A mente sem um ponto de referência

No caminho do meio não há nenhum ponto de referência. A mente sem um ponto de referência não se estabelece, não pode ser fixada ou apreendida. Como é possível que não tenhamos um ponto de referência? Não ter um ponto de referência seria mudar uma resposta habitual e profundamente arraigada ao mundo: querer que o mundo funcione de uma forma ou de outra. Se eu não puder ir para a esquerda ou direita, vou morrer!

Quando não vamos para a direita ou para a esquerda, sentimos como se estivéssemos em um centro de desintoxicação de vícios. Estamos abruptamente sozinhos, sem mitigação e com toda a ansiedade que tentamos evitar indo para a esquerda ou para a direita. Essa ansiedade pode parecer muito pesada. No entanto, anos e anos indo para a esquerda ou para a direita, de sim ao não, do certo ao errado, nada mudou. Lutar pela segurança nunca nos trouxe nada além de felicidade momentânea. É como mudar a postura de nossas pernas durante a meditação. Nosso corpo dói de sentar com as pernas cruzadas, então nós os movemos. E então sentimos: “Ufa, que alívio!” Mas dois minutos e meio depois, queremos movê-los novamente. Continuamos nos movendo em busca de prazer, em busca de conforto, mas a satisfação que obtemos é muito curta.

Ouvimos muito sobre a dor do samsara e também sobre a libertação. Mas não ouvimos muito sobre como é doloroso deixar de estar completamente preso e sair dessa prisão. O processo de desengajamento requer uma coragem tremenda, porque basicamente estamos mudando completamente a maneira como percebemos a realidade, como mudar nosso DNA. Estamos desfazendo um padrão que não é apenas nosso. É o padrão humano: projetamos no mundo milhões de possibilidades de como poderíamos alcançar uma solução. Podemos ter dentes mais brancos, um jardim sem ervas daninhas, uma vida sem conflitos, um mundo sem vergonha. Podemos viver felizes para sempre. Esse padrão nos deixa insatisfeitos e nos causa muito sofrimento.

A meditação nos fornece uma maneira de treinar no caminho do meio – ficar bem no meio dele. Somos encorajados a não julgar nada que venha à mente. O que normalmente chamamos de bom ou mau, simplesmente reconhecemos como pensamento, sem o drama usual que vem junto com “bom” ou “mau”. Somos instruídos a deixar os pensamentos irem e virem como se tocássemos uma bolha de sabão com uma pena. Essa disciplina direta nos prepara para parar de lutar em constantemente e descobrir um estado de ser novo e imparcial. A experiência de certos sentimentos pode parecer particularmente repleta de um desejo de resolução: solidão, tédio, ansiedade. A menos que possamos relaxar com esses sentimentos, é muito difícil permanecer no meio quando os experimentamos. Queremos vitória ou derrota, elogio ou culpa. Por exemplo, se alguém nos deixa, não queremos sofrer aquele desconforto. Em vez disso, evocamos uma identidade familiar de nós mesmos como vítimas infelizes. Ou talvez evitemos a aspereza agindo e dizendo à pessoa, com pretensão de justiça, como ela está confusa. Queremos automaticamente encobrir a dor de uma forma ou de outra, identificando-nos com a vitória ou com o papel de vítima.

Pema Chödrön

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