O Budismo tem Razão ou Por que o budismo funciona

Em Portugal o livro Por que o budismo funciona, de Robert Wright tem o nome de O Budismo tem Razão, a meu ver um nome muito mais apropriado para esse livro. O trecho que segue abaixo é de uma edição portuguesa, o meu livro é físico e na versão do Brasil e não estou com tempo para selecionar as partes dele. No entanto o livro vem chamando muito minha atenção, embora não seja o tipo de livro que prefiro, acho que ele vem com uma abordagem interessante demais.

Correndo o risco de dramatizar demasiado a condição humana, já viu o filme Matrix?
É sobre um tipo chamado Neo (representado por Keanu Reeves), que descobre que vive num mundo imaginário. A vida que julgava viver é, na verdade, uma alucinação elaborada. Está sob o efeito dessa alucinação enquanto, sem que tenha noção, o seu corpo físico se encontra numa cápsula, do tamanho de um caixão, cheia de um líquido pegajoso — uma de muitas cápsulas, entre fileiras incontáveis delas, cada uma contendo um ser humano alheado num sonho. Essas pessoas foram colocadas nas cápsulas por mestres robóticos e receberam vidas imaginárias para se entreterem.
No filme, a escolha com que Neo se depara — continuar a viver numa ilusão ou acordar para a realidade — é representada pela famosa cena do «comprimido encarnado». Neo foi contactado por rebeldes, que entraram no seu sonho (ou, para ser rigoroso, foram os avatares dos rebeldes que entraram no sonho).

O seu líder, Morpheus (representado por Laurence Fishburne), explica -lhe a situação: «És um escravo, Neo. Como todos os outros, nasceste em servidão, numa prisão que não podes provar, ver ou tocar — uma prisão para a tua mente.» A prisão chama -se Matrix, mas não há forma de explicar a Neo o que realmente é. A única maneira de ver o contexto total, segundo Morpheus, é «ver por si mesmo». Oferece dois comprimidos a Neo: um encarnado e um azul. Neo pode tomar o azul e voltar ao seu mundo imaginário, ou tomar o encarnado e romper o véu da ilusão. Neo escolhe o comprimido encarnado.
É uma escolha muito explícita: uma vida de ilusão e cativeiro ou uma vida de conhecimento e liberdade. De facto, é uma escolha tão radical, que se parece adequar mesmo a um filme de Hollywood — as escolhas que realmente fazemos quanto ao modo como vivemos são menos cruciais, mais corriqueiras.
Porém, quando o filme estreou, várias pessoas consideraram que representava uma escolha que elas próprias haviam feito.
As pessoas a que me refiro são os chamados «budistas ocidentais», pessoas dos Estados Unidos e de outros países ocidentais que, na sua maioria, não nasceram budistas, mas que a determinado momento adotaram o budismo. Pelo menos, adotaram uma versão do budismo, uma versão que fora expurgada de alguns elementos sobrenaturais típicos do budismo asiático, nomeadamente a crença na reencarnação e em várias divindades. Esse budismo ocidental centra -se numa vertente da prática budista que na Ásia é mais comum entre os monges do que entre os leigos: meditação, a par de uma imersão na filosofia budista. Duas das ideias ocidentais a respeito do budismo — que é ateu e se centra na meditação — estão erradas: a maioria dos budistas asiáticos acredita de facto em deuses, apesar de não se tratar de um Deus criador omnipotente, e não medita.
Esses budistas ocidentais, muito antes de terem visto o filme Matrix, haviam chegado à conclusão de que o mundo como o viam outrora era uma espécie de ilusão — não uma alucinação total, mas uma imagem extremamente deturpada da realidade que, por sua vez, deturpava a sua abordagem à vida, com consequências nefastas para si mesmos e para as pessoas que os rodeavam. Graças à meditação e à filosofia budista, sentiam que viam o mundo de forma mais clara. Para essas pessoas, Matrix parecia uma alegoria adequada para a transição que haviam vivido e, consequentemente, passou a ser conhecido como um «filme darma». A palavra darma tem vários significados, incluindo os ensinamentos de Buda e o caminho que os budistas devem percorrer em resposta a essa doutrina.
Na sequência de Matrix, a afirmação «eu sigo o darma» passou a ser substituída por «eu tomei o comprimido encarnado».
Vi Matrix em 1999, quando estreou, e, poucos meses depois, descobri que tinha uma ligação ao filme. Os realizadores do filme, os gémeos Wachowski, tinham dado três livros a Keanu Reeves para ler como preparação para representar Neo.
Um deles era uma obra que eu escrevera alguns anos antes: O Animal Moral — Porque Somos Como Somos: A Nova Ciência da Psicologia Evolucionista.
Não estou bem certo da relação que os realizadores viram entre o meu livro e Matrix. No entanto, sei qual é a ligação que eu vejo. A psicologia evolutiva (ou evolucionista) pode ser descrita de várias formas, e eis como a havia descrito no meu livro: é o estudo de como o cérebro humano foi estruturado (através da seleção natural) para nos induzir em erro e até para nos escravizar.
Não me interpretem mal: a seleção natural tem as suas virtudes, e prefiro ser criado por ela do que não ser criado, o que, na minha opinião, são as duas opção que o universo concede.
Ser resultado da evolução não é, de modo algum, totalmente uma história de servidão e ilusão. O nosso cérebro evoluído permite -nos muitas capacidades e concede -nos muitas vezes uma visão essencialmente rigorosa da realidade.
Contudo, em última análise, a seleção natural preocupa- se apenas com um único aspeto (talvez eu deva empregar «preocupa -se», entre aspas, uma vez que a seleção natural é apenas um processo cego, não se tratando de um criador consciente). Esse único aspeto é transmitir os genes à geração seguinte. As caraterísticas genéticas que no passado contribuíram para a proliferação genética prosperaram, enquanto as restantes se foram perdendo. As que sobreviveram a este teste incluem caraterísticas mentais — estruturas e algoritmos que são parte integrante do cérebro e moldam a nossa vivência quotidiana. Assim, se perguntarmos «que tipo de perceções, pensamentos e sentimentos nos guiam pela vida no dia a dia?», a resposta ao nível mais elementar não será «o tipo de pensamentos, sentimentos e perceções que nos dão uma imagem fidedigna da realidade». Não. Ao nível mais elementar, a resposta é: «O tipo de pensamentos, sentimentos e perceções que ajudaram os nossos antepassados a transmitirem genes à geração seguinte.» Se esses pensamentos, sentimentos e perceções nos dão de facto uma imagem verdadeira da realidade, é, em rigor, irrelevante. Consequentemente, o resultado é, por vezes, o contrário. Os nossos cérebros estão estruturados para, entre outros aspetos, nos iludir.
Não digo que seja negativo! Alguns dos meus momentos mais felizes resultaram de ilusões — de acreditar, por exemplo, que a Fada dos Dentes me visitaria quando me caísse um dente.
Porém, a ilusão pode também gerar maus momentos. Não me refiro apenas a momentos que, a posteriori, consideramos claramente de delírio, como ter insónias devido a ansiedade. Ou a alturas em que nos sentimos desalentados ou até deprimidos, dias a fio. Ou a acessos de ódio que sentimos para com outras pessoas, que até nos podem saber bem durante algum tempo, mas que nos corroem lentamente o caráter. Ou a acessos de ódio direcionados a nós mesmos. Ou a sentimentos de ganância, uma compulsão de comprar, comer ou beber coisas que transcendem em muito a necessidade de bem -estar.
Apesar de esses sentimentos — ansiedade, desespero, ódio, ganância — não serem ilusórios, na mesma aceção que um pesadelo, se os examinar cuidadosamente verá que possuem elementos de ilusão sem os quais viveria melhor.
Além disso, se pensar que passaria melhor sem eles, imagine como o mundo inteiro passaria. Afinal, sentimentos como o desespero, o ódio ou a ganância podem resultar em guerras e atrocidades. Por conseguinte, e se o que digo é verdade, se estas fontes básicas de sofrimento humano e de crueldade humana são de facto em grande medida produto de ilusões, existe mérito em expor essa ilusão à luz.
Parece lógico, certo? Mas há um problema de que me comecei a aperceber pouco após ter escrito o meu livro sobre psicologia evolutiva: o valor exato de expor uma ilusão à luz depende da qualidade da luz em questão. Por vezes, entender a verdadeira fonte do nosso sofrimento, por si só, não ajuda muito.

Trecho de Por que o budismo funciona, de Robert Wright

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