Não podemos nos aborrecer, a menos que estejamos fora do presente

Esse mestre Zen, Joko Beck foi uma das melhores surpresas que tive nos últimos meses. Seus ensinamentos são muito claros e o curioso dela é que em todo capítulo ela sempre reafirma nunca ter encontrado ninguém totalmente desperto e muito menos iluminado. É bom termos essa visão da realidade e não se deixar levar por aparentes seres iluminados.

“Somos como o peixe que está nadando de um lado para outro, olhando para o grande oceano da vida, mas inconsciente do que o cerca. Como o peixe, indagamo-nos sobre o sentido da vida, sem percebermos a água à nossa volta e o oceano em que estamos mergulhados. O peixe finalmente encontra um professor que compreende e lhe pergunta: “Qual é o grande oceano?”. E o professor apenas ri. Por quê?

ALUNO: Porque o peixe jã estava no oceano e simplesmente não o havia percebido.

JOKO : Sim. O oceano era sua vida. Separe um peixe da água e não há mais vida para ele. Da mesma forma, se nos separarmos de nossa vida, que se compõe daquilo que vemos, ouvimos, tocamos, aspiramos e assim por diante, teremos perdido o contato com o que somos. Nossa vida é sempre apenas esta vida. Nosso comentário pessoal sobre a vida —todas as opiniões que temos dela —é a causa de nossas dificuldades. Não conseguiríamos nos aborrecer se não estivéssemos deixando de fora a nossa vida. Se não estivéssemos deixando de fora o ouvir, o ver, o sentir sabores, odores, a sensação cinestésica de simplesmente estar sentindo nosso corpo, não conseguiríamos nos aborrecer. Por que é assim?

ALUNO; Porque estamos no presente.

JOKO : Sim. Não podemos nos aborrecer, a menos que nossa mente nos tenha removido do presente e levado para pensamentos irreais. Sempre que estamos contrariados estamos literalmente * ‘de fora”: deixamos algo de fora. Somos como um peixe fora d’água. Quando estamos no presente, plenamente conscientes, não conseguimos ter uma idéia do tipo: “Oh, essa vida é tão difícil. Tão sem sentido!”. Se fazemos isso, deixamos alguma coisa de fora. Só isso! Um bom aluno reconhece quando se distanciou e retorna à vivência imediata. Às vezes apenas balançamos a cabeça e restabelecemos a base de nossa vida, os alicerces da vivência. Desses alicerces brotam pensamentos, ações e uma criatividade perfeitamente adequados. Tudo isso nasce desse espaço da vivência, em que os sentidos simplesmente se encontram abertos.”

Joko Beck em Nada de Especial – Vivendo Zen