos não irão perturbá-los. Nada, quer sejam visões ou sons, irá perturbar, porque a mente não os estará recebendo. A atenção estará concentrada na respiração.

Se a mente está confusa e não se concentra na respiração, inspirem fundo, o mais
fundo que puderem e depois expirem até que não reste nada. Façam isso três vezes
e depois re-estabeleçam a atenção. A mente irá se acalmar.

É natural que a mente se acalme durante algum tempo e que depois a inquietação e
a confusão possam surgir outra vez. Quando isso acontecer, concentrem-se,
respirem fundo outra vez e depois re-estabeleçam a atenção na respiração.
Continuem fazendo isso. Quando houver ocorrido isso algumas vezes, vocês se
tornarão peritos nisso, a mente irá se soltar de todas as manifestações externas.

Impressões externas não irão atingir a mente. Sati estará firmemente estabelecida. À medida que a mente for ficando mais sutil, assim também a respiração. As sensações irão ficar cada vez mais sutis, o corpo e a mente ficarão leves. A atenção estará somente no que é interno, veremos a inspiração e a expiração claramente, veremos todas as impressões claramente. Veremos a Virtude, Concentração e Sabedoria se unindo. A isto se denomina o caminho em harmonia. Quando existe harmonia a mente fica livre da confusão, fica unificada. A isto se denomina samadhi. Após observar por um longo tempo, a respiração pode se tornar bastante sutil, a atenção na respiração irá cessar gradualmente, restando somente a atenção pura.

A respiração pode ficar tão sutil que desaparece! Talvez estejamos “apenas sentados”, tal como se não houvesse respiração. Na verdade existe a respiração mas a impressão é de que ela não existe. Isto ocorre porque a mente atingiu o seu estado mais sutil, existe somente a atenção pura. Ela foi além da respiração. O conhecimento de que a respiração desapareceu se torna estabelecido. O que tomaremos agora como objeto de meditação? Tomamos esse conhecimento como nosso objeto, isto é, a consciência de que não existe respiração.

Coisas inesperadas podem acontecer nesse momento; algumas pessoas as experimentam, outras não. Se elas surgirem, devemos ser firmes e manter uma
sólida atenção plena. Algumas pessoas vêm que a respiração desaparece e ficam
com medo, elas temem que possam morrer. Nesse caso devemos entender a situação apenas pelo que ela é. Nós simplesmente notamos que não há respiração e tomamos isso como objeto da nossa atenção. Esse, podemos dizer, é o tipo de samadhi mais firme e mais seguro. Existe somente um estado mental, firme e imóvel.

Talvez o corpo se torne tão leve que é como se não houvesse corpo. Sentimos como
se estivéssemos sentados em um espaço vazio, tudo parece vazio. Embora isso possa parecer muito estranho, vocês devem entender que não existe motivo para se
preocupar. Estabeleçam a sua mente firmemente dessa forma.

Quando a mente está firmemente unificada, e já não é perturbada por impressões
dos sentidos, a pessoa pode permanecer nesse estado pelo tempo que quiser. Não
haverá sensações dolorosas que a perturbem. Quando samadhi atingiu esse nível,
poderemos deixá-lo quando quisermos, porém se deixarmos esse samadhi o faremos de maneira confortável, não porque ficamos entediados ou cansados. Nós o deixamos porque estamos satisfeitos por agora, nos sentimos relaxados, sem
nenhum tipo de problema.

Se podemos desenvolver esse tipo de samadhi, e nos sentarmos, digamos, trinta
minutos ou uma hora, a mente estará relaxada e calma por muitos dias. Quando a
mente está assim relaxada e calma, ela está limpa. Tudo aquilo que experimentarmos, a mente irá tomar e investigar. Esse é um fruto de samadhi.

A virtude possui uma função, a concentração possui outra função, e a sabedoria
outra. Esses elementos são como um ciclo. Podemos vê-los todos dentro de uma
mente tranqüila. Quando está calma a mente possui moderação e autocontrole
devido à sabedoria e a energia da concentração. Na medida em que fica mais
controlada a mente se torna mais sutil, o que por conseguinte dá força para que a virtude incremente a sua pureza. Na medida em que a virtude se purifica, isso
auxilia no desenvolvimento da concentração. Quando está firmemente estabelecida
a concentração auxilia o surgimento da sabedoria. Virtude, concentração e
sabedoria se auxiliam mutuamente, estão inter-relacionadas dessa forma. No final o Caminho se converte em um só e opera todo o tempo. Devemos buscar a força que
se origina do caminho, porque é a força que conduz ao Insight e Sabedoria.

Os Perigos de Samadhi

Samadhi é capaz de trazer muito dano ou muito benefício para o meditador, não é
possível dizer que somente traga um ou outro. Para aquele que não possui
sabedoria é prejudicial, mas para aquele que possui sabedoria pode trazer um
benefício real, pode conduzi-lo ao Insight.
Aquilo que pode ser mais prejudicial ao meditador é o samadhi da absorção (Jhana), o samadhi com profunda e sustentada tranqüilidade. Esse samadhi traz imensa paz.

Onde existe paz existe a felicidade. Quando existe a felicidade, o apego, a união a essa felicidade surgem. O meditador não quer contemplar nada mais, ele quer somente desfrutar dessa sensação agradável. Após termos praticado por um longo tempo poderemos ter a habilidade de entrar nesse samadhi muito rapidamente.

Assim que começamos a notar o nosso objeto de meditação, a mente fica tranqüila e nós não queremos sair para investigar nada mais. Ficamos grudados nessa
felicidade. Esse é um perigo para quem pratica a meditação.

Nesse caso precisamos usar upacara samadhi.xi Aqui, penetramos a tranqüilidade e então, quando a mente estiver suficientemente tranqüila, saímos e olhamos para a
atividade externa. xii Olhando para o exterior com a mente tranqüila faz surgir a sabedoria. É difícil de entender isso, porque é quase o mesmo que pensar e
imaginar. Quando o pensamento está presente, podemos pensar que a mente não
está tranqüila, mas na verdade esse pensamento está ocorrendo dentro da
tranqüilidade mas sem perturbar a tranqüilidade. Nesse caso tomamos o
pensamento para investigá-lo mas não é que estejamos pensando em investigá-lo a
esmo, nem que estejamos pensando ou imaginando a esmo; é algo que surge da
mente que está tranqüila. A isto se denomina “atenção dentro da calma e calma com atenção”. Se for simplesmente o pensamento e imaginação normais, a mente não
ficará tranqüila, ela ficará perturbada. Mas não estou falando do pensamento
comum, essa é uma ação que surge da mente tranqüila.. É exatamente aí que nasce a sabedoria.

Portanto, pode haver o samadhi correto e o samadhi incorreto. O samadhi incorreto se dá quando a mente penetra a tranqüilidade e não existe absolutamente nenhuma atenção. A pessoa pode ficar sentada por duas horas ou mesmo todo o dia mas a mente não sabe onde esteve ou o que aconteceu. Não sabe de nada. Existe a tranqüilidade, mas isso é tudo. É tal como uma faca muito bem afiada que não nos damos ao trabalho de usar para nada. Esse é um tipo de tranqüilidade enganoso porque não existe plena consciência. O meditador pode pensar que já alcançou o ponto máximo e por isso não se preocupa em procurar por algo mais. Samadhi pode ser um inimigo nesse ponto. A sabedoria não é capaz de surgir porque não existe consciência do que é certo ou errado.

Com o samadhi correto, não importa o nível de tranqüilidade que seja alcançado, existe atenção plena e plena consciência. Esse é o samadhi que pode fazer surgir a sabedoria, ninguém se perde nele. Os praticantes devem entender isto muito bem. Você não deve ficar sem essa consciência, ela deve estar presente do começo ao fim.Esse tipo de samadhi não apresenta nenhum perigo.

Vocês devem estar se perguntando, de onde surge o benefício, como surge a
sabedoria do samadhi? Quando o samadhi correto foi desenvolvido, a sabedoria tem
a possibilidade de surgir em todos os momentos. Quando o olho vê uma forma, o
ouvido ouve um som, o nariz cheira um aroma, a língua experimenta um sabor, o
corpo experimenta o toque, ou a mente experimenta objetos mentais – em todas as
posturas – a mente permanece com pleno conhecimento da verdadeira natureza
dessas impressões sensuais, ela não é seletiva. Em qualquer situação estamos
plenamente atentos ao surgimento da felicidade e da infelicidade. Nós nos soltamos de ambas coisas, não nos apegamos. A isto se denomina a Prática Correta, que está presente em todas as posturas. Essas palavras “todas as posturas” não se referem somente a posturas do corpo, elas se referem à mente, que possui atenção plena e plena consciência da verdade durante todo o tempo. Quando samadhi foi desenvolvido corretamente, a sabedoria surge dessa forma. A isto se denomina insight, o verdadeiro conhecimento.

Existem dois tipos de paz – a grosseira e a refinada. A paz que surge de samadhi é do tipo grosseira. Quando a mente está tranqüila surge a felicidade. A mente então assume que essa felicidade é a paz. Mas a felicidade e a infelicidade são o ser/existir e o nascimento. Enquanto houver apego não há escapatória de samsara xiii . Dessa forma a felicidade não é a paz, a paz não é a felicidade.

O outro tipo de paz é aquele que surge da sabedoria. Nesse caso não confundimos a paz com a felicidade; conhecemos a mente que contempla e que conhece a felicidade e a infelicidade como sendo a paz. A paz que surge da sabedoria não é a felicidade, mas é aquela que vê a verdade de ambas, a felicidade e a infelicidade. O apego a esses estados não surge, a mente se eleva acima deles. Esse é o verdadeiro objetivo de toda a prática Budista.

trecho do livro de Ajaan Chah O Gosto da Liberdade