Sorria para o medo – o despertar do autêntico coração da coragem

sorria para o medo - Chogyam TrungpaChögyam Trungpa em seu Sorria para o Medo nos fala sobre o medo usando a metáfora do guerreiro, falando de coragem, alienação de si mesmo e do mundo, de mindfulness aplicada no cotidiano e de meditação para conseguir reunir de volta a mente e o coração ou mente e corpo como ele diz. Chögyam Trungpa escreve de forma magistral, é um verdadeiro escultor com as palavras e consegue em um livro pequeno passar um conhecimento e sabedoria de milhares de anos.

É o tipo de livro para ler e reler sempre.

Alguns trechos:

  • Medo é nervosismo; medo é ansiedade; medo é um sentimento de inadequação, uma sensação de que talvez não sejamos de modo algum capazes de lidar com os desafios da vida cotidiana. Sentimos que a vida é incontrolável. As pessoas podem fazer uso de tranquilizantes ou da ioga para eliminar seus medos: elas tentam apenas levar a vida. Às vezes, dão um tempo no Starbucks ou no shopping. Nós temos todos os tipos de truques e dispositivos, os quais utilizamos com a esperança de conseguir vivenciar a coragem simplesmente liberando nossas mentes de nossos medos. De onde vem o medo? Vem de uma perplexidade primordial. De onde vem a perplexidade primordial? Vem de nossa incapacidade de harmonizar ou sincronizar mente e corpo.

 

  • Um dos maiores obstáculos à coragem são os padrões habituais que nos levam a nos enganarmos. Normalmente, não nos permitimos uma vivência plena de nós mesmos. Em outras palavras, temos medo de olhar para nós mesmos. Vivenciar a parte mais íntima da própria existência é constrangedor para muitas pessoas. Muitos tentam encontrar um caminho espiritual no qual não precisem olhar para si mesmos, mas onde possam no entanto libertar-se — na verdade, uma autolibertação de si mesmos. Isso é de fato impossível. Não podemos fazer uma coisa dessas. Temos que ser honestos conosco. Temos que ver nossas entranhas, nossa merda mesmo, nossas partes mais indesejáveis. Temos que ver isso. Essa é a base da condição de guerreiro e o ponto de partida para se dominar o medo. Temos que encarar nosso medo; temos que observá-lo, estudá-lo, interagir e praticar a meditação com ele. Também precisamos abandonar a noção de um salvador divino, o que não tem nada a ver com qualquer religião que tenhamos, mas refere-se à ideia de alguém ou algo que irá nos salvar sem que precisemos passar por qualquer sofrimento. Na verdade, o abandono dessa falsa esperança é o primeiro passo. Temos que contar com nós mesmos. Precisamos ser pessoas de verdade. Não adianta ficar se iludindo, esperando pelo melhor. Se você está mesmo interessado em se trabalhar, não pode permitir esse tipo de vida dupla, adotando ideias, técnicas e conceitos de todos os tipos, simplesmente para fugir de você mesmo. Isto é o que chamamos materialismo espiritual: a esperança de que você possa ter um bom sono, sob o efeito de sedativos, e que, ao acordar, tudo estará resolvido. Tudo estará curado. Assim, você não terá que passar por qualquer sofrimento ou problema.

 

  • Para mitigar a tristeza e o vazio que sentem, as pessoas buscam algum tipo de diversão. Esse mundo do entretenimento é projetado para ajudar você a esquecer quem você é e onde você está. A versão de divertimento do sol-ponente é a de esquecer sua tristeza amável e, em vez disso, torná-lo agressivo e “feliz”. No entanto, o que você está experimentando não é nem felicidade nem divertimento reais. Essa noção perversa de felicidade é baseada no esquecimento de que você existe, esquecimento de que sua mente e seu corpo poderiam algum dia estar sincronizados. Essa noção de felicidade é baseada em uma total separação de corpo e mente.

 

  • Quando ficamos ressentidos, transportamo-nos para outro lugar, porque estamos preocupados com outra coisa. Ser um guerreiro é estar simplesmente aqui sem distração nem preocupação. E quando estamos aqui, ficamos alegres. Podemos sorrir para nosso medo. Assim, a coragem não é o simples resultado de superar ou dominar o medo. Para o guerreiro, a coragem é um estado de ser positivo. É pleno de prazer, alegria e brilho nos olhos. Mahatma Gandhi foi um exemplo de alguém que encarnou essa virtude e coragem. Gandhi estava totalmente comprometido a ajudar a Índia a tornar-se uma nação independente. Ele aceitou todos os obstáculos, todos os problemas, e utilizou todos os meios possíveis para conquistar a independência sem violência. Em nossa própria vida, é possível aplicar uma versão em grau menor desse tipo de coragem. Podemos ser destemidos e autênticos, amáveis e ousados. Mas para isso, temos que manter o senso de humor, sempre. Cada vez que houver dúvida, haverá um novo degrau em sua escada. A dúvida está lhe dizendo que você precisa subir outro degrau. Cada vez que houver um obstáculo, você sobe mais um degrau, indo além, passo a passo.

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