Mestre Linji sobre os papagaios que ensinam autoconhecimento

“Não permitais que falsos anciãos aqui e acolá vos marquem com o carimbo da compreensão, sem quê nem para quê, para depois saírem espalhando a notícia, ‘eu tenho zen, eu entendi o que significa a Senda*’, ministrando depois uma eloquente palestra que flui constantemente como uma cachoeira, mas cuja única função é criar o carma que conduz ao inferno… Somente a percepção de perfeita introvisão correta pode ser considerada como sucesso”

Falsos anciãos são aqueles que fingem ensinar para obter ganho pessoal. Eles não têm introvisão nem experiência para ensinar, mas querem respeito, fama ou algum tipo de proveito, por isso falam como se tivessem introvisão.

Mestre Linji

O Mestre Linji ensinou: ”Há um grupo de cegos de cabeça raspada que, depois de comerem até se fartar, sentam-se para praticar meditação. Eles seguram o pensamento e não o deixam surgir. Não suportam o barulho, preferindo o silêncio. Seu modo de prática não é diferente do dos não budistas. Disse um mestre: ‘Aqueles que praticam concentrando-se para contemplar o silêncio e depois levam a mente a contemplar o que está fora dela, ou a recolhem interiormente, ou fazem com que ela pare a fim de entrar em samádi, todos ainda estão fazendo alguma coisa, não estão praticando o não ter nada a fazer”.

Mestre Linji referia-se a monges de cabeças calvas e olhos cegos. Que pena! Uma vez satisfeitos, eles sentar-se para praticar meditação. Ficam calados e acham que estão praticando budismo, mas não estão.

Budismo não é sentar-se calado a fim de buscar completo silêncio, como um coelho que se enfia num buraco para estar em paz. Muitos de nós praticamos como coelhos. Fazemos meditação sentada para achar um esconderijo onde possamos ficar em paz, mas não conseguimos nada. Isso não nos ajuda a abrir-nos e a libertar-nos. Essa hora de meditação sentada é só para pularmos num buraco e esconder-nos. E depois de um tempinho sentados, sentimo-nos sonolentos.

A sonolência é um hábito comum nos mosteiros. Forçamos o corpo a permanecer muito tempo sentado, mas a qualidade dessa prática sentada não nos leva a lugar nenhum. É como estar sentado numa gruta escura. O Mestre Linji se deu conta disso e repreendeu-nos, dizendo ”É. assim que Vós fazeis e é absolutamente inútil”. Sentar-se dessa maneira, detestar o barulho e preferir o silêncio não é o Budadarma.

O Mestre Linji ensinou: “Meus amigos, se Vós seguis as palavras dos mestres zen e dizeis que elas constituem a verdadeira Senda, se dizeis que esses mestres são bons amigos espirituais de capacidades inconcebíveis, e se ao mesmo tempo considerais vossa mente tão profana que não vos atreveis a estima-la, então sois realmente cegos. Carregareis esse complexo preconceituoso pelo resto da vida. Não podeis ver o que vossos olhos poderiam vos mostrar”.

O mestre estava recomendando não confiar naqueles que se dizem mestres zen, mas usam seu poder ou sua reputação para forçar-nos a segui-los. E se acreditamos neles, nós estamos vendendo nossas sementes. O agricultor precisa reservar suas sementes para poder plantar da próxima vez. Se ele vender essas sementes, não terá nada para plantar a fim de alimentar-se. Logo, quando acreditamos nesses falsos mestres zen ou professores do Darma, o que estamos fazendo é vender as sementes de que precisamos para comer.

Temos dois olhos. Podemos até achar que os usamos, mas confiamos cegamente. Confiamos em uma e outra pessoa e não sabemos usar os olhos. Temos os olhos do Buda, os olhos do Darma, mas os maltratamos. Fechamos os olhos, tateamos à nossa volta e seguimos a orientação de outros que carecem de introvisão. Esses outros também não são necessariamente cegos. Eles também têm olhos brilhantes do Buda e do Darma, mas não os abrem para usá-los. Não devemos ter o complexo de que não somos nada ou somos maus.

O Mestre Linji ensinou: ”Sois como macaquinhos de pé sobre o gelo, tremendo de medo. Vós dizeis: ‘Eu não me atreveria a falar mal desses bons amigos espirituais por receio de produzir ação verbal equivocada’. Meus amigos, somente quem é um grande amigo espiritual se atreve a falar mal de Buda e dos mestres, achar falhas na vida, boicotar os ensinamentos da Tripitaka, ralhar com outrem como se ralha com crianças e descobrir em quaisquer circunstâncias, favoráveis ou desfavoráveis, a verdadeira pessoa”.

O Mestre Linji censurava os falsos mestres zen. Todos nós vestimos falsas túnicas, quer elas sejam de nirvana, de libertação ou de perdão para enganar um ao outro. Enquanto isso, não conseguimos ver nossa verdadeira natureza, que ficou tão encoberta por enfeites. O Buda também tem sido camuflado. Colocamos um halo sobre ele e damos-lhe orelhas de lóbulos muito compridos. Maquiamos nele as trinta e duas marcas e os oitenta sinais auspiciosos para encobrir a verdadeira pessoa do Buda.

Do livro Nada a fazer, não ir a lugar algum, Thich Nhat Hanh

*Senda = Caminho

O que é a introvisão:

Ensinou o Mestre Linji que, “em nossos tempos, os monges não conseguem conceber a Senda porque confundem palavras e expressões com introvisão.
(…) Conhecimento é algo diferente de introvisão. O Mestre Linji estava rodeado de pessoas que sabiam muito sobre os ensinamentos do Buda. Eles sabiam os sutras de cor e podiam tagarelar sobre a Senda Óctupla e as Quatro Nobres Verdades. Mas isso não é verdadeira introvisão. Essas idéias misteriosas e muito profundas não têm conteúdo algum se não usarmos para ajudar a quebrar a confusão dentro de nós. Todas essas palavras e teorias são apenas ossos secos, sem uma gota de suco fresco.
O verdadeiro suco, a verdadeira beleza está em nós.”

(Thich Nhat Hahn)

Um comentário em “Mestre Linji sobre os papagaios que ensinam autoconhecimento

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s