Meditação: Como Escapar para Dentro da Vida

Trecho de Meditação: Como Escapar para Dentro da Vida – Shinzen Young, com Michael Toms (não me recordo bem onde encontrei esse PDF então vou deixar um link aqui mesmo e vocês podem baixar para ler meditação como escapar para dentro da vida)

MT: Se lhe pedíssemos para nos contar uma história que resuma o melhor possível a essência do que recebeu do seu primeiro mestre, qual seria?

SY: Pouco antes de ser ordenado como monge, o abade me mostrou um papel. “Este é o honmyo (nome de dharma) que estou pensando dar para você. Parece-lhe bem?” perguntou. No papel, em forte caligrafia, estavam dois caracteres chineses pronunciados Shinzen em japonês. Shin significa verdade, e Zen (que, neste caso, não é o mesmo caractere usado no Budismo Zen), significa bondade. Fiquei surpreendido, pois compreendi imediatamente o significado dos dois caracteres. Eles representavam os elementos essenciais que constituem qualquer senda espiritual realmente matura. Balbuciei algo assim: “É muito bonito, mas duvido que consiga estar à altura.”. Ele continuou: “Pode ser que sim, mas se sente bem com esse nome?”. Respondi: “Claro que sim.”. Assim, ele me deu um nome que sempre me recordaria o mais importante. Isto foi há 30 anos!

Na tradição budista, a palavra verdade implica um insight, ou seja, um claro conhecimento experimental do processo impessoal e sem esforço subjacente a todas as nossas experiências. Através do insight, uma pessoa aprende a participar conscientemente desse processo. Ao fazê-lo, ela transcende até certo ponto a condição humana, ultrapassando sua identidade pessoal limitada. Isto, porém, não constitui só por si uma senda espiritual completa. Também se necessita bondade. A bondade implica a capacidade de manifestar um “eu” pessoal que se envolve com o próximo. A bondade encontra sua expressão suprema em uma vida de serviço sem esforço. Transcender a condição humana, melhorar a condição humana e compreender a relação complementar entre estes dois elementos são o essencial, são nossa tarefa básica. Um insight libertador que não se converte em serviço é espiritualmente limitado. Por outro lado, tentar ajudar as pessoas sem possuir antes pelo menos algumas ferramentas de transcendência pode levar a pessoa à exaustão e a um comportamento deturpado.

Mas temo que tudo isto possa soar um pouco abstrato. Deixem-me tentar tornar o que digo mais palpável.

Tal como um diamante precioso, o insight libertador possui muitas facetas. Uma dessas facetas é saber atravessar a inevitável dor física e emocional da vida, senti-la de verdade e, no entanto, não sofrer por causa dela. O conceito de dor sem sofrimento pode parecer um total absurdo. Essa dor dói? Sim! Ela eclipsa a perfeição do momento presente? Não! Na realidade, ela é a perfeição do momento.

É extremamente importante compreendermos a diferença entre dor e sofrimento. Quando você compreende isto, seu sentido de segurança deixa de depender dos caprichos das circunstâncias. Mas ainda, quando compreende a diferença entre dor e sofrimento, compreende também a diferença entre ser motivado por emoções e sentimentos e ser compelido por eles. E compreende também como pode sentir profunda empatia sem que isso drene sua energia.

O sofrimento é função de duas variáveis: a própria dor e a resistência à mesma. Com resistência quero referir-me à interferência com o padrão de fluxo natural da dor. Infelizmente, a resistência começa no mais profundo do processamento pré-consciente do sistema nervoso.

Assim, quando percebemos conscientemente uma onda de dor, esta já foi congelada em um bloco de sofrimento. É por isso que a maioria das pessoas considera que dor e sofrimento são o mesmo.

Porém, sofrimento é igual a dor multiplicada por resistência (grosso modo). Isto é verdade quer a dor seja física quer seja algo emocional como ira, tristeza, medo, embaraço ou remorso. Se nós aplicarmos consistentemente este insight a vários tipos de dor, o hábito de resistir é “desaprendido” em níveis cada vez mais profundos do processamento neural. Você acaba, então, por poder finalmente ter a experiência literalmente sísmica da dor pura. Dor pura é dor não misturada com resistência. Uma dor pura causa pouco sofrimento, por mais intensa que possa ser. Adicionalmente, ela purifica. A energia dessa dor revolve a substância de sua alma, desfazendo nós e grumos para você.

A pura dor purifica, mas o sofrimento torna a pessoa rígida, frágil e desumanizada. Aqueles que seguem a senda da auto-mortificação necessitam ter bem claro este ponto.
Como é evidente, tudo o que eu disse sobre a dor é válido também para o prazer, embora de certa maneira ao contrário. O sofrimento é diretamente proporcional à resistência que opomos à dor. A satisfação é inversamente proporcional ao grau de apego ao prazer. Quanto menos “agarramos” um fluxo de prazer, maior a satisfação que derivamos dele. E, é claro, o prazer puro purifica.

Assim, uma das facetas do insight tem que ver com aprender a sentir dor e prazer de uma forma radicalmente nova. Mas na prática como se faz isso? Bem, você desenvolve o poder de concentração através da prática meditativa. Isto lhe permite, ocasionalmente, afirmar tão completamente a realidade, observada instante após instante, de uma experiência que não lhe sobra tempo para congelar essa experiência em um objeto rígido, nem tampouco lhe sobra tempo para manter uma percepção de si mesmo separada da própria experiência. Você e a vivência desaparecem em um todo. É tudo e nada ao mesmo tempo —“Todo y nada”, como dizia S. João da Cruz. Assim, uma faceta do insight libertador tem que ver com aprender a diminuir o sofrimento e elevar a satisfação através de uma experiência completa do prazer e da dor. Outra faceta tem que ver com a capacidade de ter uma experiência completa de todo seu “eu”, do ego pensante/sensível, de sua identidade limitada. Quando temos uma experiência completa do “eu” pensante/sensível, nós nos libertamos dele. Afirmamos tão completamente a experiência, instante após instante, da nossa auto-consciência que não nos sobra tempo para congelar essa auto-consciência em um objeto com extensão no tempo e no espaço. Tudo o que é contrátil em nós colapsa interiormente em um ponto adimensional. Tudo o que é expansivo em nós se dissipa exteriormente em direção ao infinito. Nós abraçamos/abarcamos toda a criação, tanto de dentro para fora quanto de fora para dentro. As duas forças fundamentais da natureza (expansão e contração) se separam, desfazendo no processo o próprio tecido do “eu”. O “eu” se dissolve de novo nessas forças e se converte nelas. Então, uma vez que deixou de haver um “eu” solidificado alojado entre elas, as forças de expansão e contração podem se tocar diretamente. Elas interagem e se neutralizam mutuamente. Não há, então, ondas de força que moldem e dêem existência ao tempo, ao espaço, à individualidade e ao mundo. Fica só a verdadeira paz, a paz que supera o entendimento.

Quando temos essas experiências muitas, muitas vezes, aprendemos a perceber toda a criação como algo que não é fundamentalmente distinto de nós mesmos. O amor, compaixão e desejo de servir surgem espontaneamente. Isto nos traz ao tema do serviço, da bondade, o segundo elemento essencial da senda espiritual. Tal como o insight, também o servir compreende muitas facetas. Gostaria de falar sobre somente um desses aspectos, um aspecto muito enfatizado pelo Dalai Lama: a compaixão.

A compaixão se pratica de dois modos: sutil e abertamente. Você pode sutilmente servir qualquer pessoa com quem tenha uma interação se permitir que a dor dela e o respectivo veneno ressoem profundamente dentro de você, e se vivenciar completamente essa dor e veneno para que não se transformem em sofrimento dentro de você. Esta é uma alternativa saudável tanto para a dura indiferença quanto para o envolvimento emocional excessivo e irritante.

Este serviço sutil é uma extensão natural do processo de auto-liberação. Você purificou sua própria dor sentindo-a voluntariamente com atenção consciente e com equanimidade. Agora, em suas interações diárias, você se abre à dor dos outros. Mas ao fazê-lo, você vai impregnando a dor de atenção consciente e equanimidade enquanto ela reverbera em seu interior. Ao vivenciar a dor alheia desta forma liberada, você está ajudando sutil e subliminalmente o outro a fazer o mesmo. As pessoas querem que você esteja por perto, mas não conseguem explicar exatamente por quê. A razão é que seu corpo está continuamente pregando um sermão sem palavras a cada pessoa com quem comunica, mesmo que seja em situações ordinárias. É altamente gratificante poder compartilhar a dor (paixão) sem ter que compartilhar o sofrimento.

O sutil é significativo, mas devemos também servir de uma forma mais aberta, palpável. A forma que este serviço aberto assume depende dos nossos interesses e capacidades pessoais, e das normas da cultura na qual vivemos. Para alguns, ele se expressa na maneira como criam suas famílias. Para outros, assume a forma de ações sociais ou profissões de assistência. Alguns podem expressá-lo através do uso de poderes especiais, como a capacidade de curar. Para muitos, o serviço aberto consiste em ensinar e dar apoio à prática espiritual das pessoas.

Assim, meu primeiro mestre comunicou toda a riqueza da senda através dos dois caracteres do nome que decidiu me dar.

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