Entendimento Correto – O Lugar da Equanimidade
Proferida para uma assembléia de monges e noviços em Wat Pah Nanachat, durante o retiro do período das chuvas em 1978
” … O nosso descontentamento se deve ao entendimento incorreto. Porque não exercemos o autocontrole dos sentidos, colocamos a culpa pelo nosso sofrimento nas coisas externas … O lugar correto para os monges, o lugar da equanimidade, é justamente o próprio Entendimento Correto. Não deveríamos buscar nada além disso … ”
A prática do Dhamma vai em sentido contrário aos nossos hábitos, a verdade vai contra os nossos desejos, por isso existe a dificuldade na prática. Algumas coisas que entendemos como erradas podem estar certas, enquanto que as coisas que tomamos como corretas podem estar erradas. Por que isso? Porque as nossas mentes estão no escuro, não vemos a Verdade com clareza. Nós, na realidade, não sabemos nada e dessa forma somos enganados pelas mentiras das pessoas. Elas apontam o que é certo como sendo errado e nós acreditamos e aquilo que é errado, elas dizem que é certo e nós acreditamos nisso. Essa é a razão porque ainda não somos senhores de nós mesmos. Os nossos humores nos enganam o tempo todo. Não deveríamos tomar essa mente e as suas opiniões como nosso guia, porque ela não conhece a verdade.
Algumas pessoas se recusam a ouvir o que outras têm para dizer, mas esse não é o caminho de uma pessoa provida de sabedoria. Uma pessoa sábia ouve tudo. Alguém que ouça o Dhamma deve ouvi-lo sim, quer goste ou não, e não acreditar cegamente ou desacreditar. Ela deve ficar em um ponto intermediário, no meio, e não ser descuidada. Ela ouve e depois reflete, proporcionando assim, o surgimento de resultados corretos.
Uma pessoa sábia deve refletir e ver a causa e efeito por si mesma antes de acreditar naquilo que ouve. Mesmo que o mestre fale a verdade, não acredite, porque você ainda não conhece a verdade por si mesmo.
É igual para todos nós, incluindo eu mesmo. Eu pratiquei antes de vocês, já vi muitas mentiras. Por exemplo, “Esta prática é realmente muito difícil, muito severa.” Por que essa prática é difícil? É só porque pensamos da forma errada que temos o entendimento incorreto.
Antigamente eu vivia com outros monges, mas não me sentia bem. Escapei para as florestas e montanhas, fugindo da multidão, dos monges e noviços. Pensava que eles não eram como eu, eles não praticavam com a dedicação que eu praticava. Eles eram negligentes. Aquela pessoa era assim, esta pessoa era assim. Isso foi algo que realmente me causou uma grande comoção, foi a razão para a minha contínua fuga.
Mas quer eu vivesse sozinho ou com outras pessoas ainda assim não tinha paz.
Sozinho não estava satisfeito, em um grupo grande não estava satisfeito. Achava que esse descontentamento era devido aos meus companheiros, devido aos meus humores, devido ao lugar onde estava morando, a comida, o clima, devido a isso e aquilo. Estava constantemente buscando algo que satisfizesse a minha mente.
Como um monge dhutanga xxxvi, eu perambulava, mas as coisas ainda não estavam bem. Assim, eu refletia, “O que posso fazer para que tudo esteja bem? O que posso fazer?” Vivendo com muitas pessoas estava insatisfeito, com poucas pessoas estava insatisfeito. Por que razão? Eu simplesmente não conseguia ver. Por que estava insatisfeito? Porque tinha entendimento incorreto, só por isso; porque ainda estava apegado ao Dhamma errado. A qualquer lugar que fosse, estava descontente, pensando, “Aqui não está bem, ali não está bem … ” todo o tempo dessa forma.
Punha a culpa nos outros. Punha a culpa no clima, calor e frio, punha a culpa em tudo! Tal como um cachorro louco. Ele morde tudo o que encontra, porque ele está louco. Quando a mente está assim, a prática nunca se estabiliza. Hoje nos sentimos bem, amanhã mal. É assim o tempo todo. Não alcançamos o contentamento ou a paz.
O Buda certa vez viu um chacal, um cachorro selvagem, correndo pela floresta na qual ele estava. O chacal parou por alguns instantes e depois saiu correndo para dentro de um arbusto e em seguida saiu outra vez. Daí ele correu para dentro de um tronco oco de uma árvore e depois saiu outra vez. Aí ele foi para uma caverna só para sair correndo outra vez. Num instante ele estava em pé, no seguinte ele correu, depois deitou, depois ficou em pé … aquele chacal tinha sarna. Quando estava em pé a sarna se entranhava na pele, por isso ele corria. Correndo ele ainda se sentia incomodado, por isso ele deitava. Então ele ficava em pé de novo, corria para os arbustos, o tronco oco, nunca ficava quieto.
O Buda disse, “Monges, vocês viram aquele chacal esta tarde? Em pé ele estava sofrendo, correndo ele estava sofrendo, sentado ele estava sofrendo, deitado ele estava sofrendo. No arbusto, no tronco oco, ou na caverna ele estava sofrendo.
Ele culpou o estar em pé pelo seu desconforto, ele culpou o estar sentado, ele culpou o correr e o deitar; ele culpou a árvore, o arbusto e a caverna. Na verdade o problema não estava em nenhuma dessas coisas. Aquele chacal tinha sarna. O problema era a sarna.”
Nós monges somos iguais ao chacal. O nosso descontentamento se deve ao entendimento incorreto. Porque não praticamos a contenção dos sentidos colocamos a culpa pelo nosso sofrimento nas coisas exteriores. Quer vivamos em Wat Pah Pong, na América, ou em Londres, ainda assim não estamos satisfeitos. Ir viver em Bung Wai ou qualquer outro dos monastérios afiliados, assim mesmo não estamos satisfeitos. Por que não? Porque ainda temos o entendimento incorreto, apenas isso! Onde quer que estejamos não estaremos satisfeitos.
Mas igual ao chacal, se a sarna for curada, ele estará satisfeito onde quer que vá. Eu reflito sobre isto com freqüência e lhes ensino isto com freqüência, porque é muito importante. Se conhecermos a verdade dos nossos vários humores alcançaremos o contentamento. Quer esteja quente ou frio nós estaremos satisfeitos, com muitas pessoas ou poucas pessoas estaremos satisfeitos. O contentamento não depende de com quantas pessoas estejamos, ele surge somente do entendimento correto. Se tivermos o entendimento correto, então onde quer que estejamos estaremos satisfeitos.
Mas a maioria de nós possui entendimento incorreto. É como um verme! O lugar em que o verme vive é asqueroso, o seu alimento é asqueroso … mas satisfazemos o verme. Se você tomar uma vara e empurrá-lo para longe do seu naco de estrume, ele irá se esforçar para rastejar de volta. É o mesmo quando o Ajaan nos ensina a ver corretamente. Nós resistimos, nos sentimos desconfortáveis. Corremos de volta para o nosso “naco de estrume” porque é ali que nos sentimos em casa. Todos somos assim. Se não enxergarmos as conseqüências negativas de nosso entendimento incorreto, então não o abandonaremos, a prática é difícil. Assim deveríamos ouvir. Não existe nada além disso na prática.
Se tivermos o entendimento correto, para qualquer lugar que formos estaremos satisfeitos. Eu pratiquei e vi isso. Hoje em dia existem muitos monges, noviços e pessoas leigas que me procuram. Se eu ainda não soubesse, se ainda tivesse o entendimento incorreto, já estaria morto! O lugar correto para os monges, o lugar da equanimidade é justamente o entendimento correto. Não deveríamos procurar nada além disso.
Portanto, mesmo que você possa estar infeliz, isso não tem importância, essa infelicidade é incerta. Essa infelicidade é o seu “eu”? Existe nela qualquer substância? Ela é real? Eu não a vejo como real, de maneira nenhuma. A infelicidade é apenas uma sensação que aparece num instante e depois desaparece. A felicidade é igual. Existe consistência na felicidade? Ela é verdadeiramente uma entidade?
É simplesmente uma sensação que relampeja de repente e desaparece. Pronto! Nasce e em seguida morre. O desejo relampeja por um momento e depois desaparece.
Onde está a consistência no desejo, na raiva ou no ressentimento? Na verdade não existe uma entidade com substância, são apenas impressões que se espalham na mente e depois morrem. Elas nos enganam constantemente, não encontramos segurança em nenhum lugar. Tal como disse o Buda, quando a infelicidade surge ela permanece por algum tempo, depois desaparece. Quando a infelicidade desaparece, a felicidade surge e permanece por algum tempo e depois morre. Quando a felicidade desaparece, a infelicidade surge outra vez … continuamente dessa forma.
No final, só podemos dizer isto – exceto pelo surgimento, permanência e cessação do sofrimento, não existe nada mais. Existe só isso. Mas nós que somos ignorantes, corremos e agarramos tudo constantemente. Nunca vemos a verdade das coisas e que existe somente essa contínua mudança. Se entendermos isto, então não precisaremos pensar muito, e teremos muita sabedoria. Se não soubermos isso, então teremos mais pensamento que sabedoria – e talvez nenhuma sabedoria! Até que realmente enxerguemos as conseqüências danosas das nossas ações para que possamos abrir mão delas. Da mesma forma, somente quando virmos os benefícios reais da prática é que nós a seguiremos e começaremos a trabalhar para tornar a mente “boa”.
Se cortarmos um tronco de árvore e o jogarmos num rio e o tronco não afundar ou apodrecer, nem ficar preso nas margens do rio, esse tronco irá com certeza chegar ao mar. A nossa prática é igual. Se praticarmos de acordo com o caminho estabelecido pelo Buda, seguindo-o com rigor, iremos transcender duas coisas.
Quais duas? Exatamente os dois extremos que o Buda disse não ser o caminho do
verdadeiro meditador – entregar-se ao prazer e entregar-se à dor. Essas são as duas margens no rio. Uma das margens do rio é a raiva, a outra a cobiça. Ou você pode dizer que uma margem é a felicidade e a outra a infelicidade. O “tronco” é a mente. À medida que “flui rio abaixo” a mente irá experimentar a felicidade e a infelicidade.
Se a mente não se apegar a essa felicidade ou infelicidade, chegará ao “oceano” de nibbana. Você deve ver que não existe nada além de felicidade e infelicidade surgindo e desaparecendo. Se não “ficar preso” nessas coisas, então estará no caminho de um verdadeiro meditador.
Esse é o ensinamento do Buda. Felicidade, infelicidade, cobiça e raiva simplesmente existem na Natureza de acordo com a invariável lei da natureza. A pessoa sábia não os segue ou estimula, ela não se apega nisso. Essa é a mente que não se entrega ao prazer e não se entrega à dor. É a prática correta. Igual o o tronco de madeira que finalmente irá chegar ao oceano, assim também a mente que não se apega a esses dois extremos irá inevitavelmente alcançar a paz.
Ajaan Chah no livro O Gosto da Liberdade