Para cada praticante existe um tipo de prática? Joko Beck

Durante o fim de semana que passei em San Diego, ensinando e também em entrevistas informais, Joko apontou várias possíveis distorções da prática Zen. “Pensamos demais em alcançar uma visão do absoluto” disse, “o que é uma consideração prematura para a grande maioria. Mesmo quando acontece alcançar, não sabem o que fazer com ela. Para alguns o choque é forte demais”. Seu primeiro objetivo é certa maturidade no desenvolvimento, que torna possível a realização. Quando a mente esquece seus apegos, “muito naturalmente aumenta o que se chama samadhi e, num momento dado, pode-se alcançar a visão do absoluto. Não é uma meta para ser atingida, porque acontece naturalmente com a maturidade da prática. Se acontecer, voltamos logo à prática básica”.

A prática básica é lidar com o apego, ainda que tudo seja apego. É aqui que se instala o ego e a prática, segundo Joko, consiste em retornar permanentemente às ações do dia a dia e inquirindo: “o que está acontecendo aqui mesmo? Como é que devo observar? Como é que devo meditar? A que é que estou apegado?” A divisória entre esta busca e a psicoterapia não é muito nítida, mas faz uma enorme diferença para o praticante dedicado, porque conduz à transposição radical da auto-imagem. Passa a haver sutileza e capacidade de observação que fazem do processo algo completamente aparte. Chega um momento em que a profundidade e a intensidade do processo vão além da terapia”.

Joko quase nunca faz alusão às experiências do despertar. “Se tivermos por meta o samadhi podemos alcançar uma espécie de vacuidade, mas não é a autêntica vacuidade porque o meditante não está verdadeiramente vazio. Se no nosso dia a dia manipularmos ou explorarmos os outros, se buscarmos poder, o samadhi—o que pode ser alcançado muito artificialmente—não é, quanto a mim, o verdadeiro samadhi”.

“É possível alcançar samadhi e se apegar a ele, penso”, disse eu.

“Claro!”, respondeu. “Quase todos se apegam ao próprio samadhi! Samadhi é como se fosse uma proeza esportiva, e há quem recorra e ele para evitar o sofrimento”.

“Passa-se por cima do sofrimento para chegar ao samadhi?”

“Sim, sobretudo se o poder do samadhi for artificial, será possível mantê-lo durante todo o dia; poderá mesmo parecer autêntico se não surgir qualquer tipo de tensão, mas sob tensão tais samadhis se revelam bem frágeis. É preferível lidar primeiro com as idéias que temos sobre o que se passa em nossas vidas, com todos os apegos. Partindo desta prática, com o tempo surgirá o samadhi e a compreensão autênticos”.

“Quer dizer que para cada praticante existe um tipo de prática?”

“Correto. Quando ensino não falo muito. Quando vêm para o daisan, costumo perguntar, ‘então, o que surgiu hoje na mente? O que você quer comentar?’ Então eles falam, eu ouço o que está acontecendo e posso então apontar: ‘reparou no que você disse? Quer elaborar um pouco?’ e então, aprofundamos.”

Perguntei onde tinha aprendido está técnica.

“Passei anos conversando com os praticantes, anos e anos. É impossível transmitir exatamente o que seja para outra pessoa—é preciso ter passado pela experiência. Também não creio que passar todos os koans seja muito válido; ainda que possa ter o valor de um diploma para quem queira ensinar”.

“Sobre Mu? Certos mestres consideram ser preciso passar este koan.”

“Alguns novatos já me disseram que o seu koan era Mu, mas em geral consideram mera abstração enigmática sem qualquer relação com suas vivências. Mu é simplesmente a própria vida, aqui mesmo, agora mesmo. Quando o seu filho preocupa, é Mu; quando investigar o assunto estará investigando Um, não está em nenhum outro lugar. Na prática tradicional dá-se este koan para o aluno meditar no mistério. Enquanto se empenha em resolve-lo, viaja por todas as partes de si mesmo. Para alguns funciona. Contudo, cada vez mais, quando ouço as histórias passadas nos mosteiros antigos duvido um pouco. Chegavam a ter milhares de monges e ouvimos apenas o relato de um notável que conseguiu; não falam nos demais novecentos e noventa e nove. Tenho certeza de que muitos deles não tinham qualquer idéia do que estavam fazendo”.

“Pode não ter ser sido apropriado, mesmo então?”

“Duvido que tenha sido, exceto para poucos. Muitos monges iam e vinham e não sabiam o que estavam fazendo, mas não se ouve falar sobre o assunto. Agora, meus alunos passam Mu, não ouvem a palavra, mas passam. A palavra não importa, se a prática é sincera e intensa chega-se a um ponto de compreensão do que seja a vida. ‘Então é isso!’ Se a mente está vazia e tranqüila—pronto, aparece. É lógico que não existe nada além de Mu, mas observo que muita gente não está preparada, nem interessada, nem é capaz de lidar com a natureza da realidade suprema—que é sua própria natureza, claro. É preciso um grande empenho e séria busca”.

“Precisamos recorrer à forma mais adequada para cada um. Estou tão interessada nos alunos com sérias dificuldades quanto com os chamados “bons” alunos. Poder beneficiar uma vida que pode vir a ser mais firme e tranquila—mais “verdadeira”—é a minha maior satisfação. Assim observo e ouço cada aluno para saber quem está meditando ali. Depois, ajo conforme o que encontrei, posso ser gentil ou severa, depende do aluno. Precisamos nos converter num espaço em branco e para tanto adaptar a uma coisa e a outra e a outra ainda”.

“Da sua parte não existe qualquer tipo de manipulação”.

“Claro, nenhum!”

do livro “Mulheres Notáveis” por Lenore Friedman

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