A dança do vazio: o controle – 2ª parte

Extraído do livro “A Dança do Vazio”, de Adyashanti

Estudante: O que você quer dizer com imprevisível?

Adyashanti: Na renúncia final do controle – a vontade de controlar -, tudo é imprevisível. É a última coisa que queremos enfrentar porque tudo é totalmente imprevisível. Em outras palavras: tudo é completamente desconhecido.

Estudante: E assim acontece o desapego imprevisível do controle, simplesmente por você estar no desconhecido e é nesse ponto que se dá a abertura. Certo?

Adyashanti: Você pode estar no desconhecido e ainda assim não desapegar. Se estivermos realmente repousando, por pouco que seja, na nossa verdadeira natureza, as formas óbvias de controle não irão funcionar. Se estiverem funcionando significa, então, que não estávamos repousando na nossa verdadeira natureza. Estamos muito longe disso. Se estivermos obviamente tentando controlar a nós mesmos e aos outros, estaremos de volta à terra dos sonhos, de modo total. Entretanto, mesmo se estivermos repousando de maneira muito profunda – é possível, e pela minha experiência com as pessoas, bem provável – que essa mão existencial do controle ainda esteja lá. Ela pode nem sequer ser notada naquele momento, mas está lá em potencial.

Estudante: E com isso existe o medo.

Adyashanti: Esse é o medo da morte. Porque o ato do desapego se dá através da experiência de morte do nosso eu separado, e essa é uma morte muito intensa e profunda. Muito profunda. Claro que é uma morte totalmente ilusória.

Estudante: O ato do desapego acontece quando morremos?

Adyashanti: Não, absolutamente não. Você pode ter a morte física e ainda manter o desejo de controle por mais duzentas mil vidas.

Estudante: Então, o ato do desapego dessa mão existencial é uma coisa física?

Adyashanti: A mão existencial é sentida fisicamente, mas é muito mais profunda do que física. Por exemplo, imagine que você teve uma experiência absolutamente convincente – de acordo com o que você hoje pensa sobre si mesmo – de que você irá sobreviver totalmente quando o seu corpo morrer. Isso não é uma crença, não é uma esperança, não é fé – você apenas sabe disso cem por cento. Será que você teria muito medo se sentisse o seu corpo caindo, morrendo?

Estudante: Não.

Adyashanti: Penso que a maioria dos seres humanos não tem realmente medo da morte física, porque se tivessem a convicção de que eles não morrem, não iriam se preocupar com o corpo agonizante. Do que eles tem medo no ato de morrer não é o fato de que “o meu corpo morre”, mas sim o fato de que “eu morro”.

Estudante: Eu tal como me conheço.

Adyashanti: Sim, “eu” morro. E se pensasse que não iria morrer, não iria me importar se o meu corpo morreu. Mas o fato é que aquele que tem medo da morte é aquele que persiste. O eu tal como me conheço – a minha personalidade – acabou. O eu se foi. Mas é uma morte inteiramente ilusória, porque o eu é apenas uma coleção de pensamentos familiares. Entretanto, se eu estiver identificado com esses pensamentos, isso não irá parecer uma morte ilusória absolutamente, percebe?

Estudante: Então isso acontece ao longo do tempo?

Adyashanti: Isso acontece quando o tempo se esgota. Isso pode acontecer com o tempo. Pode ser muito repentino ou também muito gradual. Só existe uma regra: não existem regras sobre como uma pessoa se revela.

Estudante: Então devemos parar de fazer perguntas?

Adyashanti: Não, isso também não vai funcionar. Isso é excesso de controle.

Estudante: Mas quando você começa a fazer perguntas, você está tentando controlar alguma coisa.

Adyashanti: Sim. Mas se você impede a si mesmo de fazer perguntas, você também está tentando controlar. A melhor coisa que o ser humano pode fazer por si mesmo é usar sempre – de modo total, absoluto e completo – a honestidade consigo próprio, a integridade interna e plena. Se existe uma questão que é muito importante, profunda e verdadeira para você, pergunte. Você entende o que eu quero dizer? É mais importante manter a integridade disso que existe dentro de você do que trair isso com uma ideia. Manter essa integridade é o que conduz as pessoas à verdade de modo completo. Muitas pessoas não vão fazer isso. Todos estão medindo o que existe dentro de si com um conceito que vem do exterior. Se você se apropria do que eu disse nessa noite para querer dizer que todas as perguntas são formas de controle – o que é verdade – e por esse motivo você para de fazer perguntas, isso é inconsistente porque nesse caso você está apenas controlando na direção oposta.

Estudante: Esse questionamento cessa em última análise?

Adyashanti: Sim. Esse é o ponto fundamental. O questionamento cessa quando cessa o questionador. Tudo que o questionador pergunta é uma forma de intensificar o controle.

Estudante: Para se defender?

Adyashanti: Certo. Mesmo quando esta mão controladora pede liberação e rendição, ela ainda está tentando controlar. Ela está dizendo: “Eu quero a rendição agora”. Portanto, a coisa mais importante é a integridade mais profunda de si mesmo. Meu professor dizia algo muito simples, mas muito profundo: “Só os falsos não se iluminam.”

Estudante: Você quer dizer que eles não querem conhecer a verdade?

Adyashanti: Não sei se eles não querem conhecer a verdade. Só sei que muitas pessoas acham que é muito difícil manter uma integridade autêntica consigo mesmas por um período prolongado de tempo. Elas vivem desistindo dessa integridade por todos os motivos, ideias e conceitos. Vivem seguindo os ensinamentos de quatrocentos livros simultaneamente, fazendo qualquer coisa para evitar o que está realmente acontecendo dentro delas. No momento que elas olham para dentro e passam a agir a partir da própria integridade mais profunda, tudo começa a se abrir. Elas podem toneladas de perguntas. Podem de repente não ter pergunta alguma. Não importa. Elas estão agindo a partir do próprio coração e não sacrificaram nada nem ninguém por conta disso. Esse é o lugar onde tudo é de grande poder.

Se você olhar para os seres humanos ao longo da história que são vistos como exemplos de pessoas muito espiritualizadas, iluminadas, há uma coisa que você sempre encontra no âmago desses exemplos: sempre foram pessoas que tiveram honestidade e integridade absolutamente implacáveis consigo mesmas. Exige muito rigor do ser humano fazer isso porque geralmente esbarramos nas nossas próprias inseguranças, medos e dúvidas.

Estudante: Significa que é difícil fazer isso na vida diária?

Adyashanti: Não. Exige rigor. E a vida diária não é realmente nenhum impedimento. As pessoas vão aos templos, mosteiros e ashrams há milênios. Se você olhar para todas as pessoas que fazem isso, quantas pessoas efetivamente se iluminaram? A taxa de sucesso é inconsistente. Mesmo hoje em dia, você pode perguntar a alguém: “Quanto tempo você viveu no ashram no Japão, China, Tibete ou Índia?”

“Fiquei lá por 15 anos.” Sabemos qual é a questão fundamental, se estamos falando de espiritualidade, e não apenas de religião: “Você conseguiu? Você conseguiu o que foi buscar? Eu lembro que há 15 anos você me disse que estava indo para lá para se iluminar. Aconteceu?”

Essa é a questão fundamental, não é? Quando você remove todas as outras coisas que você fez ou que não fez, quando você pergunta à maioria das pessoas se elas encontraram a iluminação, a resposta é sempre: “Não.” Eu não estou dizendo que não é útil para algumas pessoas ir aos mosteiros porque claramente pode ser útil. O que estou dizendo é que exatamente nesse lugar em que por acaso estamos, não importa onde, não importa o que por acaso estejamos fazendo, quando começamos a desapegar dessa vontade de controlar, percebemos que realmente não existe lugar melhor para estar. Nossas desculpas se esgotam.

Você alguma vez esgotou todas as desculpas em relação a alguma coisa na sua vida? Quando suas desculpas se esgotam, de repente você sente que está contra a parede. Nesse momento, você sente que há uma mudança interna fundamental que está sendo exigida. É por isso que a vida de toda pessoa – do jeito que é, se a pessoa simplesmente deixa acontecer e não tenta evitar – é efetivamente o caminho perfeito para o seu próprio desenvolvimento espiritual. Não importa se você está aqui em Palo Alto trabalhando na IBM ou se você é um monge de um monastério em algum lugar. Não importa onde você está e em que situação você se encontra, a questão fundamental ainda está com você. Não importa o que você está fazendo. O que importa é o que você está sendo.

Estudante: Você diz que isso tem a ver com quem eu sou, então o que acontece quando o “eu” cessa, quando você percebe que tudo o que você conhece como “eu” não é, de fato, permanente?

Adyashanti: Acontece que você descobre. Você esbarra nesse belíssimo paradoxo de que não existe absolutamente nenhum “eu” e que o “eu” existe em toda parte e que ambos são verdade simultaneamente. Isso é mais ou menos o que existe para você poder se divertir. Não existe um “eu”. A única coisa que existe é um grande “eu” reluzindo a partir de todas as coisas. Mas isso é só conversa. Também faz parte da integridade nunca estar satisfeito com a verdade de um outro alguém. Você quer conhecer dentro de si mesmo porque essa é a única maneira de você poder conhecer por si próprio. Seja independente e descubra o que você é.

Aqui existe um mistério, inclusive no nível de experiência. Mesmo no início, você pode saborear em meio a esse mistério uma espécie de experiência intuitiva de que não existe nenhum eu separado. Você pode não descobrir quem você é, e apesar disso, obviamente, você está aqui porque existe uma percepção desse nada. Efetivamente você pode experimentar o antegozo dessa percepção desde o início – algo que as pessoas que meditam sentadas em suas almofadas há vinte anos podem não experimentar. Talvez elas estejam perdendo algo muito simples. O gosto da coisa já existe em todas as pessoas. Essa é a coisa mais surpreendente disso tudo. Não é uma coisa distante.

Palo Alto, Califórnia: 8 de agosto de 2002

ADYASHANTI.  Emptiness dancing, pp. 149-161, Sounds True, Inc., Canada: 2006, tradução Roberto Carlos de Paula.  Texto selecionado para estudo em Loja realizado em 20.08.13.