Wu Wei, o Tao e o viver no presente

O processo de desligar o pensamento é justamente igual a um processo de pensamento. Quem tenta viver o aqui e o agora desta maneira está enganando a si mesmo e gastando energia inutilmente.

Mesmo assim não desanime. Esta coisa, na verdade, é bem fácil – pressupondo a disposição da pessoa. Aqui também não são necessários desempenhos recordes, pois viver no presente sem perder-se em pensamentos não é nenhuma disciplina olímpica. Inclusive no Tao, os empenhos para alcançar algo não são considerados. É bom não ter um objetivo, ser ambicioso, nenhum motivo. O esforço humano, para de alguma maneira, sempre ser melhor do que os outros ou que nós mesmos, no estado presente é ridículo. Acreditamos que toda pessoa na verdade é bem mais do que poderia se tornar um dia.

O estado completo da vida em wu wei é visto no zen-budismo como uma inspiração, uma realização de Buda. A percepção direta e atenta dos acontecimentos imediatos é chamada de “consciência” sem domicílio ou o espírito sem domicílio. Com esta consciência ou espírito a força criadora já foi incluída na vida do praticante. Assim que observarmos alguns segundos atentamente o nosso ambiente e os acontecimentos ao nosso redor entramos em contato com esta energia estranha.

E é essa que modifica nosso cotidiano, nossa vida inteira, se confiarmos plenamente nela.

É como na brincadeira que fazíamos de vez em quando na infância e na juventude: abrem-se os braços, fecham-se os olhos e deixamo-nos cair nos braços de um amigo que está atrás nós.

Esta brincadeira nem é tão fácil, é uma sensação desagradável deixar se cair no incerto, mesmo sabendo que há alguém atrás de nós que nos segurará. A experiência do espírito sem domicílio tem a mesma importância que a capacidade de observar naturalmente, não partindo de nenhum centro interior -simplesmente observar, por exemplo, um passarinho na janela ou o gato do vizinho. Assim que esta observação estiver livre de pensamentos ela será idêntica ao efeito do Tao.

Isto tudo soa estranho e sem lógica. Bem, lógico não é.

Mas será que só está correto aquilo que é lógico? A realidade objetiva de nossa existência é mais paradoxal do que lógica. A lógica é uma muleta que a razão humana arrumou para não se desesperar com as coisas reais. A lógica é compreensível e tudo que conseguimos através dela nos dá segurança, não é?

Permanecer realmente com o espírito no presente, observar atentamente os acontecimentos, registrá-los sem análise, seria o primeiro passo para a realização do Tao na nossa vida. Deixar os acontecimentos seguirem o seu fluxo sem resistir, apenas observá-los, isto é agir na não-ação, isto é wu wei.

Quando você aprender a passar seus dias assim, sua vida será como nos melhores tempos de sua infância: sem preocupações, sem conflitos, esquecendo ontem, não sabendo nada de amanhã, permanecer apenas no hoje repleto de felicidade e serenidade. Isto é arte de viver, isto é viver no espírito Tao. Qual é a distância desta ideia do quadro de sua atual existência sofrida? Ao contrário de todas as outras pregações e afirmações, alcançar a mudança em sua vida, alcançar este estado tão positivo, não é de maneira alguma uma questão de tempo. É apenas uma questão de como você irá proceder para se libertar de imagens com as quais tem afinidade.

O segundo (e único) passo adicional é a necessidade de se libertar interiormente de todos os compromissos, de todo tipo de autoridade, indiferentemente de elas surgirem do exterior ou de sua própria imagem, de padrões de pensamentos enraizados, compromissos religiosos, etc. Este segundo passo pode facilitar muito a vida no presente. A necessidade de libertação de compromissos não significa que você tenha de abrir mão dos prazeres da vida, de propriedades, ou de seu parceiro.

Na verdade, não há um único processo em nossa vida que seja problemático. Nem a espiritualidade, nem a meditação, nem o bem-estar, nem o desejo das comodidades da existência. O problema é o “apego”, como dizem os chineses.


Não são os prazeres da vida que nos afastam do Tao,
porém apenas o compromisso interior com eles.

Por outro lado, seria totalmente inútil a auto tortura neste instante se você dissesse: “Bem, a partir de agora quero estar livre de qualquer apego”, e se você tentasse sugerir para si esta liberdade até conseguir um tipo de sensação de liberdade. Infelizmente, não é tão fácil. Talvez possamos iludir pessoas com tais medidas, mas não podemos enganar o Tao. Tal processo seria muito estafante e não daria certo, pois novamente uma imagem de pensamento foi apenas substituída por outro modelo tão comprometedor quanto o primeiro. Você teria apenas exorcizado o diabo.

Existem caminhos mais fáceis para conhecer a verdade sobre os seus compromissos e engajamentos. Se você observar persistentemente e sem
uma postura interior as suas reações diante dos acontecimentos da vida – isto é, no momento em que ocorrem, você logo perceberá o tipo e a dimensão de seu compromisso. Esta observação já é meditação que não está ligada a nenhuma forma externa e a nenhum ritmo de tempo. Essa meditação sempre ocorre quando os acontecimentos a tornam necessária.

Assim esta forma de meditação permanece sempre viva, nunca cai na rotina ou adormece a mente. Tão logo o reconhecimento de seus diversos compromissos estiver profundamente vivo em você, muito além da compreensão intelectual do seu estado, você constatará que esses compromissos perderão por si mesmo o poder sobre você. Como num passe de mágica os cordões com seus vínculos estarão rompidos.

Naturalmente, tudo isso depende da vontade interior de se libertar de seus diversos apêndices e não procurar secretamente prender-se a um ou outro como anteriormente.


Nesta ruptura de todas ligações e compromissos existe um outro problema: a questão da segurança pessoal. Enquanto você estiver ligado a qualquer tipo de instituição, ideologia ou organização você obtém a segurança por meio dela. Você se sente integrado na sociedade e a sua adaptação à sua ordem e regras de jogo lhe proporciona uma sensação de proteção. Você encontra apoio em seu parceiro, na sua profissão, nos seus costumes cotidianos e habituais. Tudo isto proporciona uma aparente segurança, de que as pessoas necessitam, porém é a única coisa que adoça um pouco a miséria da enorme falta de liberdade interior da humanidade. Sendo esta liberdade absolutamente ilusória, ela é relativa; na verdade, ela existe apenas como imaginação intelectual ou emocional, é um calmante com efeito contínuo.


Porém este efeito contínuo não perdura até a morte. Em algum momento, mais cedo ou mais tarde, todos são obrigados a encarar a verdade de frente. Pois uma construção mental de segurança não existe, e quando a vida nos apresenta desafios sérios e a estrutura de segurança ao nosso redor se desfaz, então ficamos nus como uma concha cujo invólucro desapareceu. A pessoa à qual isto acontece – e acontece diariamente no mundo todo – deve reconhecer que fez uma construção sobre areia.


Sente que perdeu todos os apoios e pontos de orientação. Mas geralmente é neste momento que ela vive uma experiência que a maioria de nós nem consegue interpretar. Se você na vida já passou por uma crise profunda que chegou até aos fundamentos de sua existência, então você lembrará que a mudança para melhor ocorreu justamente naquela fase em que se entregou por estar muito exausto para continuar a lutar. Naquela época você simplesmente experimentou a mão do Tao, pois ela surge com força em nossa vida naquele momento em que tiramos a mão do leme, quando desistimos. Assim esta enorme força estranha pode tornar-se eficaz, e pre
cisamente com uma inteligência que opera muito além do pensamento. Nossos problemas existenciais solucionam-se de uma forma que depende de uma sabedoria tão profunda que a nossa razão não a possui. Aqui você pode perceber como é insensato prender-se a estas seguranças aparentes que o cotidiano nos oferece.

Quem se dedicar à arte de viver do Tao, prescrever a si mesmo a ação intuitiva e entregar-se à segurança da própria autoridade interna, futuramente enxergará a vida e o seu cotidiano com outros olhos. Este comportamento espiritual é a verdadeira segurança, mas, curiosamente, o pensamento em segurança perde a sua grande importância uma vez que aprendemos a deixar nossa vida por conta do fluxo do Tao. Pois o fluxo da vida é idêntico ao Tao, assim como nós também somos idênticos a ele.

A partir do momento em que você perceber isto não será mais necessário lutar e esgotar-se; ocupar-se dia e noite com as suas preocupações e necessidades, e perceberá que sua vida consiste na mistura de poucas alegrias e muitos problemas. Você pode riscar qualquer tipo de objetivo de seu pensamento pois se você seguir atentamente aqui e agora o decurso da vida, este o levará a todo local desejado, a todo objetivo, antes mesmo que você possa imaginá-lo. Sim, é indispensável que você desista de seus motivos, seu próprio esforço, seus desejos de ser algo que ainda não é. Você precisa aprender a não fazer mais nada, a observar e ser atento. Esta é a verdadeira forma da ação inteligente. “Ele” agirá por você melhor do que a sua razão conseguirá.

Uma pessoa que realmente entender esta verdade viverá além de seu meio espiritual. Isso significa, antes de mais nada não estar ligado a nenhuma direção. Assim você poderá, a partir e a retornar ao seu centro. Centro que não deve ser compreendido como um lugar: muito pelo contrário, por mais estranho que soe, tal centro tem dimensões universais cósmicas e não está ligado a um local na altura de seu plexo (entrelaçamento de nervos vegetativos), do seu coração, ou da sua barriga. Uma pessoa que vive além do seu centro, pode estar repleta de muita espiritualidade e sempre entregar-se-á alegre e serenamente a todo tipo de prazer físico. Depois de ter acabado ele volta ao seu centro sem que nenhum sinal deste acontecimento mantenha o seu espírito preso.

Esta é a expressão da verdadeira liberdade. Todas as tentativas de orientar as pessoas unilateralmente, por exemplo, indicando-lhes uma vida religiosa severa, e colocando-lhes todo prazer de vida como pecado e proibindo-os, tornam qualquer pessoa incapaz de viver além do centro. Ela está parcialmente atrofiada. E aqueles que lhe indicaram esta maneira de vida como necessária não são nem um pouco melhores. Neste caso, loucos são orientados por loucos.

Deixe-me resumir o que foi colocado até agora: o Tao não é um caminho, mas é o passo para si próprio e para a própria autoridade interna. Wu wei significa não querer agir por si, mas deixar a ação e a decisão para esta autoridade mencionada. Além da disposição de tirar a mão do leme de nossa vida existe a necessidade de voltarmos a nossa razão cada vez mais para o presente. Na mesma proporção em que nós – ao invés de constantemente circularmos nossos pensamentos pelo passado e pelo futuro – observarmos o nosso cotidiano, lhe darmos total atenção, nossa vida e nossa visão de vida mudarão. Neste caso não se exige nenhuma perfeição olímpica. Aqui vale viver o aqui e o agora, no momento e com segurança. A liberdade de opinião e de qualquer ligação completa o quadro de uma nova forma de vida. Tal liberdade pode ser alcançada por qualquer pessoa desde que se mantenha dentro dos conselhos dados.

Do livro Wu Wei – A Arte De Viver O Tao

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