Como Lidar com os Pensamentos

Como Lidar com os Pensamentos

A mente está habituada a um contínuo ininterrupto de pensamentos. Para muitas pessoas é impossível imaginar que a mente possa funcionar sem pensamentos. No entanto, os pensamentos são uma grande fonte de perturbação para os meditadores.

A prática de meditação pressupõem observar a experiência que está ocorrendo no presente momento, porém invariavelmente todos os pensamentos estão conectados com o comentário sobre o que está ocorrendo, ou com algum outro evento do passado ou do futuro, sobre algo que já aconteceu, ou as possibilidades futuras.

A experiência e o pensamento não ocorrem em conjunto no presente momento, mesmo que seja por uma fração de segundo, a experiência já passou para então surgir o pensamento.

Por que pensamos tanto?

Daniel Gilbert, professor de psicologia na Universidade de Harvard, xviii oferece algumas interessantes explicações sobre como e por que pensamos.

Com relação ao passado, ele explica que a nossa memória apenas guarda os aspectos mais relevantes, sendo incapaz de armazenar todos os eventos em seus detalhes.

Mais tarde, quando queremos relembrar um evento, o cérebro remonta a história,fabricando, ao invés de lembrando, a maior parte daquilo que qualificamos como memória.

Esse preenchimento de lacunas ocorre com rapidez e de modo inconsciente.

Informações que sejam adquiridas depois de um evento podem alterar a memória daquele evento.

As experiências mais incomuns são os eventos mais prováveis de serem retidos na memória e isso faz com que acreditemos que esse tipo de eventos são mais comuns do que na verdade são.

Tendemos a relembrar os melhores momentos e os piores momentos, ou seja, as exceções, ao invés das experiências repetidas e rotineiras.

Com relação ao futuro, ele pergunta por que pensamos tanto sobre o futuro? Primeiro, é por que isso nos traz prazer ao imaginar um futuro feliz. Pesquisas indicaram que quando as pessoas acham fácil imaginar um determinado evento, elas superestimam a probabilidade de que aquele evento irá ocorrer, o que leva a uma visão otimista e irrealista com relação ao futuro.

Segundo, por que queremos exercer controle – “fazendo com que as coisas aconteçam” – para de um lado antecipar eventos desagradáveis e por outro, tornar real o futuro feliz que imaginamos.

Pensar sobre o futuro, portanto, é absolutamente irrealista devido à visão distorcida que temos do passado e ao otimismo exagerado com relação ao futuro.

Sob a perspectiva budista pensar, quer seja sobre o passado ou com relação ao futuro, além de ser um hábito profundamente inculcado na mente, está intimamente conectado com a fabricação de um eu. A fabricação do personagem com o qual nos identificamos. “Penso, logo existo” – o pensamento nos convence que aquele personagem fabricado, de fato existe.

Na meditação estamos interessados em conectar as nossas mentes com aquilo que estiver realmente acontecendo, com a experiência do presente momento.

Os pensamentos nos afastam dessa conexão e, por conseguinte, pensar durante a meditação, será completa perda de tempo.

A título de ilustração, Ajaan Brahmvamso descreve alguém que com muito custo conseguiu a reserva para jantar num restaurante recém-inaugurado com muita fama. Veste a sua melhor roupa e vai ao restaurante onde lhe indicam a mesa reservada.

O cardápio é belíssimo, com linda caligrafia e letras douradas com uma capa riquíssima. A pessoa então decide comer o cardápio e pagar a conta ao invés de provar a comida.

Pensar na meditação é igual a comer o cardápio, não sentimos o verdadeiro sabor das experiências.

Para a mente realmente estar conectada com a experiência no presente é necessário então silenciar os pensamentos. Mas isso será possível? E como poderia ser feito?

Durante a meditação os pensamentos ocorrem de duas formas: a primeira é “pensar” os pensamentos e a segunda é “observar” os pensamentos.

No primeiro caso, o meditador é arrastado pelos pensamentos e se afasta por completo do momento presente e da experiência da meditação. Isso ocorre com frequência em quem ainda se encontra nos estágios iniciais da prática.

No segundo caso, o meditador não abandona o presente momento por completo, mas como que simultaneamente observa no background o fluxo de pensamentos que surgem e desaparecem.

Nesse segundo caso é possível que, com algum esforço e insight, o meditador se dê conta que os pensamentos são um obstáculo ao aprofundamento da meditação e, com base nesse insight, gere a volição de abandonar os pensamentos.

A sequência é similar ao processo de insight no despertar: conhecer e ver os pensamentos como eles na verdade são, desencantamento com os pensamentos, desapego dos pensamentos e libertação dos pensamentos (Yatha bhuta ñanadassana, nibbida, viraga, vimutti).

Ayya Khema ensina que rotular os pensamentos empregando a atenção plena, pode ser um meio hábil para conseguir separar o “observador” do processo de pensamento e assim deixar o pensamento de lado. Esse recurso pode ser usado não somente na meditação, mas também na vida diária, permitindo reconhecer os pensamentos que são prejudiciais e substituí-los.

Outro meio hábil é empregar a contagem para acalmar a mente. Com cada inspiração e expiração conta-se um/um, dois/dois, etc. até dez e chegando a dez a contagem deve ser invertida até chegar no um e assim por diante. Vários tipos de contagem podem ser empregados e o importante é manter a mente ocupada com a contagem e os pensamentos afastados. Se um pensamento intervier e a contagem for perdida (o que acontecerá com frequência), então a contagem deve ser recomeçada do princípio. A contagem deve ser abandonada quando a mente estiver mais calma e pode ser retomada se a mente ficar novamente muito agitada.

Aqueles que têm uma inclinação natural pela visualização, podem empregar como recurso a visualização de ondas do mar que vêm com a inspiração e que vão com a expiração. Isso poderá acalmar a mente e dissipar os pensamentos.

Um outro recurso, tendo um pouco mais de experiência na meditação e com o aprimoramento da atenção plena, o meditador poderá começar a experimentar o que significa a mente silenciosa ao estar atento para o intervalo entre um pensamento e outro. Aumentando gradualmente esse intervalo fará com que a mente se acostume a esse estado que, a princípio, pode parecer bastante inusitado.

Ajaan Brahmavamso ensina um meio hábil para silenciar a mente através do emprego de um mantra. Como, por exemplo, Bu-da, ou Om-mani-padme-hum, ou paz-amor, ou qualquer outro que a pessoa tenha preferência. Cada sílaba do mantra é recitada mentalmente com um intervalo. Nesse intervalo a mente estará em silêncio, livre de pensamentos. O intervalo será determinado de acordo com o grau de agitação da mente. Se a mente estiver muito agitada o intervalo deverá ser reduzido. Se a mente estiver mais calma, aumentar o intervalo entre as sílabas até que o silêncio prevaleça e o mantra poderá ser dispensado.

Os pensamentos não deixam de ser um tipo de prazer dos sentidos, nesse caso o sentido da mente.

Tal como foi mencionado antes, a maneira de lidar com os prazeres dos sentidos é primeiro desenvolver o entendimento correto da gratificação, dos perigos e a escapatória dos pensamentos.

Depois desenvolver um relacionamento adequado com a meditação, que estimule o contentamento e a satisfação, pois a mente que está satisfeita e que sente prazer com a meditação, estará menos inclinada a buscar a satisfação nos pensamentos.

A satisfação e o contentamento com a meditação farão com que os pensamentos possam ser abandonados com mais facilidade.

Para finalizar, há, no entanto, algumas situações em que os pensamentos podem ser benéficos na meditação. Numa mente pacificada e silenciosa, pensamentos pontuais podem ser empregados para direcionar a mente para aprofundar a calma e tranquilidade. Por exemplo, pensar “estou feliz por estar aqui” ou “não me pertence” ou “confio no Buda” podem respectivamente contrapor os obstáculos do desejo e má-vontade, sensações desprazerosas, a dúvida e o medo.

O livro completo e gratuito você pode acessar aqui: https://www.acessoaoinsight.net/livros/Saude_Meditacao.pdf

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