Quando nos julgamos e nos agredimos verbalmente. Do livro Autocompaixão de Kristin Neff

“Quando nos julgamos e nos agredimos verbalmente, estamos assumindo ambos os papéis, de crítico e criticado. Adotamos ao mesmo tempo a perspectiva de quem segura o chicote e a de quem treme de medo no chão. Conseguimos gerar um sentimento de justa indignação em relação às nossas próprias inadequações, o que faz com que nos sintamos muito bem. “Pelo menos eu sou inteligente o suficiente para ver o tamanho da estupidez do comentário que acabei de fazer”. “Sim, eu tratei aquela pessoa muito mal, foi imperdoável, mas sou tão justo e correto que agora vou me punir sem piedade”. A raiva, muitas vezes, dá uma sensação de força e poder. Por isso, quando nos rebaixamos por causa das nossas falhas durante a raiva, também temos a chance de nos sentirmos superiores nos aspectos que julgamos. Assim, reforçamos o nosso senso de autoridade. Nas palavras de Thomas Hobbes, este é “o privilégio do absurdo, ao qual nenhuma outra criatura viva está sujeita, apenas o homem”. Da mesma forma, quando estabelecemos padrões irreais e ficamos desapontados por não conseguirmos atingi-los, sutilmente reforçamos o nosso sentimento de supremacia por termos esses padrões. Quando reclamamos miseravelmente porque engordamos e temos que usar calças de tamanho 44, por exemplo, ou quando recebemos um pequeno comentário negativo do chefe em uma avaliação ao fim de um ano que foi brilhante, estamos enviando a mensagem de que normalmente estamos muito acima da média. O “bom” não é o suficiente para alguém tão acostumado à excelência. Quando usada com senso de humor, é claro, a autocrítica pode ser uma maneira de cativarmos os outros. “É melhor que eles riam com você, do que de você”, diz o ditado. Um bom exemplo disso pode ser encontrado na cena de abertura de Uma Verdade Inconveniente. Al Gore, ex-candidato a presidente dos EUA, sobe ao palco na frente de um público imenso, com uma tela maior ainda atrás dele, e as primeiras palavras que saem da sua boca são: “Olá, meu nome é Al Gore, e eu ia ser o próximo presidente dos Estados Unidos”. Ao destacar seu fracasso de uma maneira tão alegre, o público passa a comer na sua mão. Mas há uma diferença entre o humor autodepreciativo saudável e a autodepreciação doentia. O primeiro indica que alguém é autoconfiante o suficiente para zombar de si próprio. A segunda revela inseguranças profundas sobre mérito e valor pessoal.”

“A autocrítica é um comportamento submisso, porque faz com que nos humilhemos diante de outras pessoas imaginárias que nos julgam e depois recompensam nossa submissão com migalhas.”

“Sem surpresa alguma, uma pesquisa mostra que indivíduos com pais muito críticos na infância são mais propensos a serem autocríticos quando adultos.”


“Os comentários depreciativos recorrentes dentro de suas cabeças são muitas vezes reflexos das vozes passadas de seus pais, replicadas ao longo de gerações.”


“As pessoas com pais críticos aprendem cedo a mensagem de que são ruins e falham em tudo, como se não tivessem o direito a serem aceitos como são.”


“Se olharmos mais profundamente para a dura autocrítica, vemos que é frequentemente utilizada para encobrir outra coisa: o desejo de controle.”


“Ironicamente, o desejo de ser superior é alimentado pelo processo da autocrítica.”

 

 

 

 

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