Como é a meditação Vipassana (introspecção)

Na meditação o que vier à mente sistematicamente, temos que observar e rotular imediatamente. A compreensão de determinadas situações ou estados de consciência surgirá da visão intuitiva, quando a mente não estiver dirigida, porque toda vez que tentarmos dirigir a mente para determinado assunto, iremos dirigi-la baseados nos nossos condicionamentos e a mente ficará deformada Então rotulando, rotulando de um momento para outro, aflora a verdadeira solução; aí, rotulamos e compreendemos superando uma série de problemas.

O sono é um dos obstáculos à meditação. A mente evita ser observada, porque está habituada a ficar solta, pulando de galho em galho, como um macaco na selva. É próprio da natureza da mente buscar sempre prazeres nas portas dos sentidos, na visão, na audição, no olfato, no paladar, no tato e na própria mente. Quando tentamos tirar a mente do seu habitat natural, ela usa de todos os subterfúgios para nos tirar da meditação. Como um peixe fora da água, treme, anela e faz todo esforço para voltar à água. A atenção sobre a mente é a contemplação do estado mental do momento presente. Durante a meditação a mente poderá estar com desejo, apego, saudade, tristeza, sensualidade, deprimida, cansada, distraída, em dúvida, dispersa, sonolenta, inquieta, irritada, colérica. Todos estes estados de consciência que surgem devem ser observados apropriadamente, sem apego ou aversão, com os rótulos mentais específicos correspondentes: “deprimida”, “distraída”, “saudosa”, ” colérica”, etc.

Pela simples observação de como surge e passa aquele pensamento, ganhamos tranqüilidade e compreensão, isto é, sabedoria. Este tipo de meditação e chamado Vipassana (introspecção).

Observarmos aquilo que é

O sentido desta meditação é observarmos aquilo que é, sem nenhum condicionamento; o que vem á tona no momento; observar e rotular é a única maneira de ganhar autoconhecimento. A única maneira de conhecer a mente, de conhecer os pensamentos e ver esta inteiração mente-corpo, corpo-mente e através da observação, entrando neste nosso laboratório, que temos à mão e não sabemos como usar.

Viver no aqui e agora

Nesta meditação viveremos no aqui e no agora, no momento presente; e apenas no momento presente é que está o Real porque o passado já passou e o futuro ainda não chegou; quando temos contato com o agora é que vemos o Real e que Podemos compreendê-lo. Então, aquilo que ocorre no momento na mente, nós observamos rotulando. Na vida cotidiana, por exemplo, suponhamos que, por falta de plena atenção, estejamos coléricos, dominados pela má vontade e pelo ódio. Resulta curioso e paradoxal que a pessoa colérica não tenha realmente consciência de que está colérica. Porém, no instante em que se torna consciente da presença desse estado na sua mente, começa a controlar-se e a apaziguar-se. Devemos examinar a natureza dessa cólera e como cia surge e desaparece. O importante é também não pensar “estou colérico”, ou “minha cólera”, mas ter consciência do estado da mente colérica e permanecer atento a este fato, isto e, observar e examinar de um modo objetivo a mente dominada pela cólera. No caso especifico da cólera, não transformá-la em mansuetude, mas, sim, dela estar plenamente consciente. Havendo o apercebimento puro e simples do fato, aquilo que é se extingue. Não é preciso, necessariamente, que desejemos essa extinção e nos esforcemos para isso. Tal desejo e esforço longe de conduzirem à extinção, impedem-na. Difícil é o apercebimento pronto, que nos condiciona, mas, no momento em que nos apercebemos desses condicionamentos, eles podem cessar e ser destruídos. Esta e a atitude que se deve adotar no tocante a todos os estados mentais (sentimentos, emoções, etc.).

“É o conhecimento do obstáculo o fator que libera, e não o esforço para dele nos livramos. É só quando se compreende a sua limitação que o pensamento limitado deixa de existir.” (Krishnamurti.)

Quando nenhum pensamento ou sensação surgir na mente, voltamos novamente nossa atenção para a respiração, até que, com a concentração natural a que a mente vai sendo submetida à observação pura, menos pensamentos surjam. Quando isso acontecer, eles aparecerão com muita clareza. Do mesmo modo, podemos comparar a mente a um lago cuja superfície está continuadamente encrespada pelas ondas; só poderemos ver o fundo quando a agitação cessar e, conseqüentemente, a água se tornar clara e transparente. Assim, nossa atenção vai ficando concentrada unicamente no ato de inspirar e expirar o ar pelas narinas, nada mais, até que chegue o momento em que desaparece a própria atenção na respiração. Somente então podemos dizer que a nossa mente está começando a ficar concentrada e tranquila.

O rótulo mental é apenas um auxiliar usado pata facilitar, controlar e estimular a Plena Atenção; evita que sejamos levados pela sucessão de pensamentos e isola-nos dos pensamentos, não permitindo que nos identifiquemos com eles. O rótulo mental, sendo também um pensamento isolado do turbilhão de pensamentos, faz com que nos transformemos em mero observador neutro de tudo o que ocorre na mente, sem julgar, aceitando a verdade da vivência que está sendo vivida.

Além da nota mental específica, pode-se empregar a expressão “e daí…” que muito auxilia o praticante a não se envolver nos diferentes assuntos que surgem na mente, tais como: pensamentos, lembranças, sensações de qualquer natureza etc.; porém deve-se ter o cuidado de não utilizá-la como expressão de indiferença. Por exemplo, se durante a meditação surgir uma lembrança, observar o fato apenas como lembrança, anotando “e daí…”, prosseguindo a atenção na respiração, como já foi explicado.

O rótulo mental, além do que já foi dito, também chamado guarda da mente, é a arma para que nós tenhamos a permanente vigília, a permanente alerta e faz com que a energia surja. Um simples observar, sem nenhum nome ou rótulo, daquilo que ocorre no momento, e acabamos ficando sonolentos, perdendo-nos com facilidade. o rótulo mental evita que a mente se perca e vagueie indo a estados negativos de consciência – raiva, tristeza etc. Tão logo observamos e rotulamos, o fluxo passa e, pelo simples observar, vamos ganhando autoconhecimento; percebemos como tudo surge e passa. Quanto mais contemplamos o surgir e o desaparecer dos pensamentos, tornamo-nos conscientes de sua existência e de sua natureza específica. A influência dominadora que o pensamento exerce sobre nós torna-se cada vez mais fraca e de escravos dos nossos pensamentos passamos a ser senhores.

do livro Budismo: Psicologia do Autoconhecimento

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