Impermanência – Pema Chödrön

Quando soube sobre esse ensinamento pela primeira vez ele me pareceu acadêmico e distante. Mas quando fui encorajada a prestar atenção – ser curiosa sobre o que está ocorrendo com meu corpo e mente – algo mudou. Pude observar por mim mesma que nada é estático. Meus estados de espírito estão constantemente mudando como o clima. Eu definitivamente não estou no controle dos pensamentos e emoções que vão surgindo e nem consigo interromper seu fluxo. Quietude é seguida de movimento, movimento flui de volta a quietude. Até a mais persistente dor física, quando eu presto atenção, muda como a maré.

Sinto gratidão ao Buda por apontar aquilo que lutamos em nossas vidas pode ser visto como uma experiência comum. A vida continuamente vai pra cima e pra baixo. Pessoas e situações são imprevisíveis assim como todo o resto. Todos conhecem a dor de receber o que não desejava: santos, pecadores, vencedores, perdedores. Sinto gratidão por alguém ter visto a verdade e mostrado que não sofremos por esses tipos de dor por causa de alguma falta de habilidade nossa ao tentar fazer as coisas certas.

Que nada é estático e fixo, tudo é passageiro e impermanente, isso é a primeira característica da existência. Essa é a situação normal. Tudo está em processo. Tudo – todas as árvores, cada folha de grama, os animais, insetos, seres humanos, construções, o animado e o inanimado – está mudando momento a momento. Não precisamos ser místicos ou físicos para perceber isso. No entanto, no nível da experiência pessoal, nós resistimos a esse fato. Significa que a vida nem sempre vai sair como desejamos. Significa que existe perdas e ganhos. E não gostamos disso…

Nós sabemos que tudo é impermanente; sabemos que tudo se desgasta. Ainda que possamos compreender isso intelectualmente, emocionalmente temos uma aversão muito enraizada sobre isso. Queremos permanência, esperamos permanência. Nossa tendência natural é buscar por segurança; acreditamos que podemos encontra-la. Nós experimentamos a impermanência todos os dias como frustração. Nós usamos nossas atividades diárias como um escudo contra essa ambiguidade fundamental da nossa situação, gastando tremenda quantidade de energia tentando repelir a impermanência e a morte. Nós não gostamos de ver que nosso corpo muda de forma. Não gostamos de envelhecer. Ficamos assustados com a pel flácida e enrugada.Usamos produtos para a saúde como se acreditássemos que nossa pele, cabelo, nossos olhos ou dentes, pudessem milagrosamente escapar do fato da impermanencia.

Os ensinamentos budistas pretendem que nós nos libertemos dessa forma limitada de relação. Eles nos encorajam e gradualmente relaxar e se entregar de coração a essa verdade óbvia da mudança. Admitir essa verdade não significa que vamos nos voltar ao lado negro. Significa que vamos começar a entender que nós não somos os únicos que conseguem manter tudo isso. Nós não mais acreditamos que existam pessoa que conseguiram evitar o que é incerto.

Tradução livre de Pema Chödrön, The Places That Scare You: A Guide to Fearlessness in Difficult Times