Lidando com pessoas difíceis

Excelente instrução e prática do livro Guia para águias que acreditam ser frangos do Anthony de Mello.

Mudança como ambição

Isso ainda nos deixa com uma grande questão: Será que estou fazendo alguma coisa para mudar?

Tenho uma grande surpresa para você, aliás, uma porção de boas notícias! Você não precisa fazer nada. Quanto mais fizer, pior. Tudo o que tem a fazer é compreender.

Pense em alguém com quem você convive ou trabalha, uma pessoa de quem você não gosta, que desperta em você sentimentos negativos. Vou ajudá-lo a entender o que está acontecendo. A primeira coisa que você precisa compreender é que o sentimento negativo está dentro de você. Você é responsável pelo sentimento negativo, não a outra pessoa. Alguém em seu lugar poderia ficar perfeitamente calmo e à vontade na presença dessa pessoa; nenhum dos dois seria afetado. Mas você é. Agora, compreenda outra coisa: que você está fazendo uma exigência. Você tem uma expectativa em relação a essa pessoa. Você consegue entrar em contato com isso? Então diga a essa pessoa: “Eu não tenho direito de exigir nada de você. Ah, sim, eu vou me proteger das consequências de suas ações ou de seus humores ou de seja lá o que for, mas você pode continuar em frente sendo aquilo que escolheu ser. Eu não tenho direito de exigir nada de você”.

Veja o que acontece com você ao fazer isso. Se sentir muita resistência em proferir uma afirmação como essa, nossa, você tem muito a descobrir a respeito de seu “mim”. Deixe que o ditador em você aflore, deixe que o tirano se manifeste. Você imaginava que fosse um cordeirinho, não é? Mas eu sou um tirano e você é um tirano. Isso é uma pequena variação do “Eu sou um tolo, você é um tolo”. Eu sou um ditador, você é um ditador. Eu quero dirigir sua vida em seu lugar; quero lhe dizer como se espera que você seja e como se espera que você se comporte, e é bom que você se comporte como eu decidi que deve ser, se não vou punir a mim mesmo tendo sentimentos negativos. Lembre-se daquilo que eu disse antes, que todos nós somos lunáticos.

Uma mulher me contou que o filho dela ganhou um prêmio na escola, no colegial, por ter se destacado nos esportes e nas aulas. Ela estava muito feliz por ele, mas ficou quase tentada a lhe dizer: “Não se vanglorie demais por esse prêmio, porque ele pode fazer você se sentir decepcionado quando não tiver um desempenho tão bom”. Ela estava num dilema: queria evitar que ele tivesse uma decepção futura, mas não queria estourar a bolha de euforia em que ele estava.

Bem, espera-se que ele aprenda à medida que também for ficando mais sábio. A questão não é o que ela pode dizer ao rapaz. É o que ela acabará se tornando. Então ela entenderá. Então saberá o que dizer e quando dizer. Aquele prêmio foi o resultado de uma competição, uma coisa que pode ser cruel quando nasce do ódio, alimentado pela pessoa e pelos outros. As pessoas conseguem uma boa sensação à custa da sensação ruim de outras pessoas; você ganha sobrepondo-se a alguém. Isso não é terrível? Sem dúvida, vivemos num hospício.

Um médico americano escreveu sobre o efeito da competição na vida dele. Ele foi para uma escola de medicina na Suíça e havia muitos alunos americanos naquela escola. Ele conta que alguns dos estudantes ficaram chocados quando viram que não havia notas, não havia prêmios, não havia lista dos melhores, nenhum primeiro e segundo aluno da classe. Você podia ser aprovado ou não, só isso. Ele disse: “Alguns de nós simplesmente não aceitávamos isso. Ficamos quase paranoicos. Achamos que talvez houvesse algum truque naquilo”. Então alguns foram para outra escola. Aqueles que sobreviveram de repente descobriram uma coisa estranha, que nunca haviam percebido nas universidades americanas: alguns estudantes, brilhantes, ajudavam outros estudantes a passar, compartilhando anotações. O filho desse médico frequenta hoje uma escola de medicina nos Estados Unidos e conta que no laboratório as pessoas muitas vezes desregulam o microscópio depois de usá-lo para que o estudante que vai usá-lo em seguida perca três ou quatro minutos para reajustá-lo devidamente. Competição. Eles precisam ser bem-sucedidos, precisam ser perfeitos. E ele conta uma história incrível, que segundo ele é factual, mas que pode também servir como uma magnífica parábola. Numa pequena cidade dos Estados Unidos, várias pessoas se juntavam à noite para fazer música. Havia um saxofonista, um baterista e um violinista, além de outros músicos, quase todos idosos. Eles se juntavam pela companhia e pelo puro prazer de tocar, embora não fizessem isso muito bem. Mas se gostavam muito, passavam ótimos momentos juntos, até que um dia decidiram arrumar um novo regente, que tinha muita ambição e muita energia. O novo regente disse a eles: “Gente, precisamos fazer um concerto; temos de preparar um concerto para representar a cidade”. Então ele aos poucos foi livrando-se de algumas pessoas que não tocavam muito bem, contratou alguns músicos profissionais, deixou a orquestra bem montada e todos viram seus nomes estampados nos jornais. Não era uma maravilha? Então decidiram ir até a grande cidade para se apresentar. Mas alguns dos músicos veteranos, com lágrimas nos olhos, diziam: “Era tão bom antes quando a gente tocava mal, mas gostava de tocar”. Ou seja, a crueldade passou a fazer parte da vida deles, mas ninguém enxergava aquilo como crueldade. Vocês percebem o quanto as pessoas enlouqueceram?

Alguns de vocês me perguntam o que eu queria dizer quando afirmei: “Tudo bem, vocês sigam em frente e sejam vocês mesmos, está tudo certo, mas eu vou me proteger, vou ser eu mesmo”. Em outras palavras, eu não vou permitir que vocês me manipulem. Vou viver minha vida; vou continuar de meu jeito; vou me manter livre para pensar do jeito que penso, para seguir minhas inclinações e meus gostos. E vou dizer não a vocês. Se eu sentir que não quero estar na companhia de vocês, não será por causa de quaisquer sentimentos negativos que vocês tenham despertado em mim. Porque vocês não fazem mais isso. Vocês não têm mais poder sobre mim. Eu simplesmente posso preferir a companhia de outras pessoas. Então, quando você me diz: “Que tal um cinema hoje à noite?”, eu posso dizer: “Sinto muito, estou querendo sair com outra pessoa; gosto da companhia dela mais do que da sua”. E tudo bem. Dizer não às pessoas —isso é maravilhoso; faz parte do despertar. Parte do despertar é você viver sua vida do jeito que acha adequado. E compreender: Isso não é egoísmo. Egoísta é exigir que outra pessoa viva sua vida como você acha adequado. O egoísmo está em pedir que alguém viva a vida dele de modo a se adequar a nossos gostos ou nossa vaidade, ou a alguma vantagem que você possa ter ou a seu prazer. Isso sim é que é egoísmo. Então vou me proteger. Não vou me sentir obrigado a estar com você; não vou me sentir obrigado a dizer sim a você. Se eu achar sua companhia agradável, então vou sentir prazer nisso, mas sem me apegar. Mas não vou mais evitá-lo por causa de algum sentimento negativo que você tenha despertado em mim. Você não tem mais esse poder sobre mim.

Despertar tem que ser uma surpresa. Quando você não espera que algo aconteça e mesmo assim acontece, você fica surpreso. Quando a mulher do Webster pegou-o beijando a empregada, disse a ele que estava muito surpresa. Bem, Webster insistia em usar sempre a palavra exata (compreensível, já que ele elaborou um dicionário), então ele respondeu à mulher: “Não, querida, surpreso estou eu. Você está é perplexa!”.

Algumas pessoas fazem do despertar uma meta. Estão determinadas a alcançar isso; elas dizem: “Eu me recuso a ser feliz até despertar”. Nesse caso, é melhor elas continuarem como estão, e que simplesmente tomem consciência de como são. A simples consciência é felicidade comparada com a decisão de tentar reagir de determinada maneira o tempo todo. As pessoas reagem prontamente desse jeito porque não estão conscientes. Uma hora você entenderá que há situações em que você inevitavelmente reagirá, mesmo estando consciente. Mas conforme a consciência aumenta, você reage menos e age mais. Na realidade, não importa.

Há uma história de um discípulo que contou a seu guru que estava indo para um lugar distante para meditar, na esperança de se iluminar. Então passou a mandar um bilhete ao guru a cada seis meses para relatar seus progressos. O primeiro bilhete dizia: “Agora compreendo o que significa perder o self ”. O guru rasgou o bilhete e jogou no cesto de lixo. Seis meses depois recebeu outro dizendo: “Agora consigo ser sensível a todos os seres”. O guru também rasgou. Um terceiro bilhete dizia: “Agora compreendo o segredo do um e dos muitos”. Também foi rasgado e jogado no lixo. E assim continuou durante anos, até que por fim os bilhetes cessaram. Passou um tempo, o guru estava curioso e um dia apareceu um viajante que iria até aquele lugar onde estava o discípulo. O guru disse: “Por favor, descubra o que aconteceu com aquele rapaz”. Pouco depois, o guru recebeu um bilhete do discípulo. Dizia: “Afinal, o que importa?”. E quando o guru leu isso, disse: “Ele conseguiu! Ele conseguiu, ele finalmente conseguiu! Ele conseguiu!”.

E há a história do soldado no campo de batalha, que ficava o tempo todo pondo seu fuzil no chão e pegando algum pedaço de papel que achasse por ali. Ele olhava para o papel e então deixava que caísse de sua mão, esvoaçando até o chão. Depois dava mais uns passos e repetia a mesma coisa. Os outros diziam: “Esse cara está se expondo à morte. Precisa de ajuda”. Então o internaram no hospital e arrumaram um bom psiquiatra para cuidar dele. Mas parece que não estava adiantando nada. Ele vagava pelas alas pegando tiras de papel do chão, olhando para elas despretensiosamente, e deixando que caíssem esvoaçando no chão. No final, decidiram: “Precisamos dispensar esse homem do Exército”. Então o chamaram e lhe deram um certificado de dispensa, e ele despretensiosamente pegou o certificado, olhou, e gritou: “É este? Sim, achei, é este”. Ele finalmente conseguira.

Portanto, comece tomando consciência de sua presente condição, seja ela qual for. Pare de ser um ditador. Pare de tentar chegar a algum lugar. Então um dia compreenderá que simplesmente pela conscientização já terá chegado onde pretendia.