Da armadilha dos desejos impostos

O capitalismo tem grandes consequências psicológicas. Em meados do século XIX, Karl Marx resumiu esse aspecto com uma frase famosa, declarando que, no capitalismo, “tudo o que é sólido desmancha no ar”. O que ele queria dizer era que, como um todo, as sociedades anteriores tinham sido muito mais estáveis. Talvez fossem mais pobres, mas, em aspectos cruciais, a vida nelas era melhor. Numa cidadezinha, as ruas principais podiam permanecer mais ou menos iguais durante cem anos; às vezes, uma casa de madeira seria substituída por uma de pedra; algumas árvores seriam derrubadas; um novo celeiro, construído; mas, de geração em geração, o padrão de vida seria facilmente reconhecível. Mas, durante o século XIX, a situação começou a mudar drasticamente. Surgiram fábricas imensas; novos e numerosos empreendimentos imobiliários; a ferrovia era capaz de transformar a economia de uma cidade em poucos anos; serviços que não existiam logo se transformaram em grandes setores de atividade; novas classes se tornaram poderosas apenas para serem substituídas por outras. As pessoas começaram a sonhar com a tranquilidade do passado – e não estavam apenas sendo nostálgicas. Em termos mais contemporâneos, o significado do capitalismo na experiência cotidiana é que, de forma quase inevitável, nossa noção de valor como pessoa e nossa noção básica do sentido da vida acabam se entrelaçando com o estado geral de nossa carreira profissional. O indivíduo é perseguido pelo seguinte pensamento: se eu fosse mais inteligente e trabalhasse mais, conseguiria realizar mais, ganharia mais e levaria uma vida mais satisfatória. Essa linha de pensamento é tentadora, porque as recompensas ficam dançando diante dos nossos olhos o tempo todo: a poltrona mais confortável do avião, o lindo projeto novo para a cozinha, os passeios alegres com a família, a sensação de sermos respeitados por nossos pares. Mas essas coisas boas só são possíveis se você se esforçar e for bem-sucedido na competição. Não há nenhuma garantia tranquilizadora que lhe permita relaxar de verdade. A possibilidade de fracasso também está sempre por perto. E a queda será ainda mais amarga e dolorosa, porque a voz meritocrática da economia competitiva transmitirá sua dura mensagem: o resultado depende só de você; se fracassar, a culpa é quase toda sua e será apresentada como um veredito sobre seu caráter.

livro “A Tirania do Mérito: O que aconteceu com o bem comum?”  Michael J. Sandel.

Um comentário em “Da armadilha dos desejos impostos

  1. A medida em que essas coisas nos afetam é a medida em que acreditamos nessas histórias e pensamentos. Em última análise, todas as histórias e pensamentos são falsos, independentemente de onde venham.

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