Observar os pensamentos, observar o pensador

Algumas pessoas dizem que, quando tentam observar seus pensamentos, eles se esquivam. Eles desaparecem instantaneamente ou não surgem com muita clareza. Outros dizem que seus pensamentos se tornam muito sólidos e claros, aparecendo em suas mentes como palavras, e são capazes de observar os pensamentos vindo e indo sem muito apego ou perturbação.

Agora, vou lhe revelar um grande segredo: não há segredo! Ambos os extremos que as pessoas descrevem — e todas as variações entre eles — são experiências de meditação. Se tiver medo de seus pensamentos, você lhes está dando poder sobre você, porque eles parecem tão sólidos e reais, tão verdadeiros. E, quanto mais medo você tem deles, mais poderosos eles parecem ser. Mas, quando começa a observar seus pensamentos, o poder que você lhes concede começa a diminuir. Isso pode acontecer de duas formas.

Algumas vezes, como mencionado antes, se você observar seus pensamentos com proximidade, começará a notar que eles aparecem e desaparecem muito rapidamente, deixando pequenas lacunas entre eles. No começo, a lacuna entre um pensamento e o próximo pode não ser muito longa; mas, com a prática, as lacunas ficam cada vez mais longas e sua mente começa a repousar com mais tranqüilidade e abertura na meditação sem objeto.

Em outros momentos, a simples prática de observar os pensamentos se torna algo com assistir à televisão ou a um filme. Na televisão ou na tela de cinema, várias coisas podem estar ocorrendo, mas você não está no filme ou na tela da televisão, não é mesmo? Há algum espaço entre você e o que você está assistindo. Quando você pratica a observação de seus pensamentos, pode na verdade vivenciar a mesma espécie de pequeno espaço entre você e seus pensamentos. Na verdade, você não está criando esse espaço, porque ele sempre esteve lá; você está meramente se permitindo notá-lo. E, por se tornar consciente desse espaço, você pode de fato começar a gostar de observar seus pensamentos — mesmo se eles forem assustadores — sem estar imerso neles ou ser controlado por eles. Somente deixe os pensamentos se movimentarem como sempre fizeram, como adultos observam crianças a brincar — construindo castelos de areia, simulando batalhas com soldados de brinquedo ou engajadas em outros jogos. As crianças estão intensamente envolvidas em suas atividades, mas os adultos se limitam a observar e riem afetuosamente de sua seriedade.

Qualquer uma dessas experiências que surgir para você é excelente e, sem dúvida, elas variarão à medida que você praticar. Algumas vezes, você observará seus pensamentos com muita proximidade, vendo-os vir e ir, notando as lacunas entre eles. Outras, você simplesmente os observará com um pouco mais de distância. A meditação é muito mais fácil do que a maioria das pessoas pensa: não importa o que você vivência, contanto que esteja consciente do que está acontecendo, isso é meditação!

O único momento em que sua experiência passa da meditação a outra coisa ocorre quando você tenta controlar ou mudar o que pode estar vivenciando. Mas, se você levar alguma consciência à tentativa de controlar sua experiência, isso também é meditação.

É claro que algumas pessoas não vêem nenhum pensamento; suas mentes só ficam em branco. Tudo bem se isso também acontecer. É a sua mente que você está exercitando, então ninguém pode julgá-lo; ninguém pode avaliar a sua experiência. A meditação é um processo estritamente pessoal, e duas pessoas não têm as mesmas experiências. À medida que você continua a praticar, sem dúvida descobrirá que sua experiência muda algumas vezes de um dia para o outro, ou de uma sessão de prática para outra. Algumas vezes, você pode perceber que seus pensamentos são muito claros e fáceis de observar; outras, eles podem parecer um tanto quanto vagos e elusivos.

Algumas vezes, você pode perceber que sua mente fica embotada ou nebulosa quando se sentar para praticar. Isso também é bom. O senso de embotamento é como uma cadeia de neurônios tagarelando uns com os outros em resposta à sua intenção de meditar, e você pode observar o embotamento ou qualquer outra coisa que possa sentir. A observação, o simples ato de prestar atenção ao que você pode estar vivenciando em um momento específico, é a meditação. Mesmo a fofoca neuronal que se manifesta na forma de um pensamento como “Não sei meditar” pode ser um suporte para a meditação, contanto que você a observe.

Contanto que você mantenha a consciência ou a vigilância, não importa o que ocorra, a sua prática é a meditação. Se você observa seus pensamentos, isso é meditação. Se não consegue observar seus pensamentos, isso também é meditação. Qualquer uma dessas experiências pode ser um suporte para a meditação. O essencial é manter a consciência, não importa quais pensamentos, emoções ou sensações ocorrerem. Se você se lembra de que a consciência do que ocorrer é a meditação, então a meditação fica muito mais fácil do que você pode pensar.

(trecho de Alegria de Viver de Yongey Mingyur Rinpoche)

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