Meditação na concentração e nossa atenção – Joko Beck

Muitas formas de prática, comumente chamadas de meditação concentrativa, buscam estreitar a percepção consciente de alguma maneira. Os exemplos incluem recitar mantras, concentrar-se numa imagem visual, trabalhar com o Mu (de maneira concentrada) e até mesmo acompanhar a respiração se isso for feito de modo a deixar de fora os demais órgãos dos sentidos. No processo de afunilamento da atenção, essas práticas rapidamente criam certos estados agradáveis. Podemos sentir que nos esquivamos de nossos problemas porque nos sentimos mais calmos.

Quando nos instalamos nesse foco tão estreito, podemos depois de um certo tempo até entrar em transe, com aspectos de torpor e sossego, num estado em que tudo nos escapa. Apesar de esses momentos serem úteis, toda prática que afunila nossa percepção consciente é limitada. Se não levarmos em conta tudo em nosso mundo, tanto de natureza física como mental, perderemos alguma coisa. Uma prática estreita não se transfere bem para o resto de nossa vida; quando a levamos para o mundo, não sabemos como agir e podemos ainda nos sentir bastante constrangidos.

Uma prática de concentração, se fôssemos muito persistentes (como eu costumava ser), pode momentaneamente nos forçar a atravessar nossa resistência, e então ter um vislumbre do absoluto. Essa abertura forçada não é realmente autêntica; algo fica de fora. Embora tenhamos um vislumbre do outro lado do mundo fenomênico, captando o nada ou o puro vazio, ainda existe um eu realizando isso. A experiência continua sendo dualista e limitada em sua aplicabilidade.

Por outro lado, a nossa percepção consciente como prática é tal que recebe tudo o que acontece. O “absoluto” é simplesmente tudo em nosso mundo, esvaziado do conteúdo emocional pessoal.

Começamos por esvaziar-nos nós mesmos desses pensamentos autocentrados, ao aprendermos a estar cada vez mais conscientemente perceptivos em todos os nossos momentos. Embora uma prática de concentração possa focalizar a respiração e bloquear o som dos carros ou o falatório de nossa mente (o que nos deixa perdidos quando permitimos que qualquer espécie de experiência penetre na consciência), a prática da percepção consciente está aberta a qualquer experiência presente — em todo este incômodo universo — e ajuda-nos a irmos aos poucos nos desemaranhando de nossas reações e apegos emocionais.

Toda vez que temos uma queixa a respeito de nossas vidas, estamos naquele tipo de distância de que falei. Na prática da percepção consciente, observamos nossos pensamentos e a contração de nosso corpo recebendo tudo isso e voltando para o momento presente. Esse é o tipo mais árduo de prática. Preferiríamos com certeza fugir dessa cena ou então permanecer mergulhados em nossos pequenos transtornos. Afinal de contas, todas as nossas adversidades nos mantêm como o centro das coisas ou pelo menos assim acreditamos. A atração de nossos pensamentos autocentrados é como pisar na lama: nosso pé consegue a custo se despregar e já está preso de novo. Podemos nos libertar lentamente, mas, se pensarmos que é fácil, estaremos nos enganando.

Toda vez que estivermos aborrecidos, estaremos nessa distância; nossas emoções autocentradas, o que nós queremos de nossa vida, predominam. No entanto, nossas emoções do momento não são mais importantes do que encostar a cadeira de volta no lugar ou recolocar a almofada no lugar certo.

A maioria das emoções não decorre do momento imediato, como quando presenciamos a cena de uma criança sendo atropelada por um carro, mas são geradas por nossas exigências autocentradas de que a vida seja como nós queremos que ela seja.

Embora não faça mal ter essas emoções, aprendemos pela prática que elas não têm importância em si. Endireitar o lápis sobre a carteira é tão importante quanto se sentir abandonado ou solitário, por exemplo. Se conseguimos vivenciar o sentir-se solitário e enxergar nossos pensamentos a respeito de estarmos solitários, então conseguimos sair do fosso dessa distância. A prática é esse movimento, vezes e vezes seguidas. Se nos lembramos de algo que aconteceu há seis meses e com essa recordação surgem sentimentos de aborrecimento, nossos sentimentos devem ser vistos com interesse, e nada mais. Embora possa parecer uma coisa fria, é necessária essa atitude para que nos tornemos pessoas genuinamente afetivas e compassivas. Se nos percebemos pensando que nossos sentimentos são mais importantes do que aquilo que está acontecendo num dado momento, precisamos observar a presença desse pensamento. Varrer a calçada é realidade; nossos sentimentos são uma coisa que nós criamos, como uma teia que fiamos e na qual nos enredamos. É um processo surpreendente esse em que nos metemos — em certo sentido, somos todos malucos.

Quando vejo meus pensamentos e observo as sensações do meu corpo, reconheço a minha resistência para praticar com essas vivências e depois volto para terminar de escrever a carta que estava fazendo, então estou me arrancando do fosso da distância e entrando na percepção consciente. Se formos de fato persistentes, dia após dia, iremos gradualmente descobrir nosso caminho para sair dessa insensata confusão que é a nossa vida pessoal. A chave é atenção, atenção, atenção.

Preencher um cheque é tão importante quanto o angustiante pensamento de que não veremos um ente querido. Quando não trabalhamos com o fosso criado pela desatenção, todos os outros pagam um preço.

A prática é necessária para mim também. Vamos supor que eu anseio pela visita de minha filha na época do Natal, e ela me telefona para dizer que não vem. A prática ajuda-me a continuar a amá-la em vez de me sentir contrariada porque ela não fará o que eu queria que fizesse. Com a prática, posso amá-la com mais plenitude. Sem a prática, eu me sentiria uma velhinha solitária e desamparada. Em certo sentido, amor é simplesmente atenção, simplesmente percepção consciente. Quando me mantenho conscientemente perceptiva, posso lecionar bem, o que é uma forma de amar; posso colocar menos expectativas nos outros e servi-los melhor; quando vir minha filha outra vez, não trarei antigos ressentimentos para esse encontro e serei capaz de vê-la com olhos novos.

Assim, a prioridade é aqui e agora. Aliás, existe uma só prioridade e é a atenção ao momento presente, seja qual for seu conteúdo. Atenção significa atenção.

Charlotte Joko Beck em  Nada de Especial Vivendo Zen