Meditação. O Método Básico por Ajaan Brahmavamso

6. O Método Básico
Publicado em livreto pelo Bodhinyana Monastery em 2002

Primeira Parte: Abandone o Passado e o Futuro – Permaneça no Presente

Meditação é o processo para lograr o desapego. Na meditação renunciamos ao complexo mundo exterior para atingir o sereno mundo interior. Em todos os tipos de misticismo e em muitas tradições, esse processo é conhecido como o caminho para a mente pura e poderosa. Experimentar essa mente pura, libertada do mundo, é algo maravilhoso e bem-aventurado.

No começo haverá um certo trabalho duro, mas estejam preparados para suportá-lo, sabendo que isso fará com que vocês experimentem estados muito belos e significativos. Isso valerá o esforço! É uma lei da natureza que sem esforço não há progresso. Quer sejamos leigos ou monges, sem esforço não se alcança nada, na meditação ou em qualquer outra coisa.

Porém, só o esforço não é suficiente. O esforço tem que contar com a habilidade. E isto significa dirigir a energia exatamente para o lugar certo e sustentá-la ali até que a tarefa esteja concluída. O esforço com habilidade não causa dificuldades nem perturbações, ao invés disso, produz a sublime paz da meditação profunda.

Para saber para onde o esforço deve ser dirigido, é preciso ter um claro entendimento do objetivo da meditação. O objetivo desta meditação é o silêncio sublime, a tranqüilidade e a clareza mental. Se esse objetivo for compreendido, então o lugar onde aplicar o esforço, os meios para atingir o objetivo se tornam muito claros.

O esforço é dirigido para o abandono, para desenvolver uma mente que tenha a inclinação pela renúncia. Um dos muitos enunciados simples, porém profundos do Buda, é que “um meditador cuja mente se incline pela renúncia com facilidade alcança samadhi, (o objetivo da meditação)”. Esse meditador conquista os estados de bem-aventurança interior quase que de modo automático. O que o Buda disse é que a principal causa para alcançar a meditação profunda, para alcançar esses estados poderosos, é a disposição pelo abandono, para se soltar de tudo, pelo desapego, pela renúncia.

Na meditação não iremos desenvolver uma mente que acumula coisas e se agarra a elas, mas ao invés disso, desenvolveremos uma mente que está disposta a se soltar das coisas, se soltar dos fardos. Fora da meditação temos que carregar os fardos das nossas muitas responsabilidades, como um sem-número de malas pesadas, mas durante o período de meditação tanta bagagem é desnecessária.

Portanto, durante a meditação tente descarregar tantas malas quantas puder. Pensemos nessas coisas como fardos, cargas pesadas que nos pressionam. Assim, teremos a atitude correta para deixar essas coisas de lado, abandoná-las de modo voluntário, sem olhar para trás.

Esse esforço, essa atitude, esse movimento da mente que se inclina pela renúncia, é o que irá nos conduzir à meditação profunda. Mesmo durante os estágios iniciais veja se você é capaz de gerar a energia da renúncia, a disposição para se soltar das coisas, e pouco a pouco o abandono ocorrerá. À medida que abrimos mão das coisas, iremos nos sentir mais leves, descarregados e livres. No processo de meditação, esse abandono das coisas ocorre em etapas, passo a passo.

Se desejar, poderá percorrer os estágios iniciais rapidamente, mas se assim o fizer, muito cuidado. Pode ser que ao passar demasiado rápido pelos estágios iniciais, você perceba que o trabalho preparatório não foi concluído.

É como querer construir uma casa sobre fundações deficientes. A casa será construída com rapidez, mas também desabará com rapidez! Portanto, é sábio gastar um bom tempo com os fundamentos e no “primeiro piso” também, fazendo com que o trabalho de base seja bem feito, firme e sólido. Assim, ao prosseguir para os andares mais altos, os estados de bem-aventurança na meditação, também serão estáveis e firmes.

No modo como ensino meditação, gosto de começar pelo estágio bem simples de abrir mão da bagagem do passado e do futuro. Você poderá pensar que isso é algo tão fácil de ser feito que é básico demais. No entanto, ao dedicar todo esforço a essa fase, sem sair em disparada para os estágios mais elevados da meditação, até que tenha alcançado adequadamente o primeiro objetivo de sustentar a atenção no momento presente, então mais tarde, descobrirá que conquistou uma fundação muito sólida sobre a qual serão estabelecidos os estágios superiores.

Abandonar o passado significa não pensar nem sequer no trabalho, na família, nos compromissos, nas responsabilidades, na sua história, nos bons e maus momentos da sua infância …, você abandona todas as experiências passadas ao não lhes dar atenção de forma nenhuma.

Você se torna alguém desprovido de história durante o período da meditação. Sem nem mesmo pensar de onde veio, onde nasceu, quem são os seus pais ou que tipo de educação teve. Toda essa história é abandonada na meditação.

Dessa forma, todos se tornam iguais, unicamente meditadores. Deixa de ser importante quantos anos alguém pratica meditação, se é experiente ou principiante.

Se toda essa história é abandonada, então seremos todos iguais e livres. Estamos nos libertando daquelas preocupações, percepções e pensamentos que nos limitam e que nos impedem de desenvolver a paz que tem origem no abandono.

Portanto, finalmente nos soltamos de todas as “partes” da nossa história, até mesmo a história do que ocorreu até agora, mesmo a recordação daquilo que aconteceu a um instante! Assim, não carregamos nenhum fardo do passado para o presente. Não estamos mais interessados e abandonamos o que quer que tenha acabado de acontecer. Não permitimos que o passado ecoe na nossa mente.

Descrevo isto da seguinte forma: fazer da mente uma cela almofadada! Quando qualquer experiência, percepção ou pensamento atinge a parede da “cela almofadada,” não há rebote. Aquilo simplesmente afunda no revestimento almofadado e para exatamente ali mesmo. Assim, não permitimos que o passado ecoe na nossa consciência, porque estamos desenvolvendo a mente que se inclina pelo abandono e pela não resistência.

Algumas pessoas pensam que se tomarem o passado como objeto de contemplação elas poderão de alguma forma aprender algo com isso e solucionar os problemas do passado.

No entanto, devemos entender que sempre que observamos o passado, invariavelmente o vemos através de uma ótica distorcida. O que quer que pensamos ter sido, na verdade não foi exatamente isso! É por isso que as pessoas discutem sobre o que na verdade aconteceu até mesmo depois de passados só alguns momentos.

Os policiais que investigam acidentes de tráfego sabem muito bem que, muito embora um acidente possa ter ocorrido só faz meia hora, duas testemunhas distintas, ambas totalmente honestas, irão apresentar relatos diferentes. Nossa memória não é confiável.

Se você considerar o quão pouco confiável é a memória, então não irá dar muito valor para os pensamentos sobre o passado. E assim poderá se soltar disso. Poderá enterrá-lo, da mesma forma como se enterra uma pessoa que morreu. A colocamos num caixão e depois a enterramos, ou cremamos, e isso está acabado, concluído. Não insista no passado. Não continue a carregar na sua mente os caixões dos momentos mortos! Se fizer isso estará se desencorajando com pesados fardos que na verdade não lhe pertencem. Deixe que todo o passado se vá e você terá a habilidade para estar livre no momento presente.

Quanto ao futuro, as expectativas, temores, planos e esperanças – solte-se disso tudo. O Buda certa vez disse do futuro “o que quer que vocês pensem, assim vai ser, será sempre algo distinto!” O sábio compreende que o futuro é incerto, desconhecido e portanto imprevisível. Com freqüência, antecipar o futuro é uma completa estupidez, e será sempre uma grande perda de tempo pensar no futuro durante a meditação.

Quando trabalhamos com a nossa mente, descobrimos que ela é muito estranha. A mente é capaz de fazer coisas maravilhosas e inesperadas. É muito comum que meditadores que estejam enfrentando dificuldades, que não estejam obtendo muita tranqüilidade, sentar pensando: “Lá vamos nós outra vez, mais uma hora de frustração.” Muito embora eles tenham começado pensando dessa forma, antecipando o fracasso, algo estranho ocorre e eles experimentam uma meditação plena de paz.

Recentemente, ouvi o relato da experiência de alguém no seu primeiro retiro de dez dias. Depois do primeiro dia o seu corpo doía tanto que ele pediu para ir para casa. O mestre disse: “Fique um dia mais e a dor irá sumir, eu prometo.” Assim ele ficou mais um dia, a dor piorou e ele novamente queria ir embora. O mestre repetiu: “Só um dia mais e a dor irá embora.” Ele permaneceu pelo terceiro dia e a dor ficou ainda pior. Em cada um dos nove dias, à noite ele ia até o mestre e, sofrendo com muitas dores, pedia para ir embora e o mestre dizia: “Só mais um dia e a dor irá desaparecer.”

As expectativas dele foram totalmente superadas quando no último dia, ao começar a primeira meditação pela manhã, a dor havia desaparecido! A dor não voltou mais.

Ele foi capaz de sentar por longos períodos sem qualquer dor! Ele ficou surpreso com a maravilha que é a mente e como esta é capaz de produzir resultados tão inesperados.

Portanto, não podemos antecipar o futuro pois este pode ser tão estranho, até mesmo insólito, completamente fora daquilo que pode ser esperado. Experiências como essa proporcionam sabedoria e coragem para abandonar todos os pensamentos sobre o futuro e também todas as expectativas.

Quando você estiver meditando e pensando “Quantos minutos ainda faltam para terminar? Quanto tempo mais tenho de aguentar?” isso será novamente vaguear na direção do futuro. A dor poderá desaparecer num instante. O próximo momento poderá ser totalmente livre. Você não pode antecipar o que irá acontecer. Ao longo da nossa prática meditamos durante muitas sessões, algumas vezes podemos pensar que nenhuma dessas meditações trouxe qualquer benefício. Na próxima sessão de meditação você senta e tudo se torna tão pacífico e confortável.

Você pensa “Uau! Agora posso meditar!”, mas a meditação seguinte é terrível outra vez. O que está acontecendo?

O primeiro mestre de meditação que tive me disse algo que na época soou muito estranho. Ele disse que não existe tal coisa como uma meditação ruim! Ele tinha razão. Todas as meditações que chamamos de ruins, frustrantes e que não atendem às nossas expectativas, todas essas meditações são aquelas nas quais trabalhamos duro para receber o nosso “salário”.

É como uma pessoa que trabalha a segunda-feira toda e ao final do dia não recebe nenhum pagamento. “Para que estou fazendo isso?”, ela pensa. Ela trabalha a terça-feira toda e não ganha nada. Outro dia ruim. A quarta-feira toda, a quinta-feira toda e ainda nada para compensar o trabalho duro. São quatro dias ruins seguidos. Então, chega a sexta-feira, ela faz exatamente o mesmo trabalho que antes e no final do dia o chefe lhe dá um cheque. “Uau! Porque todos os dias não são dia de pagamento?!”

Por que todas meditações não são um “dia de pagamento”? Deu para entender o símile? É nas meditações difíceis que acumulamos os créditos, acumulamos as causas para o êxito. Trabalhando para obter a paz nas meditações difíceis, acumulamos forças, o momentum para a paz. Então quando houver crédito suficiente de boas qualidades a mente irá para uma boa meditação e a sensação será de um “dia de pagamento”. É ao longo das meditações ruins que realizamos o trabalho.

Num retiro recente, durante o período das entrevistas, uma senhora me disse que sentiu raiva de mim durante todo o dia por duas razões distintas. Nas meditações matinais ela estava enfrentando dificuldades e ficava zangada comigo por não tocar o sino para dar um fim à meditação mais cedo.

Nas meditações vespertinas ela logrou um estado belo e pacífico e ficava zangada comigo por ter tocado o sino tão cedo. As sessões foram todas com a mesma duração, exatamente uma hora. Como mestre, não é possível ganhar todas tocando o sino!

Isso é o que acontece quando ficamos antecipando o futuro pensando: “Quantos minutos mais até que soe o sino?” É nisso que você se tortura, agarrando um pesado fardo que não lhe diz respeito. Portanto, cuidado para não pegar a mala pesada de “Quantos minutos faltam para terminar?” ou “O que vou fazer depois?” Se é nisso que você está pensando, então não está prestando atenção naquilo que está acontecendo agora. Você se perdeu e não está meditando.

Neste estágio da meditação, mantenha a sua atenção exatamente no momento presente, ao ponto de não saber nem que dia é hoje ou que hora é – manhã? tarde? não sei! Você sabe qual momento é – agora! Dessa forma você chega nessa bela escala temporal monástica onde você está meditando unicamente no momento presente, sem noção de quantos minutos se passaram ou quantos faltam, sem sequer se lembrar que dia é.

Certa vez, quando era um jovem monge na Tailândia, esqueci em que ano estávamos! É maravilhoso viver nesse reino livre do tempo, um reino mais livre do que o mundo obcecado pelas horas no qual em geral vivemos. No reino livre do tempo, vivenciamos este momento, da mesma forma como todos os sábios vivenciaram esse mesmo momento ao longo de milhares de anos. Sempre foi assim e não de outra forma. Você tem que penetrar na realidade do agora.

A realidade do agora é magnífica e impressionante. Quando tiver abandonado todo o passado e todo o futuro, é como se você revivesse. Você está aqui, com atenção plena. Esse é o primeiro estágio da meditação, nada além dessa atenção plena sustentada unicamente no presente.

Ao chegar até aqui, você realizou muito, abandonou o primeiro fardo que impede a meditação profunda. Portanto, faça um grande esforço para alcançar este primeiro estágio até que ele fique forte, firme e bem estabelecido. Em seguida iremos refinar a atenção no momento presente para o estágio seguinte – a atenção silenciosa no momento presente.

O Método Básico de Meditação – Ajaan Brahmavamso

Fonte do livro: Meditação para Principiantes, Experientes e Avançados – Ajaan Brahmavamso.