O Buda é sua atitude mental diária

“O espelho é totalmente despersonalizado e desprovido de razão. Se surge diante dele uma flor, ele a reflete; se é um pássaro, ele também o reflete. O belo diante dele é belo, o feio nos aparece como feio. Tudo ele revela como de fato o é. Não possui poder de discriminação, nem consciência própria. Se alguma coisa se aproxima, ele a reflete; quando se afasta, ele se limita a deixar que o objeto se afaste… sem que fique um só vestígio. Essa total indiferença, essa ausência mental, ou a livre existência do espelho, pode ser aqui comparada à pura e lúcida sabedoria de Buda”*.
* Zenkei Schibayma, On Zazen Wasan, Kyoto, 1967, p. 28

O texto acima significa que a consciência do Zen não distingue nem caracteriza em categorias o que vê, em termos de padrões sociais e culturais. Não procura encaixar as coisas em estruturas preconcebidas de um modo artificial. Não julga o que é belo ou feio, segundo as normas do gosto pessoal embora possua o seu próprio gosto. Se parece julgar e distinguir, é apenas na medida em que isso é necessário para orientar sobre a maneira de ultrapassar o julgamento, atingindo o puro vácuo. Não determina seu julgamento como sendo final. Não constrói seu julgamento, fazendo-o uma estrutura a ser defendida contra todos os que se aproximam. Agora podemos refletir no sentido profundo das palavras de Jesus: “Não julgueis e não sereis julgados”. Além das implicações morais conhecidas de todos, existe uma dimensão do Zen na sentença do Evangelho. Somente quando essa dimensão for apreendida, poderá o sentido moral tornar-se perfeitamente claro!

Quanto à noção de “Mente do Buda” não é algo esotérico a ser laboriosamente adquirido, algo que “não está ali”, que tem de ser colocado ali (onde?) pela assídua martelação, mental e física, de roshis, koans e tudo o mais. “O Buda é sua atitude mental diária”. O problema é que, enquanto se tem o hábito de distinguir, julgar, categorizar e classificar ou mesmo contemplar está-se sobrepondo algo à pureza do espelho. Estamos filtrando a luz através de um sistema como se estivéssemos convencidos de que isso tornaria mais clara a luz.

As estruturas e formas culturais ali estão, não há dúvida. Não há possibilidade de alguém dispensá-las ou tratá-las como se não existissem. Porém, chega afinal o tempo de ver, como Moisés, que a sarça das formas culturais e religiosas, de repente, pegou fogo, e somos convidados a nos aproximar sem sapatos provavelmente, também, sem pés. Será o fogo outra coisa que não a sarça? Mais do que a sarça? Ou será mais a sarça do que a própria sarça? A sarça ardente, de que fala o livro do Êxodo, lembra-nos de maneira estranha a Sutra prajnaparamiía: “A forma é vazio, o vazio é, ele mesmo, forma: a forma não difere do vazio (o vácuo), o vazio não difere da forma; tudo o que é forma é vazio, tudo o que é vazio é forma…” Assim também as palavras vindas da sarça ardente: “Sou o que sou”. Essas palavras ultrapassam a oposição e a negação. Na realidade, não se sabe exatamente o que significam em hebraico. Os estudiosos fazem suas suposições de acordo com a mentalidade da época; ora essencialista (“Puro-Ser auto-subsistente em-ato”), ora existencialista (“Não-lhe-direi-portanto-cuide-de-sua-própria-vida-que-nãoconsiste-em-saber-mas-sim-em-fazer-o-que-fizeres-a-próxima-vez-que-eu-estiverpor-aí” ) .

Em outras palavras, começamos a adivinhar que o Zen se acha não só para além das formulações do budismo, mas está igualmente, de certo modo, “além” da (e é mesmo apontado pela) mensagem do Cristianismo. Quer isso dizer que, quando chegamos a romper os limites da religião ou da irreligião cultural e estruturada, há probabilidade de acabarmos num “renascimento no Espírito”, ou apenas numa conscientização intelectual, num simples vácuo, onde tudo é liberdade porque tudo é ação inativa, que os chineses denominam Wu-wei e o Novo Testamento “a liberdade dos filhos de Deus”. Não que sejam teologicamente a mesma coisa. Têm, contudo, a mesma espécie de dimensão ilimitada, a mesma ausência de inibição, a mesma plenitude psíquica de criatividade que marcam a plena e integrada maturidade do “eu iluminado”. A “mente do Cristo”, como é descrita por São Paulo aos filipenses, capítulo 2, pode, do ponto de vista teológico, estar imensamente distante da “mente do Buda” o que não estou preparado para discutir. Mas o total “auto-esvaziamento” do Cristo e o auto-esvaziamento que faz o discípulo ser um com ele em Sua quênose (“Kenosis”) pode ser compreendido, e o tem sido, num sentido muito semelhante ao Zen no que se relaciona com a psicologia e experiência.

Thomas Merton em O Zen e as aves de rapina

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