O fenômeno atenção – WU WEI A ARTE DE VIVER DO TAO

Na poesia e na pintura da China antiga o Tao tem um papel importante. Os poetas mencionam, que se transferem a um estado de ausência total de pensamentos quando criam as suas obras. Chang Chung-yuan escreve: “Do mundo da inconsciência ascendem para a consciência as estruturas de sua poesia”. Neste estado de ausência do intelecto eles viviam plenamente o ser do Tao. E quando, hoje, após tanto tempo, lermos as suas poesias é impossível uma pessoa sensível esquivar-se deste encanto, mesmo tratando-se de uma tradução onde a diversidade da linguagem de símbolos chineses foi forçosamente limitada pela inevitável interpretação do tradutor.

A ausência de pensamentos está relacionada também com o importante instrumento descrito nos capítulos anteriores, que está à nossa disposição para dominarmos a vida: a atenção. Estou utilizando aqui uma expressão da linguagem do cotidiano, pois ela é a que mais se aproxima deste fenômeno, entretanto sem abrangê-lo completamente.

Esta atenção não é algo que podemos simplesmente conseguir, como por exemplo, a concentração. A concentração é relativamente cansativa, pois exige forças espirituais, temos de juntar nosso cérebro e nossos sentidos para conseguirmos nos fixar no objeto da concentração. A concentração volta-se para um determinado ponto e parte do cérebro. É um processo do pensamento e por isto material, já que todo tipo de pensamento é matéria, como em seguida ainda vou lhes esclarecer. A atenção não tem nada a ver com o pensamento.

Muito pelo contrário. Os pensamentos sempre falsificam a concentração, eles sem querer a transformam em alguma outra coisa que é muito semelhante à concentração. Eu já disse anteriormente que a atenção expressa mais do que esta palavra de nossa linguagem.

Na verdade, não existe nenhum conceito em nossa língua para este instrumento poderoso de nosso espírito, para este ponto tão próximo a dimensões estranhas, que faça jus ao seu efeito. Por isso, bem ou mal teremos de utilizar a expressão “atenção”. Como eu já disse, não se consegue simplesmente a “atenção”. Isto é certo. A atenção surge por si própria quando determinadas condições são preenchidas. Uma das condições eu a descrevi no segundo capítulo: é a libertação de qualquer compromisso interior ou exterior, a libertação de autoridade. Nós a alcançamos através da observação detalhada de nossos diversos compromissos, e a partir daí a liberdade surge por si.

Observar é a segunda condição para que a atenção entre em nossa vida. Nosso espírito, em nosso cérebro em seu atual estado preguiçosos, indolente, insensíveis. Nossos pensamentos se movimentam constantemente em círculo, ruminando sempre acontecimentos sem importância ou aparentemente importantes. Os pensamentos não param nenhum segundo, e não conhecemos outro estado que não aquele mecanismo de pensamento totalmente desnecessário e corriqueiro. Observar não é um processo intelectual. Na verdade, é uma coisa muito simples: nós notamos algo, talvez uma borboleta ou uma nuvem com um formato interessante, e olhamos para ela. Nada mais. Isto seria observar. Parece muito fácil.

Mas vou lhe dizer o que realmente fazemos. Não é verdade que simplesmente olhamos para ela: infelizmente apenas acreditamos nisto. Quando repentinamente surge uma linda borboleta diante de nossos olhos, isto ocorre durante o processo habitual dos nossos pensamentos corriqueiros. O estímulo do nosso sentido chega ao nosso cérebro. Neste meio tempo (exagerando um pouco) a borboleta se afastou um tanto de nós e desapareceu de nossa visão para trás de uma árvore. Somente com esta demora a nossa mente reage.

O cérebro assume a projeção da retina de nossos olhos, procura em nossa lembrança se existem imagens semelhantes a esta, compara-as, procura na seção de vocabulário o conceito, também compara este conceito com a imagem e reconhece: Ah! Uma borboleta! Somente agora o seu consciente recebe a informação de que você viu uma borboleta bonita. Aqui não se pode falar de vida espontânea, direta. Como já disse, caricaturei um pouco a coisa para esclarecer melhor, mas continua existindo o fato de que mesmo este processo comparativo de pensamentos ocorrendo em fração de segundos, tão rápido que nem registramos, pensamos que o nosso momento com a borboleta que “observamos” é imediato.

Perdemos a capacidade de olhar para alguma coisa ao nosso redor sem colocar nossos pensamentos a funcionar. Este problema deve ser solucionado para que haja perspectivas da entrada de atenção em nossa vida. Quando no primeiro capítulo descrevi como os problemas são solucionados, isto é, apenas através desta observação, isto deve ter-lhe parecido muito simples. Eu acredito que aos poucos fica claro que a coisa não é tão simples assim. A ação é e continua sendo relativamente fácil. O que complica a história é nosso terrível costume de pensar. Não sabemos ser diferentes, temos de examinar e analisar tudo. Este comportamento está tão arraigado em nós que nem percebemos mais este mecanismo.

Operamos grotescamente com esta forma de examinar as coisas afastando-nos da realidade da mesma maneira que os turistas no ônibus que fotografam em vez de olhar. O que observamos em nossa forma habitual não é a realidade, porém a lembrança que temos dela. Vivemos os acontecimentos ao nosso redor sempre no passado pois nos tornamos incapazes de olhar e observar no presente.

Nós temos de reaprender a simplesmente contemplar coisas sem compará-las com as nossas lembranças ou identificá-las com etiquetas. Tente uma vez, olhe ao seu redor, observe a mosca na vidraça ou a cortina, e como o vento brinca com ela. Contemple sem acompanhar este processo com os seus pensamentos. É difícil, não é? Não é fácil livrar-se de vícios que penetraram em nossa vida desde o início, pelos quais ninguém nos chamou atenção, pois todos estão presos aos mesmos costumes e não os consideram erros.

Mas é possível.

Da mesma forma que se habituou a observar as coisas da maneira atual, você pode adaptar-se a esta nova maneira de – agora realmente – contemplar e observar espontaneamente. Aprenda e acostume-se a observar tudo com olhos cândidos, seja no cotidiano cinzento ou em passeios, não analise os acontecimentos, não comente, não pense “montanha” quando vir uma montanha, apenas olhe para ela, nada mais. E principalmente: não se contraia, não fique pensando: “eu tenho de observar, não posso pensar”. Caso você começasse desta maneira, teria se afastado de outra forma das coisas observadas como se desde o início tivesse continuado no seu antigo método.

Observar é um processo que ocorre de forma bem descontraída, não exige esforço e nem outro trabalho mental. Se você não conseguir logo apenas observar, não se trave. É preferível que você continue ainda um tempo em sua antiga forma de vida – afinal, você a praticou durante muito tempo e alguns dias a mais não farão diferença. Pois se conseguir de repente de maneira descontraída e não forçada, sem desejo de mudança ou melhora, sem ambição, tornar-se outra pessoa, alcançar este objetivo, você o conseguirá de mãos beijadas.

No início eu já havia dito que observar é o segundo passo neste processo de vida no Tao. Você deve anterior mente ter procurado, paralelamente, esta libertação de qualquer tipo de compromisso. Quando esta liberdade é eficaz, a sua mente já reage mais facilmente a tudo.

Assim que você se libertar de todas estas cargas, deixar por conta do Tao desembaraçar as coisas, e apenas viver o aqui e o agora, só haverá pouco material para o seu pensamento se ocupar. A tranqüilidade tomará conta de sua alma e de sua mente. O passado não estará preso a você e o futuro perde aquilo que assusta e é incerto. Pois logo você perceberá por experiência própria (para uma pessoa do Tao não há nada que acreditar – ela apenas vive) que todos os seus assuntos estão bem resolvidos.

Como observadores nós atingimos o nível de efeito do Tao. E principalmente mediante a observação dos próprios processos interiores, também essa observação sem uma tomada de posição ou uma avaliação, conseguimos ter uma visão de nosso verdadeiro estado. Assim percebemos o que realmente está, ou não, acontecendo conosco. Caso contrário, sempre temos uma imagem de nós mesmos, temos uma opinião formada de nossas fraquezas e forças, acreditamos saber e conhecer o suficiente sobre o nosso caráter e nossos limites, quando na verdade nada sabemos sobre nós mesmos. O que sabemos de nós mesmos percebemos através das comparações. Para todas as características que exigimos de nós mesmo medimos em outras pessoas: só sabemos como somos em comparação a outros. Nós nos comparamos com aquilo que aprendemos e ao que nos foi dito sobre como uma pessoa correta deve ser, como ter sucesso, o que se deve fazer para a sua formação, ou como outras pessoas imaginam como devemos ser e agir.

Por isto nossas ações também são relativas. Elas se orientam em parâmetros bem limitados. É muito importante que você, logo de início entenda esta relatividade.

Pois só então poderá com suas observações encontrar e perceber confirmações de como sua vida atualmente está condicionada. Acredite, o Homem não tem nem a vaga noção do que ele realmente é. Em todo o passado, o ponto importante da avaliação da qualidade humana, foi depositado no nível de sua inteligência. Já na escola o intelecto foi cultivado, o Homem foi induzido a concentrar-se totalmente na aquisição de conhecimento e desempenhar algo no campo do pensamento. Ignora-se que possa existir alguma coisa além disto. Hoje, talvez, com a nossa civilização não consigamos mais voltar ao estado da população original totalmente ligada à natureza.

Não há mais espaço suficiente em nosso planeta para essa massa de pessoas. Mas o retorno espiritual a uma forma de existência natural ligada ao fluxo da vida opõe-se à nossa parcialidade e ignorância. Nós mesmos achamos que não é mais possível, ou estamos a ponto de achar que processos mentais que vão além de nosso intelecto são bobagem total, adequados para sonhadores ou freiras. Porém esta espiritualidade no Tao não tem nada de religioso. A vida é ligada à terra, acontece aqui e entre processos materiais.

A suave arte de observar é o princípio básico para a atenção. Observar é o processo material por meio de nossos sentidos. Tato, audição, sabor e olfato fazem parte do mesmo campo que a visão, nosso sentido mais utilizado. Observar é um processo que inclui todo o campo dos sentidos, não deve haver o mal-entendido de se considerar apenas o campo visual. Quando você tiver aprendido a observar a sua dependência, seus compromissos, seu preconceito sem motivo e sem uma análise intelectual, surgirá a atenção. Essa atenção é o objeto mental da observação. Você não consegue criar atenção deste tipo por si próprio. Ela chegará por si a você, quando o campo estiver preparado. E, por favor, não se questione, agora, sobre como você perceberá que a atenção surgiu. Você o perceberá com certeza! Você pode confiar para que funcione ficando atento. Com os sentidos desinteressados e insensíveis você não consegue nem observar, nem ser atencioso.

Quando o seu espírito estiver tranqüilo e você conseguir aproveitar os seus dias diretamente e sem interpretações, libertado das constantes preocupações e necessidades, você libertará uma enorme energia que, então, você desperdiçava. Esta energia concentra-se por si no processo de observação e é realmente a própria atenção. É muito difícil descrever isto com palavras adequadas, pois o processo em si já consiste de conceitos.

Os poetas e pintores do Tao, em seu tempo criaram obras fantásticas. Nenhum livro, nenhum texto pode falar tão claramente do efeito do Tao no Homem como as obras destes artistas geniais. Procure o acesso à arte chinesa e à poesia desta época. Contemple uma vez as aquarelas representando um bambuzal coberto de neve, ou leia uma poesia de Li Po ou de Wang Wei e deixe-se sensibilizar pela magia, pela espontaneidade de sua mensagem.

Criatividade e inspiração prosperam no solo nutritivo do wu wei, da ação sem agir. Aqui, agir é observar, agir é atenção. Com a percepção de um processo nós o influenciamos, o modificamos. Esse processo ocorre a nosso favor, não necessitamos de nenhum ato de força para direcionar as coisas para a direção certa. Comece hoje a não dar atenção ao seu conhecimento, esqueça tudo que lhe ensinaram em relação a como o Homem deve enfrentar os acontecimentos de sua vida. Tudo que lhe foi ensinado até hoje é relativo, é fraco e inadequado.

A verdadeira força está na profundeza de seu espírito. A partir daí essa força entra em ação, necessita de seu conselho intelectual, não de sua análise, pois ela sempre tem uma visão de tudo, enquanto que para você só resta a visão de um aspecto muito limitado de sua existência, ligado ao espaço e ao tempo. O Tao, a sua e a minha dimensão sem espaço, opera no Além de tempo, espaço e pensamento. Seria bom você aprender a confiar o seu destino sem reservas a esta força. E – por fim: Não se deixe iludir pela aparente simplicidade do método.

Atrás dos conceitos desgastados de “observação, atenção, percepção” esconde-se, sob nosso ponto de vista, todo o processo criador.

(Não fique irritado, se nos últimos capítulos eu o aconselhei a alcançar a liberdade interior através da observação de seus compromissos e dar-lhes atenção, mais tarde explico que a atenção só surge através da libertação de toda autoridade comprometedora. As duas coisas estão corretas. Este processo tem algo de paradoxal em si, como a imagem de duas mãos que estão se desenhando reciprocamente, de maneira que uma deve a sua existência à outra. Você realmente precisa apenas observar; pelo jeito, a atenção surge antes mesmo que você esteja libertado de seus compromissos. Como esta força opera no Além de espaço e de tempo, aqui a lei da causa e do efeito não é anulada, mas para isto não depende da continuidade do tempo. Já na fase inicial e tímida a pessoa que confia a sua vida ao Tao percebe que a atenção age a partir do futuro na sua existência e lhe possibilita compreensão e, assim, libertação através do processo de observação de seus compromissos.

Do livro WU WEI – A ARTE DE VIVER DO TAO – Theo Fischer (recomendo!)

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