QUESTIONEMO-NOS – Anthony de Mello

Para despertar, devemos questionar cada crença que temos e todas as que nos vêm de fora. Se não nos agarrarmos a nenhum conceito, coisa ou ideologia, será fácil descobrirmos imediatamente onde está a verdade e a realidade, que é a vontade de Deus escrita na vida. Mas há pessoas que não estão dispostas a isso. Alguém conseguiria convencer o capitalista a questionar seu capital? Ou os políticos a questionar suas próprias ideias limitadas? Impossível, pois estão demasiadamente apegados às suas razões materiais.

A palavra não descreve a realidade, mas apenas a indica. A realidade não pode ser expressada na sua profundidade e em seus matizes, porque a palavra não é capaz de contê-la. Por isso, os místicos garantem que é impossível expressar a realidade de Deus.

Do mesmo modo, a Bíblia apenas nos indica o caminho, como também acontece com as escrituras muçulmanas, budistas etc. Por isso, já foram cometidos enormes abusos de interpretação das Escrituras, quando se pretendeu aplicá-las de modo literal.
Já mencionamos o que aconteceu nos séculos passados, como a queima de hereges em fogueiras e outras barbaridades, por pretender-se dar à Bíblia uma interpretação ao pé da letra.

Todos os fanáticos gostariam de agarrar-se a seu Deus e torná-lo o único. Até nós, os católicos, tomamos ao pé da letra a expressão “único Deus”, e pretendemos fazêlo apenas nosso. Não é costume publicar as barbaridades e crueldades que já se praticaram em defesa de ideias como a de que “apenas dentro da fé católica está a salvação”, ou a de que as pessoas não batizadas estão condenadas para sempre. Tudo isso poderá ser revelado nos séculos futuros. Existe ainda muito fanatismo escondendo erros, por medo de que se possa perder uma imagem à qual as pessoas se prendem.

A mesma coisa acontece com os fanatismos históricos, nos quais a religião também esteve presente. Colombo não descobriu a América, porque ela descobriu-se sozinha. Era uma terra povoada, que tinha um tipo de vida e de cultura, além de suas próprias crenças. O que Colombo descobriu ao chegar ao continente americano foi a enorme ignorância dos europeus, que não sabiam de sua existência. E não houve, por parte dos “descobridores”, respeito algum com o que já havia ali. Mudaram-se os nomes e os sobrenomes, as crenças, o modo de viver e de expressar a cultura. Em nome da “civilização” e da religião tudo foi destruído, sem qualquer tipo de discriminação, e os tesouros foram todos saqueados, antes mesmo que seu valor fosse conhecido. Nenhum missionário foi capaz de reconhecer a riqueza das culturas da América e dos seus conhecimentos, de sua filosofia e de suas crenças. Eles não podiam reconhecer qualquer cultura ou fé que fosse “diferente”, porque haviam sido doutrinados e programados por seu papel de “salvadores”. Apoiavam-se na crença de toda uma Igreja cujo Papa tomou para si a posse do mundo para repartir aquelas terras entre espanhóis e portugueses, com a finalidade de “converter” os seus habitantes. E isso tudo foi feito porque as Escrituras eram interpretadas ao pé da letra.

Outro tanto aconteceu com Galileu, que, em sua reunião com bispos e cardeais, só pediu que olhassem pelo telescópio. Eles se negaram, porque, para eles, olhar significava duvidar da Palavra de Deus, já que a interpretação que se dava à Bíblia era a de que o Sol dava voltas ao redor da Terra. Duvidar disso era considerado heresia.

Anthony de Mello em Autolibertação

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