Quando não há eu, as coisas são o que são. Você deixa a vida ser vida

Quando vagarosamente removemos a palavra “eu, meu, a mim”das nossas propriedades, prédios, roupas, sociedade, congregação, país, religião, do nosso corpo, da nossa personalidade, o resultado é libertação, liberdade, Moksha.

Quando não há eu, as coisas são o que são. Você deixa a vida ser vida. Perceba que tudo é passageiro, insatisfatório e vazio de eu.

Paradoxalmente, esta é a fórmula secreta para um deleite contínuo. Jesus percebeu isto. “Quem é minha mãe, meu irmão, minha irmã? Não os tenho”. Existe ali uma mulher, porém minha mãe é um conceito em minha mente. Relacionamentos são uma função, projeção da mente.

Ninguém quer enxergar isto, logo todos são loucos, malucos. Estão vivendo em um mundo por eles criado, dando origem tanto ao sofrimento como às emoções, constantemente procurando um alívio para a confusão que causam. É como se, após um corte, tentassem se punir com a pena de outro corte. Uma confusão sem fim. Não apenas o “isto é meu”cria problemas, como também o “eu sou isto, e aquilo, e aquilo mais”. A identificação com o “eu”pode causar problemas, por exemplo: “Eu sou bom, eu sou mau, eu sou uma pessoa adorável, eu sou impaciente”. A minha combinação é diferente da sua combinação. As suas projeções da minha pessoa não são iguais a mim. As minhas projeções sobre mim também não o são. Quem você diz que eu sou não é quem eu sou. Nem mesmo eu posso exprimir em palavras quem sou.

Se não existe o ego, não há mal. Se os sikhs não tivessem um ego coletivo não teria havido problemas. Se os goans não tivessem um ego coletivo, não teria havido problemas. O mesmo vale para brasileiros, espanhóis, indianos, para quaisquer nacionalidades e religiões. Todas as convenções, rótulos, limites são inventados em nossa mente.

Cinquenta anos atrás, não havia um ego paquistanês; três séculos atrás, ninguém vivia ou morria por algo chamado ego americano. Dez séculos atrás, não havia um ego muçulmano; vinte séculos atrás, não havia um ego cristão. Tais coisas são convenções não inerentes à realidade ou à vida; não foram criadas na Natureza por Deus; são feitas, definidas, escritas advindo da idéia do homem. As coisas são o que são. O ego é uma criação da mente.

Nossas mentes criam rótulos, aplicam-nos a indivíduos, dizendo que a partir daquele instante este ou aquele grupo são grupos separados. Então pedimos às pessoas que ofereçam suas vidas pela defesa dos rótulos que criamos. Damos a esta defesa um título glorioso, algo como: morrer pela fé; na realidade elas morrem por convenções, por conceitos que não existem na realidade. São prometidas a essas pessoas recompensas invisíveis, como por exemplo: se você morrer pela fé, pelo país, por Deus, terá um reino eterno, apesar de não ser real. Os conceitos são sobrepostos e até a recompensa é conceitual.

É um caminho difícil reaprender a viver a realidade, percebê-la com precisão. Poucos são os escolhidos. A mentalidade massificada, o desejo de ser bem-sucedido e a aprovação das promessas do ego são mais sedutoras e frequentemente mais atraentes do que a vida real. Deus nos ajude!

Anthony de Mello em Quebre o Ídolo

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