A arte de desligar-se

Como a vida no Tao pode ajudar

Você realizou totalmente a vida no Tao no momento em que se tornou capaz de não formar mais opinião sobre si mesmo, isto é, você simplesmente está aí, só existe, fica feliz com a vida, e abre mão de todas as interpretações da vida e de sua existência que aprendeu e lhe foram transmitidas. Isto significa que você cria em si um estado que já existiu em sua infância antes do início do aprendizado, e no qual – sob diversas influências e correntes – você criou a imagem da realidade que ainda hoje determina a sua existência. Parece grotesco e inaceitável: mas nada que nos foi ensinado sobre nós mesmos e sobre o mundo ao nosso redor é absolutamente correto. Levamos uma vida na relatividade dos parâmetros que o nosso pensamento nos coloca. E estes também determinam os nossos limites. E estes, por nós mesmo colocados, nos acompanham como uma jaula invisível que nos prende, mas que é móvel, de maneira que temos a falsa impressão de liberdade espiritual. Assim que uma pessoa é capaz de conseguir distância de seus preconceitos, ela conseguirá saber coisas sobre si que em seguida lhe proporcionarão uma relação totalmente diferente consigo mesmo e com suas verdadeiras forças – este conhecimento acontece por si só. A pessoa do Tao não se submete às exigências da aparência exterior, ela quer conhecer as coisas como elas realmente são. E as coisas geralmente não são aquilo que a aparência mostra. Todos os estados do cotidiano que nos influenciam são geralmente cinzentos – com exceção de poucos auges. O medo do futuro, medo de prejuízos e perdas de prestígio e influência, de um assalto em casa, este medo é nosso acompanhante. E nossas ações estão de conformidade com esta situação. Em nossas decisões sempre nos orientamos visando manter a nossa segurança, ponderamos se fazemos mal a nós mesmos quando impomos a nossa opinião e nos recolhemos rapidamente quando surge esta impressão. Estamos constantemente ocupados em manter a posição na vida ou nas relações humanas, ou conseguir uma mais alta do que a atual, é indiferente se em nível pessoal ou comercial.

Na vida do Tao dominam outras regras, isto é, na verdade não existem regras, pois nesta arte de viver, nós nos movimentamos livremente, num estado de levitação como boiando na água ou longe da gravidade da Terra, obedecendo apenas à nossa inspiração, a voz de nossa autoridade interior, à qual não nos submete, mas consideramos parte de nós, a melhor parte de nós. Aqui não existe nada para policiar e nada por que lutar. As coisas simplesmente acontecem. O destino humano acontece de uma forma maravilhosa e simples, bem natural e harmonioso no seu processo. Você verá a enorme diferença entre uma vida com total liberdade interior, deixando-se levar pela corrente do Tao, e sua existência insatisfatória e tensa até hoje. Aqui surge a pergunta: se com tanta liberdade interior, sem obedecer a uma autoridade, ainda é possível uma vida normal em nossa sociedade? No penúltimo capítulo eu tratei do assunto outsider e no final sugeri que cada um pode manter aquilo que consegue. A possibilidade de viver no Tao não depende de nenhuma condição externa. Isto você pode fazer até na prisão, se for necessário. Para o efeito desta nova maneira de viver tanto faz se você aspira por esforços e independência material a ponto de afastar-se da confusão dos negócios, ou se você fica dentro. A independência interior, determina a qualidade de seu cotidiano. Não quero considerar dependência de parceiros comerciais, de clientes ou de chefes nas relações de trabalho como autoridades das quais temos de nos libertar para nos aprofundarmos em nós mesmo. Este outro tipo de dependência material é insignificante e pode mudar ou ser substituído. Ela não tem mais o importante papel repressor e amedrontador de antes.

Quem vive no espírito do Tao possui uma outra visão da realidade. Tal visão criou-se desapercebida na pessoa. E vivendo com esta visão as condições exteriores de poder perderam o seu efeito assustador. Esta pessoa vive serenamente e sem influências, e cumpre as tarefas escolhidas por ela mesma. Seria uma grande bobagem dar também externamente as costas à sociedade, o que não aconselho a nenhuma pessoa, que vive esta forma de existência com liberdade. Muito pelo contrário, é exatamente esta ação de dentro para fora que pode dar impulsos para mudar esta terrível constelação à qual as pessoas estão presas no cotidiano.

Se você cumprir as suas tarefas neste espírito, não precisará se preocupar com o desdobramento de sua existência. Trabalho de qualquer espécie é realização para você. Você realiza este trabalho por vontade própria, não com um determinado fim. Isto é uma característica muito importante do Tao: não fazer nada por causa de algum motivo arbitrário. Vivemos sem um objetivo ambicioso, sem motivos, sem argumentos para as nossas ações. Nós simplesmente agimos, e acabou. E é também assim que encaramos o nosso trabalho. Nós o fazemos. Bem feito e cuidadosamente, sem obrigação e pressão vindo de cima. Quem está na linha de montagem e faz um trabalho muito monótono que empobrece o espírito, mas que depende deste salário para sobreviver, pode realizar a sua tarefa sem a ansiedade interior dos seus colegas de trabalho, se for uma pessoa do Tao. Com toda a tranqüilidade esta pessoa fará as coisas com facilidade, e no fim perceberá que mesmo com esta forma de vida sem tensão, ela foi capaz de excelente desempenho. Pelo contrário, eu acredito que principalmente um trabalho baseado no princípio de desempenho pode ser realizado melhor por aquele que não dá importância a este princípio.

A ambição não existe para a pessoa do Tao. Ela não participa desta concorrência por poder e posse. Para ela basta ser ela mesma, e aquilo que ela precisa na vida vem ao encontro dela, sem ter de participar da elevação do outro. Mesmo se esta pessoa possuir uma loja e estiver diariamente na competição, ela saberá administrar esta competição de forma diferente. Com a sua riqueza interior ela nunca tentará alcançar algo através da força ou perfídia. Ela não tem necessidade disto. Quando negocia, ela o faz com tranqüilidade, ela opera com a força do meio e geralmente conseguirá aquilo que tinha previsto. Se excepcionalmente alguma coisa não dá certo, ela simplesmente aceita o fato, sem depois questionar o porquê, pois algum dia mais tarde verificará como foi bom que a coisa terminasse diferente do que ela tinha imaginado.

Assim que tiver aprendido a viver no aqui e agora você poderá parar de lutar. Para sempre. Quem luta perde força, pois na medida em que me esforço para atingir um objetivo, este se afasta de mim e surgem forças opostas que aumentam a sua influência na medida em que aumento a minha força. Quem percebeu isto, ou melhor, quem conhecer uma forma melhor de alcançar algo, abrirá mão desta confusão inútil. Por favor acredite, tudo aquilo que você deseja virá por si para você, assim que parar de lutar por elas. Já não aconteceu na sua vida, que você desejasse muito uma coisa e fizesse todos os esforços para consegui-la ? E apesar de todos os seus esforços parecia que todas as forças estavam contra você e seu desejo? E mais tarde, quando finalmente você desistiu, se distanciou deste desejo, de repente a realização dele estava bem próxima de você e você só precisava pegá-la? Por experiência própria eu sei que nesta situação aquela coisa desejada ardentemente não era mais tão importante. Se de início pudermos olhar com distanciamento os nossos desejos e anseios, vê-los com seu significado absoluto e objetivo, ou seja sem significado, então diminuirão as dificuldades da exigência; seremos capazes de observar e decidir com tranqüilidade aquilo que queremos ou não. É uma característica das pessoas que quando as coisas são alcançadas sem esforços, elas perdem o seu valor e seu significado material e espiritual. Por isto a pessoa do Tao tem poucos desejos além daqueles de que necessita para a sua subsistência no cotidiano. Ela sabe que nenhum desejo é impossível para ela se levá-lo a sério. Mas exatamente por isto nasce um estado de espírito mais elevado, acima de qualquer coisa. Você logo perceberá este desligamento de necessidades materiais, que resultará da autonomia. A constante busca dos nossos semelhantes por felicidade, sucesso e riqueza nos faz dar um sorriso indulgente. Pudemos parar com estes esforços inúteis, pois entendemos que não é este o sentido da vida.

fonte: Theo Fischer – Wu Wei, A Arte de Viver O Tao

Publicado em Tao

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