O dinheiro I – Krishnamurti

É estranha a importância que se atribui ao dinheiro. Todos o valorizam, tanto quem o dá como quem o recebe, seja rico e poderoso, seja pobre e miserável. Ou falamos sem cessar do dinheiro, ou por educação evitamos mencioná-lo, sem no entanto perdê-lo de vista.

Dinheiro para as obras sociais, dinheiro para uma festa, dinheiro para a igreja, ou dinheiro simplesmente para comprar arroz. Mas tenha você dinheiro ou não, o sofrimento e a aflição existem.

O valor de uma pessoa é proporcional ao cargo que exerce, aos certificados que acumula, à sua capacidade profissional, à sua eficiência e ao salário que percebe.

E há a inveja do rico e a inveja do pobre, e o espírito de competição motivado pelo desejo de aparecer, de exibir roupas, sabedoria e brilho intelectual. Todo mundo deseja impressionar alguém e, quanto maior a plateia, tanto melhor.

Porém, mais importante que o dinheiro, só o poder. Os dois juntos formam uma dupla perfeita. Ainda que não tenha dinheiro, o sacerdote influi tanto sobre os ricos quanto sobre os pobres.

Os políticos se aproveitam do povo de um país, do sacerdote, dos deuses, de tudo quanto necessário, para vencer e para transmitir aos demais o absurdo da ambição e a brutalidade do poder.

Não há limite para o dinheiro nem para o poder. Quanto mais possuímos, mais queremos possuir e isto não tem fim. Todavia, nem mesmo todo o dinheiro e poder do mundo eliminam o sofrimento. Por mais que você tente escapar dele ou esquecê-lo, ele estará sempre lá, como uma ferida profunda e incurável.

A fuga torna-se então de extrema importância. Mas ela é a essência da superficialidade, mesmo se tiver um aspecto de seriedade. Cabe-nos penetrar até o fundo de nós mesmos, desvendando os mais íntimos recessos de nossa consciência. É necessário perceber, sem criticar ou julgar, o mais leve vestígio ou inclinação do astuto pensamento, todo e qualquer sentimento ou determinada reação.

É o mesmo que seguir a trilha de um rio até sua origem. O próprio rio se encarrega de fazê-lo. Cumpre-nos acompanhar todas as pistas conducentes ao âmago do sofrimento. Para isto, basta observar, ver e ouvir. Precisamos empreender uma longa viagem para dentro de nós mesmos.

Enquanto existir a fuga, seremos incapazes de sentir paixão (*), e sem ela é impossível acabar com o sofrimento.

(*) Krishnamurti se refere à paixão pelo autoconhecimento.