O VALOR DA REALIDADE – Anthony de Mello

O VALOR DA REALIDADE
Jesus ensina o que é a vida e, por ela, como é o Pai, seu criador. Que colégios conhecemos que utilizem, como texto, o homem, a comunicação, o respeito, e como é a vida, como devemos respeitar nossos filhos e prepará-los para que sejam felizes? Começamos com certos meios para alcançar determinados fins, mas depois nos esquecemos dos fins e ficamos enredados nos meios: no final, acabamos fazendo um fim com os meios. Ou seja, absolutizamos os meios.

A espiritualidade — como a flor — tem de mostrar simbolicamente a realidade, cuidando para que não fiquemos nos símbolos e acabemos matando o Messias. O símbolo não está no que é sagrado — como a flor não é sagrada —, mas o que é sagrado é a realidade que descobre. É o cachorro que balança a cauda, e não podemos nos concentrar na cauda achando que é ela que balança o cachorro.

Deus não se encontra no templo, mas na vida. A oração é feita para que tenhamos cada vez maior consciência de nós mesmos. A religião pode ser de grande ajuda, desde que não a consideremos mais importante do que Jesus Cristo. “Ao ler minha poesia de Deus, não te deixes levar pela idolatria”, diz Tagore. Por causa dessa idolatria, as pessoas continuam crucificando o Messias. Deus é o Mistério.

Quando o homem se torna “religioso”, é capaz de cometer as maiores crueldades para defender um conceito de “verdade”, acreditando que está cumprindo “a vontade de Deus”. O comunista doutrinado fica revoltado quando alguém critica o comunismo. Os religiosos doutrinados também se revoltam quando se critica a religião. Não só acreditam possuir a “verdade”, como se julgam vingadores e justiceiros junto àqueles que não a aceitam. Pensam ser os guardiães de Deus e seus advogados. E devemos reconhecer que é em nome dessa crença fanática que ainda se cometem grandes crueldades nos conventos. Tudo é feito de maneira inconsciente, como se estivessem prestando um serviço a Deus.

É preciso despertar para a realidade de que a religião não existe — e pode causar grandes danos — se nela não estiver a realidade, a vida. Porque só a vida e a realidade podem nos mostrar a verdade.

Paulo também foi inconscientemente cruel, por mero fanatismo, acreditando que prestava um serviço a Deus. Era sua programação que o orientava, e ele punha todo o seu entusiasmo e sua força nas suas ações. Mas foi atingido e despertado pela realidade, que o derrubou do cavalo e lhe deu a luz. É a realidade que tem de nos despertar. Se existe tanta crueldade no mundo é porque nos falta sensibilidade suficiente para despertarmos para a verdade. Temos de cair do cavalo do poder e da violência para dar com a cara no chão da realidade, despertando para a luz da verdade.

Anthony de Mello em Autolibertação

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