Existem três classes de pessoas que devem ser consideradas: os joguetes, os sanguessugas e os manipuladores.
Os primeiros adotam a linha de algum líder político e repetem seus pronunciamentos de cor, acreditando que sabem alguma coisa, confiantes que estão progredindo bastante e muito satisfeitos com o som de suas próprias vozes. São uns tolos completos. E, sendo tolos, submetem-se, assim, à linha de conduta do próximo.
Os sanguessugas são como piolhos no corpo de uma porca. Correm rapidamente aonde as cerdas sãos finas, e isto se converte no seu palácio e no seu parque. Deliciam-se nas juntas, entre os dedos dos pés da porca, à volta das articulações e das tetas, ou debaixo da cauda. Aqui, nesse lugar, entrincheiram-se, e imaginam que dali não vão sair, haja o que houver. Mas nunca podem imaginar que, um dia, o açougueiro virá com um facão e a machadinha no ar. Reunirá a palha seca e acenderá, a fim de chamuscar as cerdas, e queimar os piolhos. Esses parasitas aparecem quando a porca aparece e desaparecem quando a porca morre.
Enfim, os manipuladores, são homens como Shun. O carneiro não é atraído pelas formigas, mas estas são atraídas ao carneiro, porque ele é alto e cheira mal. Dessa maneira, Shun era um manipulador vigoroso e afortunado e as pessoas, por isso, gostavam dele. Três vezes se locomoveu de uma cidade para a outra, e cada vez que assim o fazia a sua residência se transformava em capital. Por fim, ele se mudava para a selva e cem mil famílias iam com ele a fim de colonizar o local.
Finalmente, Yao levantou a idéia de que Shun deveria ir para o deserto, para ver se poderia fazer lá alguma coisa. Embora Shun, nessa época, estivesse mais velho e a sua cabeça estivesse ficando fraca, não podia recusar-se a fazer isso. Não podia pensar em se aposentar. Esquecera-se de como parar a sua carroça. Era um manipulador, e nada mais!
O homem de espírito, por outro lado, odeia ver as pessoas reunidas ao seu redor. Evita a multidão. Pois, onde existem muitos homens, há também muitas opiniões e pouca concórdia. Nada há a ganhar quando apoiamos esses cabeças-ôcas, que se destinam a acabar brigando uns contra os outros.
O homem de espírito não é nem muito íntimo de ninguém, nem muito distante. Interiormente, permanece atento e mantém o equilíbrio para não entrar em conflito com ninguém. Este é o homem verdadeiro. Ele deixa as formigas serem inteligentes. Deixa o carneiro agitar-se até ficar cheirando mal. Por sua própria vontade, ele imita os peixes que nadam despreocupados, ladeados por um elemento amigo e preocupando-se apenas com o que é seu.
O homem verdadeiro vê o que o seu olho vê e nada acrescenta do que ali não se encontra. Ouve o que o ouvido escuta e não percebe coisas imaginárias, exagerando ou subtraindo a realidade. Compreende as coisas como devem ser entendidas e não se preocupa, nem com os significados obscuros, nem com os mistérios. O seu curso, portanto, é uma linha reta. Ainda assim, pode modificar a sua direção toda vez que as circunstâncias assim o exigirem.
Chuang Tzu