A gente não enxerga.

Mas a gente não enxerga. O que há de mais leve a gente acha que é pesado. O que é pesado, acha que é leve. O que é errado, acha que é certo. O que é certo, acha que é errado. Eu lhe dou um exemplo, outro dia estava sentado aqui e veio um leigo da província de Amnat Jaroen: “No passado fui monge, me ordenei, depois que deixei a vida monástica, faço mérito o tempo todo.”

Então aquele velho… naquele dia veio de Amnat Jaroen, e me disse: “Eu estou sofrendo muito. Já faz muitos dias e não consigo me livrar. Pensei que somente o senhor conseguiria me trazer a luz, não sei mais para onde ir.”

Ele estava inquieto, via que não estava bem. Veio todo agitado, disse: “É um assunto muito sério, por isso estou sofrendo tanto. Se tem tanto sofrimento é porque não é um assunto pequeno, é muito sério.” Quando disse isso começou a chorar.

Eu disse “Ei, espere um pouco, conte para mim que assunto tão sério é esse.” Então ele chegou mais perto e sussurrou: “Luang Pó… minha esposa morreu.””Hein?” “Minha esposa morreu.” “Humm? Achei que fosse algo sério. Isso é algo pequeno. As pessoas vêm nascendo e morrendo desde sempre. Já viu? Alguma vez já viu alguém nascer e não morrer? Se nasceu tem que morrer. Esse não é um assunto sério, é algo normal para todos. Ainda assim não conseguiu enxergar. Deixou virar um assunto sério a ponto de não conseguir resolver. Parece que nunca viu gente nascer, envelhecer ou morrer. Nasce e morre. Na verdade já foi a funerais, por que não prestou atenção, não refletiu? Por que fez disso um assunto sério a ponto de ficar agitado, não conseguir comer ou dormir?” Eu disse: “Pense de novo, não é um assunto sério. Seu pai ainda está vivo?” “Não, já morreu.” “Pois é, já morreu. Sua mãe já morreu?” “Já morreu.” “O que tem demais nisso? É possível alguém não morrer? Isso é normal. Volte e pense de novo, se pensar que é algo sério, fica sério. É um assunto trivial, normal. O nascer no mundo é assim mesmo. Por isso o Buddha dizia que, tendo nascido, apresse-se em fazer bondade porque é desse jeito.” Estávamos conversando e notei uma mulher sentada ao lado. Perguntei: “Veio com quem?”

(Mulher:) “Com esse que a esposa morreu.”

(Homem:) “Essa é minha outra mulher.”

(Ajahn Chah:) “Como!? Por que várias esposas? Então está bom, tinha duas, uma morreu, sobrou uma. Em geral tem uma só, quando morre fica sem, ainda pior que o seu caso. Morreu uma, sobrou a outra, que tem demais nisso? Vá pensar de novo.” Ele ficou sentado, ouvindo. Esse é o modo de pensar das pessoas que não sabem das coisas. Não têm contentamento. Se não têm contentamento, não sabem envelhecer, se não sabem envelhecer, não sabem adoecer e morrer. Não sabem nascer, envelhecer, adoecer e morrer. Às vezes ensinamos sobre nascer, adoecer e morrer, as pessoas ouvem e ficam incomodadas. Especialmente os ocidentais, se falar sobre velhice para eles ouvirem… não querem envelhecer. Querem permanecer como são. Ouvir sobre velhice, envelhecimento – não querem. Então no ocidente eles jogam fora os idosos. Quando chega aos 50, 60, jogam fora.

Ajahn Chah

Esse texto de Ajahn Chah é um registro de conversas comuns de pessoas que iam em busca de ajuda nos templos. Ajahn Chah está descrevendo essas situações para passar ensinamentos aos monges.

Para saber mais: https://dhammadafloresta.org/tag/ajahn-chah/

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