Escuta interior em SAMATHA e VIPASSANĀ

NADA COMO SUSTENTÁCULO DA TRANQUILIDADE –
SAMATHA

Podemos fazer do som interior um objecto fundamental de atenção, permitindo que preencha todo o espaço do conhecido. Com plena consciência, largamos tudo o mais – as sensações no corpo, os ruídos que ouvimos, os pensamentos que surgem – colocando-os na periferia, nas orlas do nosso foco de interesse.

Em sua substituição, permitimos que o som interior preencha completamente o foco da nossa atenção, o espaço desta consciência, sustentando directamente a consolidação de samatha, a tranquilidade. Podemos usá-lo tal como fazemos com a respiração, para dominar a atenção, e ser um objecto único que ajuda a centrar, estabilizar, a dar firmeza – uma unidade de atenção no presente.

NADA COMO SUSTENTÁCULO DA REALIZAÇÃO – VIPASSANĀ

Se nos focarmos no som interior durante tempo suficiente até se tornar firme e constante, mantendo com facilidade a mente no presente, permitiremos então que o som se desloque lá para o fundo. Desta forma o som é como um ecrã, onde todos os outros sons, sensações físicas, estados de espírito e ideias são projectados – tal como uma tela onde é exibido o filme dos restantes padrões da nossa experiência. E por ser plano, uniforme, é um bom ecrã. Não interfere, nem se confunde com outros objectos que vão surgindo, e, contudo, é tão obviamente presente. É como se fosse uma tela ligeiramente salpicada, ou uma tela especial, na qual é projectado um filme, e por conseguinte, se estiver atento, notará que existe um écran onde a luz é projectada. E tal vem lembrar-lhe que só se trata de um filme – é só uma projecção, não é real.

Podemos simplesmente deixar que o som permaneça nos bastidores, e essa presença, por si só, é um lembrete. Sustenta a memória, “Ah pois é: são apenas sankhāras, formações mentais, que chegam e partem. Todas as formações são insatisfatórias – sabbe sankhārā dukkhā. Se alguma coisa se forma, se é ‘algo’, existe uma qualidade de dukkha na sua impermanência, na sua própria existência como ‘algo’. Por isso não se apeguem, não se enredem, não se identifiquem, não o vejam como vosso, ou quem são, ou o que são. Larguem.”

A presença do som pode, por conseguinte, facilitar a forma como cada sankhāra – seja uma sensação física, um objecto visual, um humor, um estado refinado de felicidade, ou o que for, – seja vista como vazio e sem dono. Tal ajuda a sustentar uma objectividade, uma consciência liberta, uma forma de participação imparcial no presente.

Dá-se o fluir do sentir, o peso do corpo, a sensação das roupas, o fluxo dos humores, o cansaço, a dúvida, a compreensão, a inspiração, o que seja, mas o nada ajuda a suster a objectividade clara por entre os padrões de humores, de sensações e de pensamentos.

Permite que o coração repouse numa condição de consciência plena, sendo essa mesma consciência conhecedora que recebe a corrente da experiência – a que sabe disto, a que se liberta dela, a que reconhece a sua transparência, o seu vazio, a sua falta de substância.

O som interior prossegue nos bastidores, lembrando-nos que tudo é Dhamma, tudo é um atributo da natureza, que vem e vai, que muda, e nada mais que isso. Esta é a verdade, que, quiçá, tenhamos intuído há muito tempo, mas que entretanto esquecemos por nos enredarmos com a nossa personalidade, as nossas memórias, estados de espírito e pensamentos, desconforto do corpo e apetites.

A tensão criada pelo apego às experiências diárias desde o nascimento, vai confundindo, iludindo e enfeitiçando a atenção. Não obstante, podemos usar a presença do som Nada para ajudar a quebrar a ilusão, e terminar com o encantamento, e ajudar-nos a reconhecer a corrente das sensações e dos humores pelo que são: padrões da natureza, chegando e partindo, mudando, actuando à sua maneira. Não são quem, ou o que, nós somos, e nunca nos poderão satisfazer, nem desapontar, se os virmos intuitivamente.

Do livro Escuta Interior de Ajahn Amaro – baixe completo no link https://forestsangha.org/teachings/books/escuta-interior?language=Portugu%C3%AAs