DZOGCHEN: FAZENDO DO OBJETIVO O CAMINHO

Tulku Urgy en Rinpoche viveu em um eremitério na encosta sul da montanha Shivapuri, com vista para o vale de Katmandu. Ele passou mais de vinte anos em retiro formal e ficou merecidamente famoso pela clareza com que dava a “instrução do apontar”, uma iniciação formal ao Dzogchen na qual um professor procura comunicar diretamente a um aluno a experiência da autotranscendência. Recebi esse ensinamento de vários mestres dzogchen, além de instruções semelhantes de professores como Poonja-ji, de outras tradições, mas nunca encontrei ninguém que falasse sobre a natureza da consciência de modo tão preciso quanto Tulku Urgyen. Em seus últimos cinco anos de vida, fiz várias viagens ao Nepal para estudar com ele.

A prática do Dzogchen requer que a pessoa seja capaz de experimentar, a cada momento, a ausência intrínseca de self que acontece quando estamos atentos (isto é, não distraídos por pensamentos). Isso quer dizer que, para um meditador da tradição Dzogchen, atenção plena tem de ser sinônimo de dissipar a ilusão do self. Em vez de ensinar uma técnica de meditação — por exemplo, ficar atento à respiração —, um mestre Dzogchen deve precipitar um insight com base no qual o aluno pode, a partir de então, praticar uma forma de rigpa* livre do dualismo sujeito/objeto. Assim, muitas vezes se diz que, no Dzogchen, o praticante “faz do objetivo o caminho”, porque estar livre do self, que, em outras circunstâncias, é o objetivo da busca, é justo aquilo que se pratica. O objetivo no Dzogchen, se é que podemos usar esse termo, é ganhar cada vez mais familiaridade com esse modo de estar no mundo.

Pelo que pude observar, alguns mestres do Dzogchen são professores melhores que outros. Eu estive na presença de alguns dos mais reverenciados lamas tibetanos do nosso tempo enquanto eles ensinavam ostensivamente o Dzogchen, e a maioria deles apenas descrevia essa concepção de consciência sem dar instruções claras sobre como vislumbrá-la. A genialidade de Tulku Urgyen estava em ser capaz de apontar para a natureza da mente com a precisão e a naturalidade de quem ensina uma pessoa a enfiar uma linha na agulha, e em poder levar um meditador comum, como eu, a reconhecer que a consciência é intrinsecamente desprovida de self. A depender do estudante, pode haver de início alguma dificuldade e incerteza, mas assim que ele vislumbra a verdade da não dualidade, fica óbvio que ela sempre esteve disponível — e nunca mais ele tem dúvida a respeito de como tornar a vê-la. Procurei Tulku Urgyen ansioso pela experiência de transcender o self, e em poucos minutos ele me mostrou que eu não tinha self para transcender.

A meu ver, não há nada de sobrenatural, e nem mesmo de misterioso, nessa transmissão de sabedoria de mestre para discípulo. O efeito de Tulku Urgy en sobre mim se deu somente graças à clareza de seus ensinamentos. Como acontece em qualquer empreendimento desafiador, é difícil exagerar a diferença entre ser enganado por informações falsas, ser posicionado vagamente na direção geral e ser guiado com precisão por um especialista.

A percepção direta do ponto cego óptico mais uma vez nos fornece uma analogia: imagine que perceber o ponto cego transforme por completo a vida de uma pessoa. Em seguida, imagine que religiões inteiras como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo tomem por base a negação da existência do ponto cego — digamos que suas doutrinas centrais afirmem a perfeita uniformidade do campo visual. Talvez outras tradições reconheçam o ponto cego, mas apenas em termos poéticos, sem dar nenhuma indicação clara sobre como reconhecê-lo. Algumas linhagens podem até ensinar técnicas pelas quais o indivíduo conseguirá ver o ponto cego por conta própria, mas apenas de forma gradual, após meses ou anos de esforço, e mesmo então seus vislumbres do ponto cego parecerão mais uma questão de sorte do que qualquer outra coisa. Em uma tradição mais esotérica, um “mestre do ponto cego” dá a “instrução de apontar”, mas sem muita precisão: talvez diga ao discípulo para fechar um olho, por razões que nunca são explicitadas, e depois diga que o ponto procurado está bem na superfície da visão. Sem dúvida algumas pessoas conseguirão descobrir o ponto cego nessas condições, mas o professor com certeza poderia ser mais claro do que isso. Quanto mais claro? Se Tulku Urgyen fosse apontar o ponto cego, ele apresentaria uma figura como essa abaixo e daria as seguintes instruções:

1. Segure esta figura à sua frente, com o braço esticado.

2. Feche o olho esquerdo e fite a cruz com o direito.

3. Aproxime gradualmente a página do rosto, sempre com o olhar fixo na cruz.

4. Note quando o ponto à direita desaparece.

5. Assim que encontrar seu ponto cego, continue a experimentar com essa figura, movendo a página para frente e para trás, até que toda possibilidade de dúvida sobre a existência do ponto cego tenha desaparecido.

exercicio

Não pega bem na maioria dos círculos espirituais, em particular entre os budistas, divulgar a própria realização. Mas creio que esse tabu acaba tendo um preço alto ao permitir que as pessoas permaneçam confusas quanto à forma da prática. Por isso, descreverei minha experiência com franqueza.

Antes de encontrar Tulku Urgyen, eu passara no mínimo um ano praticando vipassana em retiros silenciosos. A experiência da autotranscendência não me era de todo desconhecida. Eu me lembrava de momentos em que a distância entre o observador e o observado parecia desaparecer, mas achava que essas experiências dependiam de condições de extrema concentração mental. Em consequência, eu julgava que elas não fossem acessíveis em momentos mais comuns, fora de um retiro intensivo. Mas, depois de alguns minutos, Tulku Urgy en simplesmente me entregou a capacidade de atravessar por completo a ilusão do self, mesmo em estados de consciência comuns. Essa instrução foi, sem a menor dúvida, a coisa mais importante que um ser humano me ensinou explicitamente. Ela me deu um modo de escapar das marés usuais do sofrimento psicológico — medo, raiva, vergonha — em um instante. Em meu nível de prática, a liberdade dura somente alguns momentos. Mas são momentos que podem ser repetidos, e a duração deles pode aumentar. Pontuar a experiência comum dessa forma faz toda a diferença. De fato, quando presto atenção, é impossível para mim me sentir como um self: o centro implícito de cognição e emoção simplesmente se dissolve, e fica evidente que a consciência nunca é confinada de verdade pelo que ela conhece. Quem presta atenção na tristeza não está triste. Quem presta atenção no medo não está com medo. Mas, no momento em que me perco em pensamentos, fico tão confuso quanto qualquer pessoa.

Dada essa mudança na minha percepção do mundo, entendo as atrações da espiritualidade tradicional. Também reconheço a confusão e o mal desnecessários que inevitavelmente derivam das doutrinas da religião baseada na fé. Não precisei acreditar em irracionalidades sobre o universo, ou sobre o lugar que ocupo nele, para aprender a prática do Dzogchen. Não precisei aceitar as crenças do budismo tibetano sobre carma e renascimento, nem imaginar que Tulku Urgy en ou os outros mestres da meditação que encontrei possuíam poderes mágicos. E, sejam quais forem as desvantagens tradicionais do relacionamento entre guru e devoto, sei, por experiência direta, que é possível encontrar um professor capaz de ensinar com eficácia.

Infelizmente, para começar a prática do Dzogchen costuma ser necessário encontrar um professor qualificado. Existe uma vasta literatura sobre o tema, é claro, e boa parte do que escrevi neste livro representa meu próprio esforço de “apontar” para a natureza da consciência desperta. Contudo, para que sua confusão e suas dúvidas sejam resolvidas, a maioria das pessoas necessita do diálogo com um professor capaz de responder às suas questões em tempo real. Tulku Urgy en não está mais vivo, mas me disseram que seus filhos, Tsoknyi Rinpoche e Mingy ur Rinpoche, ensinam em geral no mesmo estilo, e muitos outros lamas tibetanos também ensinam o Dzogchen. No entanto, nunca se sabe quanta religiosidade budista pedirão que assimilemos pelo caminho. Meu conselho é que, se você procurar esses ensinamentos, não se satisfaça enquanto não tiver certeza de que entendeu a prática. O Dzogchen não é vago nem paradoxal. Não é como o Zen, no qual uma pessoa pode passar anos sem saber se medita corretamente. A prática de reconhecer a consciência desperta não dual é chamada trekchod, que significa “cortar através” em tibetano, como quando se corta um cordão de tal modo que ele se destaca em duas partes. Uma vez cortado, não há dúvida de que está cortado. Recomendo que você exija a mesma clareza na sua prática de meditação.

Além da dualidade

Pense em algo agradável de sua vida pessoal — visualize o momento em que realizou algo de que se sente orgulhoso ou em que deu boas risadas em companhia de um amigo. Faça isso por um minuto. Note que o mero pensar no passado evoca um sentimento no presente. Mas a consciência propriamente dita se sente feliz? É transformada ou distorcida de verdade pelo que conhece?

Nos ensinamentos do Dzogchen, se costuma dizer que os pensamentos e as emoções surgem na consciência do mesmo modo que imagens aparecem na superfície de um espelho. Essa é apenas uma metáfora, mas capta um insight que podemos ter sobre a natureza da mente. Um espelho é melhorado por belas imagens? Não. O mesmo se pode dizer sobre a consciência.

Agora pense em algo desagradável: talvez recentemente você tenha feito alguma coisa embaraçosa ou recebido uma má notícia. Talvez esteja apreensivo com um acontecimento iminente. Repare em todo sentimento que surgir após esses pensamentos. Eles também são aparições na consciência. Eles têm o poder de mudar o que a própria consciência é?

Há uma verdadeira liberdade por trás dessas noções, mas você provavelmente não a encontrará sem examinar a fundo a natureza da consciência, muitas e muitas vezes. Note como os pensamentos continuam a surgir. Mesmo enquanto você lê esta página, sua atenção com certeza se desviou várias vezes. As derivações da mente são o principal obstáculo à meditação. A meditação não exige a supressão desses pensamentos, mas requer que os notemos quando surgem e que os reconheçamos como aparições transitórias na consciência. Em termos subjetivos, você é a própria consciência — você não é a imagem evanescente ou a série de palavras que vai surgir logo a seguir na sua mente. No entanto, se não notar o surgimento do pensamento seguinte, ele parecerá se tornar o que você é.

Mas como você poderia ser um pensamento? Seja qual for seu conteúdo, os pensamentos desaparecem quase no instante em que surgem. São como sons ou sensações fugazes em seu corpo. Como esse pensamento seguinte poderia definir a subjetividade de quem o pensou?

Pode ser preciso anos observando os conteúdos da consciência — ou apenas alguns momentos —, mas é possível perceber que a consciência propriamente dita é livre, não importa o que surja para ser notado. A meditação é a prática de encontrar diretamente essa liberdade, de desfazer nossa identificação com o pensamento e permitir que o continuum de experiências, agradáveis e desagradáveis, apenas seja como é. Existem muitas técnicas tradicionais para se fazer isso. Mas é importante perceber que a verdadeira meditação não é um esforço para produzir um dado estado mental — como a felicidade suprema, ou imagens visuais incomuns, ou amor por todos os seres sencientes. Métodos assim também existem, mas servem a uma função mais limitada. O propósito mais profundo da meditação é reconhecer o que é comum a todos os estados da experiência, agradável ou desagradável. O objetivo é perceber as qualidades que são intrínsecas à consciência em cada momento presente, independentemente do que surgir para ser notado.

Quando você consegue descansar de modo natural, testemunhando apenas a totalidade da experiência, e deixa que os pensamentos surjam e desapareçam como quiserem, pode reconhecer que a consciência é intrinsecamente indivisa. No momento em que perceber isso, você estará livre por completo do sentimento que chama de “eu”. Ainda verá este livro, obviamente, mas ele será uma aparição na sua consciência, inseparável da consciência propriamente dita — e não haverá a sensação de que você está atrás dos seus olhos, fazendo a leitura.

A mudança de perspectiva não é uma questão de se ter novos pensamentos. É bem fácil pensar que este livro é apenas uma aparição na consciência. Outra coisa é reconhecê-lo como tal, antes que esse pensamento surja.

O gesto que precipita esse insight para a maioria das pessoas é tentar inverter a consciência — procurar por aquilo que está procurando — e notar, no primeiro instante em que se busca o self, o que acontece com a aparente divisão entre sujeito e objeto. Você ainda sente que está ali, atrás dos seus olhos, olhando para um mundo de objetos?

É mesmo possível buscar o sentimento que você chama de “eu” e não o encontrar de um modo conclusivo

Do livro Despertar de Sam Harris

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