Trechos do livro De olhos bem abertos: cultivando o discernimento no caminho espiritual

Jack Kornfield, um mestre do budismo theravadano, gosta de dizer que, “Se quiser saber o quanto alguém é iluminado, pergunte à sua mulher/marido”.

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Em primeiro lugar, é importante reconhecer a onipresença do comportamento escandaloso no caminho espiritual. Embora haja casos de abusos que envolvem risco de vida, eles são exceção. A maioria das transgressões é menos grave – e, por isso, menos visível – e inclui coerção psicológica, financeira e sexual. Mais comum ainda é o fenômeno da mediocridade espiritual, que acontece quando indivíduos despreparados colocam-se – ou são colocados – prematuramente em posições de poder que não estão em condições de administrar. Nessas circunstâncias, a manipulação sutil ou a disfunção organizacional é instituída no interior de um grupo espiritual, racionalizada muitas vezes com uma terminologia espiritual, ou dármica. Seria muito bom acreditar que o rótulo “espiritual” representa um compromisso com uma integridade impecável; mas, no mundo moderno, cujos deuses são o dinheiro, o poder e a fama, o simples fato de rotular um mestre ou um caminho de “espiritual” não isenta ninguém da mesma corrupção que ocorre em todos os outros aspectos da vida.

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Quando a corrupção espiritual está presente, ela sugere que, além do propósito consciente da aliança entre o discípulo e o mestre – iluminação espiritual, despertar, servir a Deus, ou um outro objetivo qualquer – existem também necessidades e acordos inconscientes, que podem incluir a necessidade do mestre se sentir importante, no comando, especial, indispensável ou amado, ao passo que o discípulo pode precisar inconscientemente ser salvo, protegido, cuidado ou absolvido da necessidade de crescer e assumir responsabilidade pessoal por seus comportamentos.

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É mais que aconselhável abordar os caminhos e práticas espirituais com um ceticismo inteligente. Uma vigilância inteligente é necessária por dois motivos: porque entidades, mestres e comunidades espirituais que operam num plano elevado de integridade em todas as suas dimensões são a exceção, e porque nossa atração pelos caminhos e práticas espirituais em geral resulta de uma combinação de necessidade autêntica da alma com necessidades psicológicas e pontos cegos inevitáveis.

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No entanto, descartar a possibilidade de vida espiritual autêntica só porque existe também uma espiritualidade fraudulenta, do tipo “ouro dos tolos”, é tão absurdo quanto desistir da possibilidade de encontrar o amor só porque tivemos algumas relações afetivas desastrosas. Um dos principais objetivos deste livro é oferecer apoio para aprendermos a nos orientar no grande pântano de nossos conceitos espirituais e psicológicos, e dos mecanismos egoicos sutis, para podermos fazer escolhas espirituais inteligentes e produtivas em nossa vida.

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Portanto, se conseguirmos revisar efetivamente nossas ideias a respeito de iluminação, talvez sejamos poupados da experiência de cair em muitas armadilhas do caminho espiritual que serão inevitáveis sem essa revisão, várias das quais serão discutidas no próximo capítulo. Embora no começo possa ser muito decepcionante nos darmos conta de que não somos tão sábios quanto julgávamos secretamente, e de que não estamos tão perto de um objetivo imaginário da vida espiritual como esperávamos estar, também ficamos mais humildes e mais realistas quando abrimos mão da perspectiva com foco em objetivos.

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E se a iluminação tiver menos a ver com fogos de artifício e felicidade permanente e mais com a dissipação das ilusões que temos a respeito do que é a vida em si? Com tornar-nos mais autênticos, compassivos e realistas – e parar com nosso fingimento? Como deixar as camadas protetoras da estrutura de nossa personalidade se desintegrarem? Com tornar-nos progressivamente agentes de transformação mais efetivos, e aliviar o sofrimento do mundo, a começar pelos nossos? Depois de todos os meus anos de consultório, entrevistas e investigações sobre a espiritualidade, passei a acreditar que, embora caminhos diferentes tenham objetivos diferentes, um caminho espiritual autêntico e integrado deve nos tornar mais humanos, não menos.

De olhos bem abertos: cultivando o discernimento no caminho espiritual – Mariana Caplan

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