A PRÁTICA DA OBSERVAÇÃO SEM ESCOLHAS DOS PENSAMENTOS E DAS EMOÇÕES

A PRÁTICA DA OBSERVAÇÃO SEM ESCOLHAS DOS PENSAMENTOS E DAS EMOÇÕES

1. Uma mente torturada, frustrada, moldada pelo que a rodeia, que se conforma à moral social estabelecida é, em si própria, confusa; e uma mente confusa não pode descobrir o que é a Verdade. Para a mente descobrir esse estranho mistério — se tal coisa existe — ela precisa de construir as bases de uma conduta moral, o que não tem nada a ver com a moralidade social, uma conduta sem medos e, portanto, livre. Só então — depois de lançada esta base profunda — a mente poderá prosseguir no sentido de descobrir o que é meditação, essa qualidade de silêncio, de observação, no qual o “observador” não existe. Se esta base de conduta correta não está presente na existência de cada um, na sua ação, então a meditação tem muito pouco significado.(1)

2. Para meditar, no sentido mais profundo da palavra, temos de ser íntegros, morais. Não se trata da moralidade de um padrão, de uma prática, ou da ordem social, mas sim da moralidade que brota naturalmente, inevitavelmente, suavemente, quando começamos a compreender-nos a nós próprios, quando estamos atentos aos nossos pensamentos e sentimentos, às nossas atividades, desejos, ambições, etc. — atentos sem qualquer escolha, observando apenas. Dessa observação nasce a ação correta, que não tem nada a ver com conformismo ou com uma ação de acordo com um ideal. Então, quando isso existe profundamente em nós, com a sua beleza e austeridade na qual não há nenhuma rigidez —rigidez só existe quando há esforço — quando tivermos observado todos os sistemas, todos os métodos, todas as promessas e olhado para eles objetivamente, sem gostar ou não-gostar, então podemos recusar tudo isso completamente, para que a mente fique liberta do passado; então podemos prosseguir na descoberta do que é meditação.

3. A meditação exige a mais alta disciplina rigidez — não a da repressão e do conformismo rigidez — mas a que surge quando observamos o nosso pensamento. Essa mesma observação tem a sua própria disciplina, de uma subtileza extraordinária… E podemos fazê-lo em qualquer altura. Quando se está sentado no carro, pode-se observar, estar atento a tudo, ao que está acontecendo à nossa volta e ao que está acontecendo em nós mesmos rigidez — estar consciente de todo o processo, do movimento total.

4. Meditação é o perceber total de cada movimento do pensamento, e jamais negação dele; quer dizer, é deixar cada pensamento “florescer” livremente: pois só em liberdade pode o pensamento “florescer” e terminar. Assim, com esse trabalho (se isso se pode chamar “trabalho”) ou, melhor, com essa observação, a mente tudo compreende. Está então quieta, sabe o que realmente significa “estar quieta”, estar verdadeiramente tranquila. E, nessa tranquilidade, existem várias outras formas de movimento que, para quem nunca refletiu a esse respeito, só verbalmente se podem descrever.

5. Uma revolução em toda a psique do homem não é realizável por meio da vontade, que é desejo, determinação, por meio de um plano de vida conducente à paz. Ela só é possível quando o cérebro pode estar quieto e ao mesmo tempo ativo, para observar sem criar imagens de acordo com sua experiência, conhecimentos e prazer. A paz é essencial, porque só na paz pode o indivíduo florescer em bondade e beleza. Essa possibilidade só existe quando somos capazes de escutar o todo da existência, com todas as suas agitações, aflições, confusão e angústias — escutá-lo, simplesmente, sem nenhum desejo de alterá-lo. O próprio ato de escutar é a ação que operará a revolução.

6. O autoconhecimento não pode ser aprendido de outrem. Eu não posso lhes dizer o que ele é. Mas pode-se ver como a mente opera, não apenas a mente que está ativa todos os dias, porém a totalidade da mente — a mente consciente e a mente oculta. Todas as numerosas camadas da mente têm de ser percebidas, investigadas, mas não pela introspeção. A autoanálise não revela a totalidade da mente, porque há sempre a separação entre o analista e a coisa analisada. Mas se puderem observar as operações da sua mente, sem tendência para julgar, avaliar, sem condenação ou comparação — observar, simplesmente, como se observa uma estrela, desapaixonadamente, tranquilamente, sem ansiedade — observarão então que o autoconhecimento não depende do tempo, não é processo de penetração do inconsciente com o fim de remover todos os “motivos” ou de compreender os vários impulsos e compulsões. O que cria o tempo é a comparação, não resta dúvida; e porque nossa mente é resultado do tempo, só pode pensar em termos de mais — sendo isso o que chamamos progresso.

7. A neurose oferece uma extraordinária impressão de segurança. O homem que crê é neurótico, e neurótico é também o que adora uma imagem. Nestas neuroses encontra-se muita segurança. E a segurança não faz operar-se uma radical revolução em nós mesmos. Para realizá-la, cumpre observar sem escolha, sem nenhuma deformação causada pelo desejo, pelo prazer ou pelo medo. Temos de observar o que realmente somos, sem nenhuma espécie de fuga. E não nomeiem ao que veem: Observem-no, apenas! Terão então a paixão, a energia necessária ao observar, e nesse observar verifica-se uma extraordinária transformação.

8. O autoconhecimento brota quando vocês observam e compreendem todos os seus sentimentos e pensamentos, momento por momento, dia a dia. A totalidade dessa compreensão resolverá os problemas da vida.

9. Agora por onde começar o entendimento de nós mesmos? Aqui estou eu, e como fazer para estudar a mim mesmo, me observar, ver o que está acontecendo de fato dentro de mim? Eu só posso me observar no relacionamento porque toda a vida é relação. Não tem nenhum sentido sentar-me em um canto e meditar sobre mim mesmo. Eu não posso existir sozinho. Eu só existo em relação com as pessoas, coisas e ideias, e estudando meu relacionamento com as coisas e as pessoas externas, bem como com as coisas internas, eu começo a me conhecer. Toda outra forma de conhecer-me é somente uma abstração e eu não posso me estudar em uma abstração; Eu não sou uma entidade abstrata; portanto eu tenho que me estudar na realidade — como eu sou, não como gostaria de ser. Eu só posso me observar no relacionamento.

Para deixar um pensamento ou perceção florescer é necessária atenção — não concentração. Quero dizer que o florescimento de um pensamento dá a liberdade para ver o que acontece, o que está acontecendo no seu pensamento, na sua perceção. Qualquer coisa para florescer tem que ter liberdade, tem que ter luz, não pode ser restringida. Você não pode atribuir valores a isso, não se pode dizer, “Isso é certo, isso é errado, isto deve ser, e isso não deve ser” — assim, você limita o florescimento do pensamento. Então, se você for muito profundamente nisto, você verá que o florescer do pensamento é o cessar do pensamento… Na conscientização não existe nenhum vir a ser, não há nenhum objetivo a ser alcançado. Existe a observação silenciosa sem escolha e condenação, e é daí que surge a compreensão. Neste processo quando pensamento e a perceção desdobrar-se, o que só é possível quando não existe nem aquisição nem aceitação, então surge à conscientização ampla de todas as camadas ocultas e sua importância é revelada. Esta conscientização revela o vazio criativo que não pode ser imaginado nem pode ser formulado. Esta ampla e criativa conscientização e a vacuidade é um processo único global, não são diferentes fases. Quando você silenciosamente observa um problema sem condenação e justificação, surge a consciência serena. Nesta passiva conscientização, todo problema é compreendido e dissolvido. Na conscientização há aumento de sensibilidade em que existe a mais alta forma de pensar negativo. Quando a mente está formulando e produzindo não pode haver nenhuma criação. É só quando a mente está vazia, quando não cria um problema — nessa serena atenção existe criação. A criação só pode acontecer na negação, o que não é o contrário da positivação. Ser nada não é o oposto de ser algo. O problema vem à existência apenas quando há procura de resultado. Quando a procura de resultado cessa, só então não há mais problema nenhum.

Não sei se vocês têm observado que uma grande parte do intelecto interfere em nossa vida. Os jornais, as revistas, tudo atua sobre nós nos cultivando a razão. Não que eu seja contra a razão. Pelo contrário, é preciso ter a capacidade de raciocinar precisamente de forma muito clara. Mas, se você observar você verá que o intelecto está perpetuamente analisando, por que é que uma pessoa deve ou não pertencer a algo, por que é preciso ser o desconhecido para achar realidade, e outras coisas mais. Temos aprendido o processo de análise de nós mesmos. Portanto, existe o intelecto com a sua capacidade para investigar, de analisar, de raciocinar e chegar a conclusões, e há a perceção, perceção pura, que está sempre sendo interrompida, colorida pelo intelecto. E quando o intelecto interfere na perceção pura, esta interferência faz com que se desenvolva uma mente medíocre. De um lado, temos intelecto, com a sua capacidade de raciocinar com base em seu gostar e não gostar, de acordo com o seu condicionamento, em função de sua experiência e conhecimentos, e do por outro lado, temos a perceção, que é corrompida pela sociedade, pelo medo. E estes dois revelarão o que é a verdade? Ou existe apenas o discernimento, e nada mais?… Não sei se você tem considerado a natureza do intelecto. O intelecto e as suas atividades estão sempre no mesmo nível, não? Mas, quando o intelecto interfere na perceção pura, acontece a mediocridade. Conhecer a função do intelecto, e ser consciente desta perceção pura, sem deixar os dois misturados se destruírem um ao outro, requer uma consciência muito clara e nítida. Assim, a função do intelecto sempre, não é, investigar, analisar, procurar exteriormente, mas, por querermos estar seguros interiormente, psicologicamente, por estarmos receosos, ansiosos na vida, chegamos a algum tipo de conclusão com que já estávamos comprometidos. De um compromisso avançamos para outro, e eu digo que essa mente, tal intelecto sendo escravizada a uma conclusão, cessou de pensar, de investigar.

Compreender o “eu” requer muitíssima inteligência, um estado de intensa vigilância, de alerta, de agudez mental, uma incessante observação para que o “eu” não possa escapulir-se. Como sou muito sério, quero dissolver o “eu”. Quando digo isso, entendo que é possível dissolver o “eu”. Por favor, seja paciente. Prontamente digo: “Quero dissolver este “eu”, e no processo que sigo para dissolvê-lo, intervém a experimentação do “eu”; em consequência, o “eu” se fortalece. Como é possível, então, que o “eu” não experimente? Pode-se ver que a criação não é em absoluto uma experiência do “eu”. A criação tem lugar quando o “eu” está ausente, porque a criação não é um fato intelectual, não pertence a mente, não é autoprojetada; é algo que está mais além de toda experimentação tal como a conhecemos. Pode estar a mente completamente quieta, num estado de não reconhecimento, ou seja, de não experimentação, um estado em que a criação possa ter lugar? Quer dizer, quando o “eu” não está ai, quando se acha ausente… Qualquer movimento da mente, positivo ou negativo, é uma experiência que de fato fortalece o “eu”. Pode a mente não reconhecer? Isso pode ocorrer somente quando há completo silêncio, porém, não o silêncio que é uma experiência do “eu” e que, portanto, o fortalece.

Quando não existe nenhum observador que sofre, o sofrimento é diferente de você? Você é o sofrimento, não é? Você não está além da dor — você é a dor. O que acontece? Não há nenhuma identificação, nenhum dá nome e assim separando de você toda essa perceção dolorida — você é simplesmente essa dor, essa perceção, essa sensação de agonia. Quando você é isso, o que acontece? Quando você não o nomeia, quando não existe nenhum medo com relação a isso, o centro está relacionado com isso? Se o centro está relacionado com isso, então ele tem medo disso. Então deve agir e deve fazer algo em relação a isso. Mas se o centro é isso, então o que você faz? Nada há a ser feito, há? Se você é isso e você não está aceitando, não está se identificando, nem está pondo isso de lado — se você é isso, o que acontece? Então você diz que você sofre? Seguramente, aconteceu uma transformação fundamental. Então já não há mais um “eu sofro”, porque não há nenhum centro para sofrer e o centro sofre porque nós nunca examinamos “o que é” o centro. Acabamos de viver isso palavra por palavra, de reação a reação.

10. Podemos nos tornar mais refinados, subtis, detalhistas, mudar nossos prazeres, mas no centro de tudo isso, existe o “eu” — o “eu”, que está desfrutando, e que quer mais felicidade, o “eu”, que procura, anseia ardentemente a felicidade, o “eu”, que luta, o “eu”, que se torna mais e mais refinado, que nunca quer chegar a um fim. É apenas quando o “eu”, em todas as formas subtis chega ao fim de que existe um estado de êxtase, que depois não pode ser procurado, um êxtase, uma verdadeira alegria, sem dor, sem corrupção… Quando a mente vai além do pensamento, do “eu”, do experimentador, do observador, do pensador, então existe a possibilidade de uma felicidade que é incorruptível. Essa felicidade não pode ser permanente, no sentido em que nós usamos essa palavra. Mas, a nossa mente está buscando uma felicidade permanente, algo que vá durar, que vá continuar. Esse desejo de continuidade é corrupção. Se pudermos entender o processo da vida, sem condenar, sem dizer que é certo ou errado, então eu penso, que vem a felicidade criadora que não está no “eu” ou no “meu”. Esta felicidade criadora é como a luz do sol. Se você quiser manter o sol para si mesmo, ele não se mantém por muito tempo dando vida e calor. Da mesma forma, se desejar felicidade porque está sofrendo, ou porque perdeu alguém, ou porque não é bem sucedido, então isso é apenas uma reação. Mas, quando a mente pode ir mais além, existe uma felicidade que não é da mente.

11. Autoconhecimento não significa acumular conhecimentos sobre si próprio; significa observar a si próprio. Se aprendo acumulando conhecimentos, nada aprendo a respeito de mim mesmo… Para a compreensão da vida diária, não necessitamos de nenhum guru, de nenhuma autoridade ou instrutor. O que nos cabe fazer é, apenas, observar, estar cônscios de nossos atos, pensamentos, e “motivos”, e descobrir se existe alguma possibilidade de transformarmos totalmente nossas humanas tendências, crenças e desesperos.

12. Conhecer a si mesmo é sabedoria. Vocês podem ignorar todos os livros do mundo (e espero que sim), podem ignorar as mais modernas teorias, mas isso não é ignorância. Não nos conhecermos profundamente, fundamentalmente, é ignorância; e vocês não podem se conhecer se não são capazes de se olhar, de se ver exatamente como são, sem nenhuma deformação, sem nenhum desejo de mudar nada. Então, o que vocês veem se transforma, porque a distância entre o observador e a coisa observada desapareceu e, por conseguinte, não há conflito.

13. Perceber, sem condenar, sem julgar; observar pura e simplesmente, e sem escolha, olhar sem condenação, interpretação, comparação; nisso há grande beleza, e grande clareza na observação. Se dessa maneira você se observar sem escolha, então, nesse percebimento, existe atenção, nenhuma entidade existe como “observador”, nem “coisa observada”. Não há “observador” a olhar aquilo a que está observando.

Jiddu Krishnamurti

fonte: http://misticismonaturalmn.blogspot.com.br/2017/06/a-atencao-e-observacao-por-jiddu.html

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