A habilidade para ver a composição da raiva

Suponha que a raiva esteja interferindo com a sua concentração. Ao invés de se envolver com a raiva, você tenta simplesmente estar consciente de quando ela está presente e quando não. Você olha para a raiva como um evento em si e por si mesmo – como ela surge, como ela desaparece. Mas você não para por aí. O próximo passo – enquanto você ainda está empenhado em focar na respiração – é o de reconhecer como fazer com que a a raiva desapareça. Algumas vezes, apenas o ato de observá-la é o suficiente para fazer com que ela despareça, outras vezes não e você terá então que lidar com ela de outras formas, tal como debatendo as razões por trás da raiva ou lembrando a si mesmo das desvantagens da raiva. Como parte do processo de lidar com ela, você terá que “por a mão na massa”. Você terá que tentar entender porque a raiva está surgindo, porque ela está desaparecendo, como você pode fazer com que ela saia dali, pois você se dá conta de que ela representa um estado inábil. E isso exige uma certa dose de improvisação. Experimentação. Você tem que tirar o ego e a impaciência da frente para poder ter o espaço para cometer erros e aprender com eles, para que você possa desenvolver a habilidade de lidar com a raiva. Não se trata apenas de odiar a raiva e tentar colocá-la de lado, ou de amá-la e recebê-la de braços abertos. Essas abordagens podem trazer resultados no curto prazo, mas no longo prazo elas não são particularmente hábeis. O requisito neste caso é a habilidade para ver a composição da raiva e como você pode desfazê-la. Uma técnica que gosto de usar – quando a raiva está presente e estou numa situação em que não preciso reagir imediatamente – é simplesmente perguntar a mim mesmo de maneira bem humorada, “Muito bem, porque você está com raiva?” Ouça aquilo que a mente tem a dizer. Então prossiga com o tema: “Mas porque você está com raiva disso?” “Claro que estou com raiva. Pois…” “Bem, mas porque você está com raiva disso?” Se você prosseguir dessa forma, a mente irá eventualmente admitir algo tolo, como por exemplo a suposição de que as pessoas não deveriam se comportar assim – apesar de ser óbvio que elas são assim – ou que as pessoas deveriam agir de acordo com os seus padrões, ou qualquer outra coisa pela qual a mente se sente tão envergonhada que tenta esconder de você. Mas no final, se você continuar sondando, ela irá se revelar. Desta forma, você obterá um profundo entendimento da raiva e isso poderá enfraquecer o poder que ela tem sobre você.

Trecho de O Caminho da Concentração e Atenção Plena Por Ajaan Thanissaro

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