…um homem que chega ao fim do caminho (que, então, «apagou» o mundo) é conhecido como arhat ou arahat, termo que Alexandra David-Néel traduziu como «iluminado». O arhat descobriu, tal como Sāriputta, um lugar improvável onde não há nem sol nem lua, nem idas nem vindas, nem aparecimento nem desaparecimento, mas que não é a morte nem o nada. À imagem de Buda, ele adquiriu «o conhecimento do fim». Ao examinar o caminho percorrido, esse iluminado pode pronunciar, com conhecimento de causa, a fórmula canônica que consolida o fim da viagem: «Rematado foi o nascimento, rematada foi a vida nobre. O que deveria ter sido realizado o foi. O mundo chegou a seu termo». Este mundo, que se impõe a nós, homens comuns, como uma evidência, que nos cai como uma luva, que nos parece evidente, tal como o rio é evidente para as pás do moinho – e que nos faz girar como elas –, não é autoevidente. O mundo está por um fio. Esse fio pode se romper. A roda pode parar. Há um fim. Os homens ponderados, versados em política e economia, na construção de máquinas e pontes, que se empenham de mil maneiras, por mil boas razões – como, por exemplo, para as empresas funcionarem, para encontrar novas margens de competitividade, para acumular bônus e opções de compra de ações –, não entenderão isso dessa maneira. Eles acreditarão justamente no contrário: que eles estão em contenda com a realidade, bem no meio dela. E, como eles constituem a imensa maioria de nossos concidadãos, se você exprime a opinião oposta, dizendo que eles estão num sonho (ou pesadelo), você é rejeitado e completamente marginalizado, de forma quase esquizofrênica, e aprende a se calar ou a não falar em voz alta, e certamente não com arrogância, e é melhor assim. É preciso se afastar e ter tempo e imaginação para considerar que este mundo que vem até nós, e até o qual nós vamos, por meio de mil contatos, com um «eu» dividido entre dois, hesitante entre fluxo e refluxo, atormentado, sobrecarregado por mil sensações, percepções e pensamentos, não passa de uma montagem, ou antes, para retomar uma expressão técnica do budismo, de um turbilhão de «agregados» (khandhas), desprovidos de realidade própria.
Do livro As coisas como elas são. Uma iniciação ao budismo comum de Hervé Clerc