Que é meditação? Krishnamurti

Que é meditação?

Antes de entrarmos neste problema tão complexo e intricado, precisamos saber com clareza o que é que estamos procurando. Andamos sempre em busca de alguma coisa, principalmente as pessoas de mentalidade religiosa; até para o cientista o buscar se tornou uma coisa sobremodo importante. Este fato — o buscar — precisa ser compreendido muito clara e precisamente, antes de começarmos a considerar o que é a meditação e por que é necessário meditar, para que serve e aonde nos leva.

A palavra “buscar” — tentar alcançar, descobrir — implica que já conhecemos mais ou menos o que desejamos achar. Ao dizermos que estamos buscando a verdade, ou Deus, se temos tendências religiosas, ou que estamos buscando uma vida perfeita, etc., já devemos ter na mente a respectiva imagem ou idéia. Para acharmos a coisa buscada, já devemos conhecê-la em suas linhas gerais, sua cor, sua substância, etc. Na palavra “buscar” não está implicado que perdemos alguma coisa e andamos a procurá-la, e que, ao achá-la, a reconheceremos — o que significa que já a conhecemos e o que temos de fazer é apenas sair à sua procura?

Na meditação, a primeira coisa que se percebe é a inutilidade do buscar; porque a coisa buscada é predeterminada pelo nosso desejo; se sois desditoso, se estais sozinho, no desespero, quereis buscar a esperança, uma companhia, um amparo — e inevitavelmente achareis essa coisa.

Na meditação, temos de lançar uma certa base, a base da ordem, que é virtude — não a respeitabilidade, a moralidade social, que nenhuma moralidade é, mas, sim, a ordem que nasce da compreensão da desordem — uma coisa bem diferente. Enquanto houver conflito, exterior e interior, haverá desordem.

A ordem, que vem da compreensão da desordem, não segue nenhum plano previamente traçado, não segue nenhuma autoridade, ou vossa própria experiência. Essa ordem, é óbvio, deve surgir sem se fazer nenhum esforço, porque o esforço deforma, sem se exercer nenhuma espécie de controle.

Isso que acabamos de dizer, ou seja, que devemos produzir a ordem sem exercermos nenhuma espécie de controle, é difícil de compreender. Nós temos de compreender a desordem, como se torna ela existente; ela é conflito dentro em nós mesmos. Observá-la é compreendê-la; não se requer que a dominemos, sufoquemos, reprimamos. Observar sem deformar, sem nenhuma compulsão ou impulso diretor, é trabalho bem difícil.

Controle supõe repressão, rejeição ou exclusão, supõe separação entre o “controlador” e “a coisa controlada”, supõe conflito. Compreendido isso, deixa totalmente de existir o controle e a escolha. O que estou dizendo poderá parecer um tanto difícil e em contradição*com o que pensais. Direis: “Como pode haver ordem sem controle, sem a ação da vontade?” — mas, como já dissemos, controle implica separação entre “o controlador” e a coisa que vai ser controlada; nessa divisão, há conflito, deformação. Quando se percebe isso realmente, está terminada a separação entre “controlador” e “coisa controlada” e, por conseguinte, há compreensão. Com a compreensão do que realmente é, torna-se desnecessário o controle.

Há, pois, duas coisas essenciais que cumpre compreender perfeitamente, antes de entrarmos na questão da meditação: primeiro, o buscar é completamente inútil; segundo, é necessária aquela ordem nascida da compreensão da desordem, proveniente  do controle, que envolve também dualidade, contradição entre o observador e a coisa observada.

Vem a ordem quando, por exemplo, uma pessoa está encolerizada e, tentando libertar-se da cólera, descobre que ela própria é a cólera. Sem essa compreensão, não há possibilidade de descobrir o que é meditação. Não enganeis a vós mesmo com ler os livros que se têm escrito sobre a meditação, ou ouvindo as pessoas que querem ensinar-vos a meditar, ou ingressando nos grupos que se formam “para meditar” ; porque, se não existir a ordem — que é virtude — a mente viverá inevitavelmente empenhada no esforço provocado pela contradição. Como pode essa mente tornar-se cônscia do significado da meditação?

Com todo o nosso ser, precisamos encontrar-nos com essa coisa maravilhosa chamada “amor” e, conseqüentemente, nos livrarmos do medo. Referimo-nos ao amor não contaminado pelo prazer, pelo desejo, pelo ciúme — o amor que não conhece competição, que não se divide em “meu amor” e “vosso amor”. Então, a mente (que inclui o cérebro e as emoções) se acha em perfeita harmonia; e esta é necessária, porque, de outro modo, a meditação se torna auto-sugestão.

Tendes de trabalhar muito diligentemente para descobrirdes as atividades de vossa mente, como funciona, suas ações egocêntricas, o “eu” e o “não eu” ; deveis “familiarizar-vos” inteiramente convosco e com os truques que a mente pratica consigo mesma, as ilusões e falácias, a criação das imagens, e as idéias românticas que nutrimos. A pessoa que é capaz de sentimentalidade, é incapaz de amar; a sentimentalidade gera brutalidade, crueldade, violência, e não amor.

É muito difícil instalarmos bem profundamente em nós mesmos o amor. Requer-se uma extraordinária disciplina para aprendermos, pela observação, o que se passa dentro de nós. Essa observação não é possível se a fazemos segundo qualquer espécie de preconceito, conclusão ou fórmula. Se estais observando consoante o que vos disse algum psicólogo, não estais observando realmente a vós mesmo e, por conseguinte, não há autoconhecimento.

Necessitais de uma mente capaz de estar completamente só, de não se deixar influenciar pela propaganda ou a experiência de outrem. A iluminação não vem de nenhum líder, de nenhum instrutor; vem da compreensão do que é, em nós, ‘não pela fuga a nós mesmos. Cabe a cada um perceber exatamente o que se está passando em seu próprio campo psicológico; percebê-lo sem nenhuma deformação, nenhuma escolha, sem ressentimento, azedume, nenhuma explicação ou justificação — estar simplesmente cônscio.

Essa base não se lança a força, mas com alegria, tranquilidade, felicidade, e sem nenhuma esperança de alcançar alguma coisa. Se tendes alguma esperança, estais a afastar-vos de vosso desespero. Temos de compreender o desespero, e não buscar a esperança. Na compreensão de “o que é” não há desespero nem esperança.

Isso é exigir muito da mente humana? A menos que se pergunte sobre uma coisa que pareça impossível, caímos na armadilha, na limitação do que é considerado possível. É muito fácil cairmos na armadilha. Cumpre exigir o máximo de nossa mente e coração, pois, do contrário, permaneceremos no cômodo e confortante domínio do possível.

Estamos ainda viajando juntos? Verbalmente, talvez; mas a palavra não é a coisa; o que estivemos fazendo foi descrever, e a descrição não é a coisa descrita. Se estais acompanhando o orador, estais, então, viajando de fato, e não teoricamente, como uma idéia, mas como uma coisa que realmente estais observando — não, experimentando.

Há distinção entre observação e experiência. Há uma enorme diferença entre a observação e a experiência. Na observação, não há “observador”, só há observar; não há uma entidade que observa, separada da coisa observada. A observação difere inteiramente da exploração por meio da análise. Na análise, há sempre “o analista” e a coisa que vai ser analisada; na exploração, há sempre a entidade que explora. Na observação, há um contínuo aprender, e não uma contínua acumulação. Espero estejais vendo a diferença. Esse aprender é diferente do aprender com o fim de acumular para, com base nessa acumulação, pensarmos e atuarmos. Uma investigação pode ser lógica, sã, racional; mas observar sem o observador é coisa diferente.

E temos, a seguir, a questão da experiência. Por que desejamos experiências? Já pensastes nisso? Continuamente estamos tendo experiências, das quais temos, ou não, conhecimento. E desejamos experiências mais amplas e profundas — experiências místicas, profundas, transcendentais, divinas, espirituais; por quê? Não é porque nossa vida é tão vulgar, tão desditosa, tão mesquinha e insignificante? Queremos esquecer isso e penetrar numa dimensão totalmente diferente. Como pode uma mente insignificante, perturbada, medrosa, ocupada com sucessivos problemas, experimentar outra coisa senão suas próprias projeções e atividades? Essa ânsia de experiências superiores é fuga ao que realmente é, e, no entanto, só através dessa realidade temos a possibilidade de encontrar-nos com a coisa mais misteriosa de nossa vida. Na experiência está compreendido o processo de reconhecimento. Quando reconheço uma coisa, isso significa que já a conheci antes. A experiência, em geral, vem do passado, nela não há nada de novo. Há, pois, diferença entre a observação e a ânsia de experiência.

Se está claro tudo isso, que é bem sutil e exige muita atenção interior, voltemos à nossa pergunta inicial: Que é meditação? Muito se fala de meditação, a seu respeito escrevem-se volumes sobre volumes; há grandes (não sei se são grandes) iogues que pretendem ensinar-vos a meditar. A Ásia inteira fala de meditação; é um dos hábitos de lá, como é hábito crer em Deus ou noutra coisa. Há pessoas que se sentam num lugar sossegado por uns dez minutos, em cada dia, para meditar, para concentrar, fixar a mente numa imagem, imagem por elas próprias criada ou por outra pessoa que lha impingiu por meio de propaganda. Durante esses dez minutos tentam controlar a mente; esta quer andar para trás e para diante, e ficam eles a batalhar com ela; nesse jogo ficam toda a vida empenhados. Eis o que eles chamam meditação.

Se nada sabeis a respeito da meditação, cabe-vos descobrir o que ela na realidade é, e não de acordo com um qualquer; ela poderá levar-vos a nada ou poderá levar-vos a tudo. Deveis investigar, fazer aquela pergunta (que é meditação?) sem nenhuma expectativa.

Para observar a mente — essa mente que tanto tagarela, que “projeta” idéias, que vive em contradição, em constante conflito e comparação — para observar a mente, devo estar muito quieto. Para ouvir o que dizeis, tenho de prestar atenção, não posso ficar “tagarelando”, pensando noutra coisa, não posso comparar o que estais dizendo com o que já sei; tenho de escutar-vos completamente; a mente tem de estar atenta, em silêncio, quieta.

É da maior necessidade ver claramente a inteira estrutura da violência; olhando a violência, a mente se torna de todo tranqüila; não tendes de cultivar uma mente tranqüila. Cultivar uma mente tranqüila implica uma entidade que cultiva, no campo do tempo, e espera conseguir os seus fins. Vede a dificuldade. Os que pretendem ensinar a meditação dizem: “Controle a mente, ponha-a absolutamente quieta”. Tentais controlá-la, e desperdiçais quarenta anos de vossa vida a batalhar com ela. A mente que observa nunca exerce controle, nunca está a batalhar.

O próprio ato de ver ou escutar é atenção; esta não precisais praticar, se a praticais, a mente se torna de pronto desatenta. Estais atento, e a mente começa a divagar; deixai-a divagar, mas sabei que ela está desatenta; esse percebimento da desatenção é atenção. Não luteis contra a desatenção; não digais “preciso estar atento”, porque isso é pueril. Sabei que estais desatento — que importa isso? E, se nesse momento de desatenção, há ação, ficai cônscio dessa ação. Compreendeis? Isto é muito simples. Se o fizerdes, a coisa se tornará clara como água.

O silêncio da mente é a beleza em si. Escutar o canto de uma ave, escutar a voz de um ente humano, escutar o político, o sacerdote, escutar o barulho da incessante propaganda, escutar em absoluto silêncio —• é ouvir muito mais, ver muito mais. Não é possível esse silêncio se o corpo não está também totalmente quieto. O organismo, com suas reações nervosas — o remexer-se, o incessante movimento dos dedos, dos olhos — o organismo, apesar de nunca ter descanso, deve ficar totalmente quieto. Já tentastes alguma vez ficar completamente quieto, sem um único movimento do corpo, nem dos olhos? Fazei-o por dois minutos. Nesses dois minutos, a coisa se revela, toda inteira — se sabeis olhar.

Com o corpo quieto, aumenta o afluxo de sangue à cabeça. Mas, se vos sentais encolhido, desaprumado, é mais difícil o sangue afluir à cabeça; deveis saber disso. Mas, por outro lado, podeis estar fazendo qualquer coisa e ao mesmo tempo meditando — viajando num ônibus ou guiando o vosso carro (é uma coisa extraordinária a gente poder meditar ao mesmo tempo que está guiando um carro com todo o cuidado; digo-o por experiência própria). O corpo tem sua peculiar inteligência, que o pensamento destruiu. O pensamento busca o prazer e, dessa maneira, nos induz a satisfazer nossos apetites, a comer demais, a praticar excessos sexuais; o pensamento impele o corpo a fazer certas coisas: se o corpo tem preguiça, força-o a dominar a preguiça ou nos sugere tomar um comprimido para o mantermos ativo. Dessa maneira é destruída a inteligência inata do organismo e ele se torna insensível. Nós necessitamos de muita sensibilidade e, por conseguinte, devemos ter cuidado com o nosso comer; se comemos demais, sabemos quais são as conseqüências. Havendo sensibilidade em alto grau, há inteligência e, por conseguinte, amor; o amor é, então, alegria, e é atemporal.

A maioria de nós temos dores físicas, numa ou noutra forma. Essa dor em geral perturba a mente, que passa dias, talvez anos, pensando a seu respeito — “Não quero ter esta dor”, “alguma vez ficarei livre dela?”. Se o corpo sente dor, prestai atenção a essa dor, observai-a, não deixeis o pensamento interferir nela.

A mente (com inclusão do cérebro e do coração) deve achar-se em perfeita harmonia. Ora, para que serve isso; essa espécie de vida, essa espécie de harmonia, que utilidade tem neste mundo, em que há tanto sofrimento? Se só uma ou outra pessoa é capaz dessa vida extática, para que serve ela? —- E para que serve essa pergunta? Para nada. •— Se tendes em vossa vida aquela coisa maravilhosa, tendes tudo; sois então o mestre, o discípulo, o próximo, a beleza da nuvem — tudo sois, e isso é amor.

Nesta questão da meditação há mais uma coisa a considerar: a mente que está desperta durante o dia, exercendo as funções para que foi adestrada, a mente consciente, com suas atividades diárias, continua, durante o sono, essas atividades, na forma de sonhos. Nos sonhos, há sempre ação, desta ou daquela espécie, acontecem coisas, de modo que as horas de sono são uma continuação das horas de vigília. A propósito dos sonhos há muita mistificação: eles precisam ser interpretados e, por isso, há tantos profissionais, “interpretadores dos sonhos” — quando vós mesmo podeis observá-los, prestando atenção a vossa vida durante as horas do dia. Mas, por que há necessidade de sonhos (se bem os psicólogos afirmam que, se não sonharmos, enlouqueceremos) ? Se observardes muito atentamente as vossas horas de vigília, vossas atividades egocêntricas, vossos temores e ansiedades, vossos “sentimentos de culpa” — se ficardes atento a tudo isso, a cada movimento de vosso pensamento, a cada uma de vossas palavras, vereis que, durante o sono, não tereis sonhos. Se fizerdes isso, conhecereis a sua beleza — não do fastidioso trabalho de observar, mas a beleza de observar. Vereis, então, que, no sono, haverá atenção. E a meditação, essa coisa de que estivemos falando durante esta hora, se tornará extraordinariamente importante e valiosa, cheia de dignidade, de graça, de beleza. Compreendendo-se o que é atenção, não só durante as horas de vigília, mas também durante o sono, a mente inteira se torna plenamente desperta. Além deste ponto, nenhuma espécie de descrição é a coisa descrita. O que se pode fazer é apenas mostrar a porta. Se estiverdes disposto a ir até a porta, a vós é que caberá transpô-la. Ninguém pode descrever-vos aquela coisa inefável, que pode ser nada ou pode ser tudo. Quem quer que a descreva, não sabe. E quem diz que sabe, não sabe.

I n t er r o g a n t e : Que é quietude, que é silêncio? É o fim do barulho?

K r is h n a m u r t i: O som é uma coisa extraordinária. Não sei se já alguma vez escutastes o som — não os sons de que gostais ou de que não gostais — se, simplesmente, escutastes um som! O som, no espaço, tem um efeito maravilhoso. Já escutastes um avião a jato a cruzar os ares? Escutastes, sem nenhuma resistência, o som profundo que ele produz, deixando-vos levar por ele, por sua mágica ressonância?

Agora, que é silêncio? É o “espaço” que produzis e chamais “silêncio”, pelo controle, pela repressão do barulho? O cérebro está constantemente ativo, reagindo, com seu próprio barulho, aos diferentes estímulos. Que é silêncio? Compreendeis agora esta pergunta? É o silêncio a cessação do barulho produzido pelo “eu”? A cessação da “tagarelice”, da verbalização, de todo e qualquer pensamento? Mesmo quando já não há verbalização e o pensamento aparentemente cessou, o cérebro continua em movimento. Não é o silêncio, por conseguinte, tanto a cessação do barulho como a completa cessação de todo o movimento? Observai isso, penetrai-o, vede como o vosso cérebro, resultado de milhões de anos de condicionamento, reage instantaneamente a cada estímulo; vede se essas células cerebrais, que estão incessantemente ativas, “tagarelando”, reagindo, podem quietar-se.

Pode a mente, o cérebro, o organismo inteiro, essa totalidade psicossomática, quietar-se completamente — sem a forçarmos ou compelirmos, sem dizermos, por efeito de nossa avidez: “Quero quietar-me, a fim de ter a mais maravilhosa das experiências” ? Examinai bem isso, para descobrirdes, verdes se o vosso silêncio é um mero produto, ou se porventura ele existe porque lançastes a base adequada. Se não lançastes essa base, que é amor, que é virtude, que é bondade, que é beleza, que é a verdadeira compaixão, existente bem no fundo de vosso ser, se não lançastes essa base, vosso silêncio é apenas a cessação do barulho.

Há, também, o problema das drogas. Na índia, na antiguidade, havia uma substância chamada soma — uma espécie de cogumelo, cujo suco era bebido, produzindo tranqüilidade ou experiências alucinatórias de todo gênero, experiências que eram o resultado do condicionamento da pessoa. (Todas as experiências resultam de condicionamento; se credes em Deus, tendes naturalmente a experiência de Deus; mas essa crença baseia-se no medo e nas agonias do conflito; vosso Deus é produto de vosso medo. E, assim, a mais maravilhosa experiência de Deus nada mais é do que vossa própria projeção). Mas, perdeu-se o segredo daquele cogumelo, daquela coisa chamada soma. Desde então, apareceram na índia, tal como aqui, várias drogas, tais como hashish, L.S.D., maconha, tabaco, bebida, heroína — sabeis da grande quantidade que delas existe. Há também o jejum. No jejuar, verificam-se certas reações químicas, proporcionadoras de alguma clareza e de deleite.

Se temos a possibilidade de viver belamente sem o auxílio de drogas, por que tomá-las? Mas aqueles que as tomam dizem-nos que elas provocam certas alterações; surge uma certa vitalidade, uma certa energia, e desaparece o espaço entre o observador e a coisa observada; as coisas são vistas com muito mais clareza. Diz um deles que as toma toda vez que vai a um museu, porque vê então as cores mais esplendorosas do que nunca. Mas, podem-se ver as cores com igual intensidade, sem o auxílio da droga, desde que se preste atenção, que se observe sem o espaço entre o observador e a coisa observada. Quando se tomam drogas, fica-se na dependência delas e, mais cedo ou mais tarde, se farão sentir os seus desastrosos efeitos.

Assim, por meio de jejuns e de drogas, esperam aquelas pessoas seja satisfeita a sua ânsia de uma experiência superior, que lhes proporcione tudo o que desejam. E o que elas almejam é uma coisa tão sem valor — alguma experiência insignificante que se encheu de vento para parecer uma coisa extraordinária. Assim, o homem sensato que observou tudo isso rejeita todos os estimulantes; esse homem se observa e conhece a si próprio. O autoconhecimento é o começo da sabedoria e o fim do sofrimento.

I n t e r r o g a n t e : Nas relações corretas, ajudamos realmente os nossos semelhantes? É suficiente amá-los?

K r is h n a m u r t i: Que é “relações”? Que entendemos por “relações”? Estamos em relação com alguém? Estamos alguma vez em relação com alguma coisa, vivendo cada um de nós uma vida de isolamento — isolamento, no sentido de atividade egocêntrica, cada um com seus próprios problemas, seus temores, seus desesperos, seu desejo de preenchimento? Um homem que, como se costuma dizer, está em relação com sua esposa, tem imagens acumuladas. Essas imagens é que estão em relação •— e a essa relação chama-se “amor” ! Só existem relações quando a imagem, o “processo” isolante, desaparece, quando ele nada ambiciona dela, nem ela dele, quando ela não o possui, nem ele a possui, não depende dela, nem ela depende dele.

Se há amor, não se pergunta se ele ajuda ou não. Uma flor, à margem da estrada, com sua beleza, seu perfume, não chama os passantes para cheirá-la, olhá-la, deliciar-se com ela, ver-lhe a beleza, a delicadeza, a efemeridade — ela lá está, para quem olhá-la ou não olhá-la. Mas, se dizemos “quero ajudar os outros”, aí começa o medo, aí começam todos os males.

San Diego State College, 9 de abril de 1970

Do livro Fora da Violência – Jiddu Krishnamurti