No Aṅguttara nikāya: «Todos os estados nocivos têm a mente como elemento precursor. A mente é o primeiro dentre eles. Todos os estados benéficos têm a mente como elemento precursor. A mente é o primeiro dentre eles». Se a mente vem em primeiro lugar, é de extrema importância cuidar dela, cultivá-la, retificá-la «como o artesão afia a flecha». Para esse trabalho, nós agimos no que nos é menos próximo, isto é, nas «condições externas» da nossa vida, ou ditas externas. Se esse ensinamento é verdadeiro, deve haver logicamente uma íntima correlação entre nossas feridas e aquelas que infligimos ao mundo que nos cerca. A cura de nossa mente – objetivo da prática budista – poderia então contribuir para a melhoria da vida, para a saída da «crise», certamente de maneira ínfima, mas tangível, e é possível verificar sua eficácia imediata nas nossas relações com nossos entes queridos e com nós mesmos. Seguramente podemos agir pela outra extremidade e tentar mudar a sociedade com a esperança, mais ou menos reconhecida, de mudarmos a nós mesmos. Há muito exemplos disso ainda acesos em nossas memórias. A execução de tal projeto é perigosa. Expomos os outros à aventura. Acreditamos ter percorrido um longo caminho, até que, certo dia, percebemos amargamente que não avançamos nem um milímetro: pusemos a carroça na frente dos bois. O budismo substitui o plano de Descartes – «tornar-se senhor e possuidor da natureza» –, cujos efeitos estamos apenas começando a medir, pelo seguinte: tornar-se senhor e possuidor de sua própria mente. E ele nos mostra como se faz isso.
Do livro As coisas como elas são – Hervé Clerc