O dinheiro II – Krishnamurti

PERGUNTA: Tenho muito dinheiro. Podeis informar-me qual é a verdadeira utilidade do dinheiro? Só peço que não me aconselheis a desbaratá-lo em esmolas aos pobres. O dinheiro é um instrumento de trabalho que deve ser utilizado e não uma coisa incômoda de que devemos livrar-nos.
KRISHNAMURTI: Senhor, em primeiro lugar, como ganhais dinheiro? Como acumulais dinheiro? Evidentemente pela exploração, pela crueldade, pela barbaridade. No mundo moderno, em que predomina a mentalidade de “cada um por si”, o homem tem de ser hábil, astucioso, desonesto, para acumular dinheiro. Não nos enganemos a esse respeito; ser rico implica crueldade. Senhor, não sabeis que o rico não pode entrar no reino dos céus? É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha. Depois de acumulardes dinheiro, que acontece? Desejais saber como empregá-lo: ou vos tomais filantropo, ou desejais gastá-lo corretamente. Isto é, acumulais dinheiro incorretamente e depois quereis gastá-lo corretamente (Risos). Senhores, o caso não é para rir. É isso que estamos fazendo. Não deveis rir dos ricos. Também vós quereis ser ricos. Vós acumulais e depois quereis saber como empregar o dinheiro corretamente. Como é possível isso?
Suponhamos, contudo, que me tenham deixado dinheiro — o que graças a Deus não aconteceu — suponhamos que me deixaram algum dinheiro. Que vou fazer com ele? Que devo fazer depois de entrar na posse do dinheiro, como devo empregá-lo? Este é o problema. Devo dá-lo todo aos pobres e ficar também pobre, na dependência de outros? Devo guardar um pouco e dar o resto? Devo empregá-lo como um meio correto, para um fim correto? Devo pô-lo a render? Meu problema, pois é este: tendo adquirido ou herdado essa coisa que se chama dinheiro, que devo fazer com ela? Senhor, isso depende do coração e não da mente; a mente que acumulou dinheiro nunca é generosa. É uma mente endurecida, e em tais condições é incapaz de lidar com coisas materiais fora do seu nível próprio. Por conseguinte, só um coração que conhece o amor pode resolver este problema, e não a mente, nem sistema algum. Se tendes amor no coração, sabereis o que fazer com dinheiro — ou dá-lo todo, porque é incômodo, ou proceder de outra maneira, de acordo com os ditames do vosso coração. Todavia, conhecer os ditames de um coração afetuoso, é dificílimo, em particular aos ricos, porque nunca pensaram em tais termos de ação. Habituaram-se à crueldade, à dureza; e encarar o problema com afetuosa consideração é dificílimo. Assim, mais importante do que o dinheiro é o amor; e se tendes dinheiro, mas não tendes amor, ai de vós! Se tendes dinheiro e percebeis que vosso coração está vazio, o problema não é, nesse caso, o dinheiro, mas o de despertar as energias, o perfume, a beleza do coração; e quando os houverdes despertado sabereis corno agir. Sem amor, tornar-se filantropo, meramente, constitui outra forma de exploração. Quando se tem amor, então o amor mostrará o caminho, tanto ao rico como ao pobre. Porque, Senhor, o amor é a única solução; o amor é o único caminho pelo qual poderemos sair desta contradição de ser rico e saber o que fazer com a riqueza. Sem amor, o simples cogitar sobre o que fazer com a riqueza se torna outra forma de fuga de nossa miséria, nossa luta, nosso vazio.

Krishnamurti – 14 de março de 1948 – Do livro: Da Insatisfação à felicidade